milton luiz cleve kuster

MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER

Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".

Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster

Opinião

O esquecimento das praças

Não é apenas uma praça abandonada. É o sintoma de uma doença maior

17/04/2026

Há praças que guardam memória, e há praças que guardam apenas silêncio. A Praça Cleve, em Guarapuava, é uma delas — aquela que leva o nome de meu antepassado, de um homem que ajudou na construção da cidade com as mãos e deixou raízes profundas no chão vermelho do Paraná. Hoje, ela é um monumento ao esquecimento.

Você passa por lá e vê o abandono como quem observa um corpo definhando. A sujeira não é acidental; é negligência sedimentada, camada sobre camada de desprezo. Os bancos, antes lugares de encontro, agora são trincheiras de quem não tem para onde ir. O monumento ao meu tetravô — aquele que ajudou a tecer a história da cidade — permanece como testemunha muda de uma sociedade que perdeu a bússola ética.

O que aconteceu conosco?

Não é apenas uma praça abandonada. É o sintoma de uma doença maior: a ruptura do fio que une gerações. Nossos antepassados não construíram cidades para que seus netos as esquecessem. Construíram com a convicção para que a memória é um bem público e que honrar quem veio antes é honrar a si mesmo.

Mas algo se quebrou. Talvez tenha sido o ritmo acelerado da modernidade, que nos faz correr tão rápido que não vemos o chão sob nossos pés. Talvez seja a fragmentação das comunidades, em que vizinhos não se conhecem mais, e em que a praça deixou de ser o coração da cidade para se tornar um vazio. Ou talvez — e isto é mais difícil de admitir — seja a indiferença deliberada, aquela que escolhe não ver porque ver exigiria agir.

A praça como espelho.

Uma praça abandonada é mais que negligência urbana. É um espelho que reflete nossa própria desconexão com a história. Quando permitimos que o lugar onde nossos avós caminharam se torne um ponto de tráfico e vício, estamos dizendo algo muito claro: que o passado não importa, que a continuidade não importa, que a dignidade do que foi construído não importa.

O monumento que homenageia meu tetravô permanece ali, impassível, como um juiz silencioso. Ele viu a praça florescer, talvez. Viu gerações nascerem e crescerem sob sua sombra. E agora vê o abandono — não como castigo, mas como prova de que algo essencial se perdeu em nós.

O resgate começa com o reconhecimento.

Mas há uma verdade que não pode ser ignorada: praças não se abandonam sozinhas. Elas são abandonadas por escolha — a escolha de administradores que não priorizam, de cidadãos que passam de cabeça baixa e de uma sociedade que preferiu investir em condomínios fechados a manter vivos os espaços públicos que nos definem como comunidade.

O resgate da Praça Cleve não é apenas uma questão de limpeza e manutenção. É um ato de reafirmação: de que a memória importa, de que nossos antepassados merecem mais do do que o abandono, de que a cidade pertence a todos e não apenas àqueles que podem pagar por segurança privada.

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