milton luiz cleve kuster

MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER

Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".

Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster

Opinião

A lata rebelde

Ninguém esticou a mão; um fantasma da indiferença coletiva

30/03/2026

Caminhava eu pela praia, pés afundando na areia morna, quando o mar me devolveu um presente indesejado: uma lata de cerveja, enferrujada pelo sal, debatendo-se entre as ondas como um náufrago teimoso. "De onde veio?", pensei. Das correntes distantes ou da mão preguiçosa de algum banhista? Não importava. Fiz meu trajeto, voltei, e lá estava ela ainda, desafiando o sol poente.

Parei, disfarçado de observador casual. Esperei. Quantas almas passaram? Dez, vinte? Olhares desviados, risadas ecoando das tendas armadas como fortalezas de lazer. Famílias rindo de piadas bobas, casais entrelaçados, grupos de amigos brindando com garrafas frias – ironia cruel. Ninguém parou. Ninguém esticou a mão. Era como se a lata fosse invisível, um fantasma da indiferença coletiva.

"Alguém vai pegar", murmurava minha mente otimista. Mas o tempo escorria como a espuma das ondas. Retornei para casa, mas não resisti: curvei-me, segurei a lata fria e a ergui como um troféu. Foi aí que os olhares mudaram. Das tendas, cabeças se viraram. Sorrisos congelaram em interrogações. "Quem é esse maluco?", pareciam dizer. Caminhei devagar, desviando das barracas, sentindo o peso não da lata, mas de dezenas de olhos me perfurando. Eu, o ET da praia. O intruso que ousou romper o pacto silencioso: "Não é comigo".

Por quê? Ah, o mistério humano. Psicólogos chamam de "efeito espectador": em grupo, ninguém age porque espera que outro o faça. Na praia brasileira, onde o lixo acumula 80% das areias urbanas (diz o MMA), isso vira lei não escrita. Rimos, relaxamos, mas o planeta geme. Eu, com minha lata na mão, quebrei o ciclo. E, no fundo, sorri: amanhã, talvez um daqueles olhares se curve para outra lata. Uma faísca acende fogueiras.

Levei-a para o ponto de coleta. O mar limpou um pedaço de si. E eu? Voltei humano, mas um pouco mais ET – do tipo que inspira.

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