milton luiz cleve kuster

MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER

Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".

Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster

Opinião

Tinta e a alma: a escrita como terapia e espelho do autoconhecimento

Um mecanismo de defesa da nossa mente

31/07/2026

Na aula de quinta-feira passada, o tema de nossa aula, na Escola de Criação Literária foi sobre técnicas de redação e leitura crítica. Lembrei-me da quinta série: o professor colocou uma folha de papel em frente de cada aluno, comentou sobre alguns temas sobre os quais deveríamos fazer a escolhas e iniciar a escrita. Escolhido o tema, iniciei a escrita e no quarto parágrafo veio o “branco”. Perguntei então ao professor se isso era comum, especialmente para pessoas que estão acostumadas a escrever, mas em situações completamente diferentes. A resposta foi um sim, por conta de alguns processos de travamento.

O famoso "branco" diante da folha em branco – o bloqueio criativo – é uma das experiências mais universais e frustrantes para quem escreve, seja alguém que está começando ou um autor experiente. E isso não é sinal de falta de talento ou de vocação, mas sim de um mecanismo de defesa da nossa própria mente.

Fui pesquisar! Descobri então por que o "branco" acontece:

● O Juiz Interno (Censura Prévia): O principal motivo do bloqueio é a tentativa de escrever um texto perfeito logo na primeira tentativa. A nossa mente analítica (o lado esquerdo do cérebro) tenta controlar o processo criativo antes mesmo que ele aconteça, julgando cada ideia antes de ela ir para o papel.

● Sobrecarga de Expectativas: Quando temos muitas opções de temas ou sabemos da importância daquele exercício, geramos uma pressão inconsciente por um resultado brilhante. Essa ansiedade paralisa os centros criativos do cérebro.

● O Mito da Inspiração Mágica: Muitas vezes esperamos que as ideias venham prontas, polidas e organizadas. Quando nos sentamos e percebemos que o fluxo de pensamento é fragmentado, sentimos que "deu branco", quando na verdade o processo de escrita exige que o texto seja construído aos poucos.

Verifiquei então, que os motivos que cercam esse fato são vários e variáveis; no caso, entendi que a pressão e o ambiente não eram favoráveis. No outro dia, em casa e no local onde costumo escrever, senti que há algo profundamente mágico no ato de transpor o pensamento para o papel. O que antes habitava o território caótico, nebuloso e por vezes sufocantes da mente ganha, ao toque da caneta ou ao ritmo do teclado, contornos tangíveis. A folha em branco deixa de ser um vazio intimidador para se tornar um santuário de acolhimento. Mais do que um mero registro de fatos ou uma ferramenta de comunicação, a escrita assume o papel de uma das mais puras formas de terapia e autoconhecimento: um espelho onde a alma se reflete sem filtros.

A verdade é que, desde os tempos ancestrais, o ser humano recorre aos diários e registros íntimos não apenas para documentar a história, mas para sobreviver a ela. Quando externalizamos nossas dores, angústias, alegrias e epifanias, operamos um distanciamento saudável. O turbilhão emocional que antes nos oprimia converte-se em enredo; o monstro invisível ganha nome, tamanho e proporção. Escrever sobre o que nos machuca é, em essência, dar forma física ao sofrimento para poder, enfim, negociar com ele. É um processo de elaboração psíquica em que o autor se torna, simultaneamente, paciente e cirurgião de suas próprias feridas.

Nessa jornada terapêutica, o autoconhecimento surge como um fruto natural e inevitável. No cotidiano automatizado, frequentemente usamos máscaras sociais e vestimos couraças para nos proteger das expectativas alheias. Escrevendo, no entanto, não há plateia. As defesas caem. Diante da página, somos forçados a confrontar as nossas contradições, a examinar os recantos mais escuros de nossas sombras e a reconhecer desejos que tentávamos silenciar. A narrativa escrita atua como um escaneamento interno, revelando padrões de comportamento, crenças limitantes e feridas antigas que continuavam a ditar as regras do nosso presente.

Além de organizar o caos interno, a escrita liberta. O papel aceita tudo: a raiva desmedida, a tristeza sem motivo aparente, o medo irracional e a paixão avassaladora. Nada é julgado ou censurado pela folha. Esse transbordamento emocional promove um alívio neurológico e psicológico mensurável, desacelerando o ritmo cardíaco e devolvendo a clareza mental. É o que a literatura e a psicologia chamam de catarse: a purificação das emoções através da expressão artística e sincera.

Em última análise, redigir a própria história é um ato de soberania. É assumir a autoria da própria existência, percebendo que não somos meros espectadores ou vítimas dos acontecimentos, mas intérpretes e roteiristas da nossa trajetória. Quando escrevemos, costuramos os retalhos esparsos da memória e da identidade, criando um sentido onde antes havia apenas fragmentos. Que possamos, portanto, redescobrir o poder terapêutico da escrita: um retorno corajoso a si mesmo, onde cada palavra cravada no papel é um passo a mais rumo à liberdade.

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