milton luiz cleve kuster

MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER

Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".

Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster

Opinião

A viúva do interior

Tia Ivete, diante do caixão, fazia o que lhe cabia com convicção

13/04/2026

Em cidade pequena, a viuvez nunca chega sozinha. Vem acompanhada de cadeiras extras, panela no fogo, gente entrando sem bater e um número impressionante de opiniões a respeito da vida alheia.

Quando Oswaldo morreu, o velório de Tia Ivete pareceu confirmar essa regra com zelo exemplar. A casa encheu-se de parentes, vizinhos, curiosos e conhecidos de conhecidos, como se a notícia tivesse sido distribuída não pelo sino da igreja, mas pelo próprio vento. Havia choro, sim, mas havia também café forte, bolo de chocolate, vinho servido sem cerimônia e aquela movimentação de sala cheia em que o luto, no interior, nunca se apresenta em silêncio absoluto.

Tia Ivete, diante do caixão, fazia o que lhe cabia com convicção. Chorava, soluçava e dizia, entre uma exclamação e outra, frases que logo entrariam para a memória da família:

— Coitado do povrezinho... mas o caixão é o mas lindo, o mas caro que tinha...

Alguns abaixavam os olhos para esconder o riso. Outros fingiam gravidade para não cometer desrespeito. Mas ninguém duvidava da sinceridade dela. Tia Ivete não era mulher de medir sentimento com régua fina. Sofria com abundância. E, ao sofrer, fazia questão de que a boa reputação do morto saísse dali tão bem vestida quanto ele.

Oswaldo fora homem de posses e desconfianças. Tinha dinheiro, terras e uma cautela quase supersticiosa com bancos — embora, ironicamente, deixasse neles guardada a fortuna. Vivia como quem temia que o mundo, por maldade ou desorganização, resolvesse um dia sumir com tudo.

Depois do enterro, quando as visitas rarearam e o café voltou a ser servido em quantidade humana, veio a revelação prática da vida: Tia Ivete era, afinal, senhora de muito mais do que parecia. E talvez pela primeira vez, de fato senhora.

A cena no banco merecia pintura. Entrava com a bolsa junto ao braço e uma firmeza nova no passo. Os gerentes, treinados para a solenidade do patrimônio, logo apareciam com água, cafezinho e uma delicadeza que costuma florescer quando fareja saldo alto.

— Em que podemos ajudar, dona Ivete?

Ela respondia com a simplicidade de quem não via ali nenhum mistério:

— Eu quero levar todo o meu dinheiro.

Os funcionários sorriam com a paciência técnica de quem imagina estar diante de um mal-entendido.

— Mas por quê?

E ela, então, devolvia a frase com uma clareza que nem o luto tinha conseguido dissolver:

— Porque o dinheiro é meu.

Talvez tenha sido esse o verdadeiro inventário de Oswaldo: não a soma dos bens, mas a descoberta tardia, por parte da viúva, de que a posse também muda a postura. A dor continuava ali, é claro. Mas agora vinha de mãos dadas com uma espécie de soberania doméstica, quase silenciosa, que ninguém lhe conhecia.

Na família, a história ficou. Não apenas pela cena do velório, nem pelo célebre caixão “mas lindo, mas caro”, mas porque, depois da morte de Oswaldo, Tia Ivete passou a caminhar pelo mundo com o ar de quem finalmente recebera, além da herança, a chave da própria porta.

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