LUIZ FELIPE DE LIMA

LUIZ FELIPE DE LIMA

Formado em História pela Unicentro, é professor e um apaixonado pela história de Guarapuava. Pesquisador no campo da História das Relações Internacionais e Geopolítica.

Opinião

Nos tempos dos meus pais

Dos tempos que todo mundo cita ao que ninguém vive, tradições são invocadas e gerações são insultadas. Afinal, qual tempo é melhor?

24/08/2026
Luiz Felipe de Lima: Em uma noite de sábado como essa em que escrevo esse texto acompanhado de uma taça de vinho, perto das 22h, o maior programa para uma criança ou adolescente era assistir à novela das oito junto com os paisLuiz Felipe de Lima: Em uma noite de sábado como essa em que escrevo esse texto acompanhado de uma taça de vinho, perto das 22h, o maior programa para uma criança ou adolescente era assistir à novela das oito junto com os pais"

Dom. 23 de ago. de 2026

Sempre que os tempos de antigamente são invocados para justificar algo, é quase certo que um historiador pensa em se atirar de um penhasco. E que fique claro: não há nenhum problema com tal “antiguidade”, é como as gerações se encontram, se insultam e negam umas às outras que a cultura e a história são mutáveis. Para ser honesto, para muitas pessoas essa mudança não existe e nem deveria existir. É quase certo que se você, assim como eu, nasceu nos anos 1990, se encontra no meio de frequentes diálogos sobre como a modernidade é uma praga e como o passado é uma desgraça, quer seja o primeiro para os mais velhos ou o segundo para os mais jovens.

O mundo dos anos 1990 era muito diferente do que é hoje. Em uma noite de sábado como essa em que escrevo esse texto acompanhado de uma taça de vinho, perto das 22h, o maior programa para uma criança ou adolescente era assistir à novela das oito junto com os pais e depois assistir ao programa humorístico Zorra Total, da TV Globo e, na sequência um filme em “SuperCine”; quem nunca dormiu no sofá e acordou na cama, que atire a primeira pedra. Entre 2009 e 2014, a vida noturna, as primeiras baladas eram a regra, viver a noite era ser “badalado” – termo que nem usa mais hoje em dia. Atualmente, nem sei o que um adolescente faz numa noite de sábado, não me misturo com essa gente.

Tradições, hábitos, costumes – em suma – estão amarrados, em sua maioria, aos preceitos religiosos de uma comunidade, que por muitas décadas foram seguidos à risca e respeitados. À medida em que os anos vão passando e que a cultura e que o comportamento humano vão sofrendo mutações, é natural que haja o choque geracional. A geração millenial, por exemplo, foi a última a viver em um mundo sem internet, mas isso não nos impediu de experimentarmos um mundo novo e totalmente diferente daquele que conhecíamos. Em contrapartida, a geração Z e a geração Alpha já nasceram extremamente integradas ao mundo digitalizado e totalmente tecnológico. Aliás, o próprio uso da palavra tecnologia é mal empregado. A invenção da roda foi a maior tecnologia na Era do Bronze e acompanhada por outro grande avanço tecnológico: a invenção da escrita.

Curiosamente, se você perguntar a uma criança e a um adulto o que é tecnologia, terá respostas praticamente idênticas na maioria dos casos, é provável que crianças respondam carros voadores, coisas do futuro, celulares modernos, internet, computador, geladeira, luz, inteligência artificial (eu amo o raciocínio das crianças – agradeço aos meus entrevistados, Isis, João e Benício), enquanto que para um adulto nascido entre 1960 e 1985, tecnologia é tudo aquilo que há de “moderno”, “avançado”, “evoluído”. Para um homem ou mulher de mais de 60 anos, tecnologia é uma tv “fininha”, enquanto que a tv de antigamente era enorme, pesava horrores e tinha apenas dois canais, além da imagem em preto e branco. Para quem viveu fazendo ligações de um telefone do meio da rua e que tinha um nome medonho de “orelhão”, a invenção do telefone móvel foi a grande mudança do século. Aliás, para alguém nascido nos anos 1990, usar o vocábulo “telefone” já é sinal de idade avançada, hoje o “correto” é smartphone ou celular. Fui chamado de velho por uma colega de trabalho por chamar o telefone de telefone. No fim, tecnologia é o conjunto de conhecimentos, técnicas, ferramentas e métodos criados pelo ser humano para resolver problemas práticos, facilitar tarefas e transformar o ambiente.

Mas então entra o choque geracional. “Antigamente não tinha isso”, “antigamente não era desse jeito”. É uma tendência de cada geração diminuir as gerações que sucedem a sua. Há 25 anos era inadmissível um pai ou mãe ter que negociar com o filho para tomar banho ou dormir na hora certa; para muitas pessoas é um avanço, para outras tantas é um desaforo, ou – como diria meu pai – é o poste mijando no cachorro. A mudança comportamental de gerações e dos próprios estudos sobre comportamento e educação de crianças tem apontado para um caminho cada vez mais diferente e desenvolvido no trato de adultos com crianças. E isso não é algo ruim, substituir a surra de chinelo por uma conversa resolutiva é extremamente positivo. O problema não é o método, mas como e por quem ele é aplicado. Não se pode ensinar truques novos a um macaco adestrado na base da pancada e esperar que ele replique tal comportamento no dia seguinte. Macaco vê, macaco faz. O saldo positivo dessa mudança talvez seja visto somente a partir dos filhos da geração Beta (aqueles nascidos pós 2025) que terão seus filhos pelo menos a partir de 2045 (é o que se espera).

Junto com esse choque de idades entra também o abandono de costumes, tradições, hábitos. Para modelos de cultura mais interiorana e com bases religiosas, é comum que crianças e adolescentes com avós vivos na casa dos 60 ou 70 anos, ainda peçam a bênção aos velhinhos como um sinal de respeito. Essa é uma prática que começa, aos poucos, a se perder. Como falava no artigo sobre as benzedeiras, dificilmente teremos homens ou mulheres que saibam as técnicas de remédios caseiros daqui 10 ou 20 anos. E talvez a maior paradoxo nessa história toda é querer que algo mude sem que nada realmente deixe de ser do jeito que realmente foi um dia.

O passado não muda, mas o nosso olhar sobre ele se transforma

O historiador francês Lucien Febvre criou a ideia de que “a história é filha do seu tempo”, isto é, a maneira com que olhamos, contamos e escrevemos sobre o passado é sempre moldada pelas perguntas, valores e pelas necessidades do presente. Ou seja, o passado não muda, mas o nosso olhar sobre ele se transforma à medida em que a sociedade muda. Àqueles que defendem essa a permanência de valores éticos, morais, religiosos, políticos chamamos de conservadores; é nesse contexto que também trago à luz um outro conceito de outro historiador inglês, Eric Hobsbawm, que trata da “invenção das tradições”, ele mostra que muitos rituais e hábitos que parecem antigos e naturais foram, na verdade, criados recentemente por grupos ou governos. O objetivo é dar uma ideia de passado e união para ajudar a controlar a sociedade ou criar uma identidade nacional. E no final, a ideia é sempre a mesma: “se foi sempre assim, por que mudar?”

O imediatismo de cada geração nos fez criar a percepção de que sempre estamos inventando a roda, trazendo algo que somente a nossa geração é capaz. Para a geração Z, status é conceito de futilidades que o dinheiro pode comprar e o que pode ser exibido nas redes sociais. Os millenials, no meio do caminho, se prendem a uma falsa tradição da geração boomer com uma curiosidade imensa pela vida da geração Z. As gerações Alpha e Beta enxergam um mundo novo, em que não há vida longe da tela e do Minecraft.

E como esse é um texto de opinião e totalmente tendencioso (risada sincera kkkkkkk), respondo ao meu próprio questionamento sobre qual tempo é melhor: os millenials tiveram tudo de mão beijada em sua maioria e não souberam aproveitar, mas ainda é o melhor tempo. Como escreveu Hobsbawm em A Era das Revoluções, o mundo em 1780 é que ele era ao mesmo tempo menor e muito maior que o nosso [...] estar perto do porto era estar perto do mundo. Hoje, estar perto do mundo é estar diante da tela de um celular ou de um computador.

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