MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
O encontro internacional de motos e os bancos rasgados
Rasgou-se o couro com lâmina, com dolo, com a frieza de quem sabe exatamente o que faz
15/07/2026
Havia no ar aquela eletricidade boa que precede os grandes encontros. A cidade – a minha cidade natal, com suas ruas iluminadas e enfeitadas e a praça matriz onde aprendi a andar de bicicleta – preparava-se para o festival de inverno. Não um evento qualquer, mas a afirmação de um lugar que resolvia abrir-se para o turismo de época, para o devir, para o mundo.
E, como atração paralela, um encontro internacional de motocicletas. Motos. Máquinas de rugir estradas, de colecionar quilômetros na carne do asfalto. Imagine: centenas de viajantes do asfalto convergindo para o mesmo ponto no mapa, trazendo no guidão histórias de outras geografias. Pelas redes sociais, acompanhei de longe o sucesso do evento. Fotos de sorrisos, cumprimentos com capacetes debaixo do braço, motos enfileiradas como obras de arte sobre rodas. A cidade pulsava. Respirava. Existia.
Mas eis que, como em toda narrativa que se preze, a sombra chegou.
Alguém – ou alguns – decidiu rasgar os bancos das motocicletas. Não por engano, não por acidente. Rasgou-se o couro com lâmina, com dolo, com a frieza de quem sabe exatamente o que faz. Estiletes anônimos abriram feridas no assento de cada máquina estacionada, como quem viola a intimidade de um lar. O estrago não foi apenas material – foi um atentado contra a pertença, contra o liame que o motociclista constrói com sua montaria.
Rasgar os bancos das motos não foi apenas destruir couro e espuma – foi rasgar a imagem de uma cidade que ensaiava, com esforço genuíno, seu reencontro com a própria dignidade. Foi uma medida da barbárie contra o progresso.
Eis a tragédia do vandalismo: ele não fere apenas a coisa, mas o símbolo. Cada banco rasgado era uma sentença contra o esforço coletivo.
Contra os comerciantes que prepararam estoques, contra os organizadores que passaram noites em claro, contra os motociclistas que cruzaram fronteiras para estar ali. Contra a cidade que festejava o fato de ser anfitriã.
O festival de inverno seguirá. O encontro de motos, talvez também. Mas o rasgo no banco – aquele talho vertical, quase cirúrgico – ficará como cicatriz na memória urbana. Uma lembrança de que o progresso, para se consolidar, precisa de educação, precisa de segurança, precisa de monitoramento.
Resta à cidade o que sempre restou aos lugares que ousam sonhar grande: a resiliência. Que os bancos sejam recompostos. Que o festival de inverno se repita. Que os motociclistas voltem. E que os vândalos, esses seres sem rosto que habitam o anonimato das madrugadas, descubram um dia que rasgar o banco de uma moto é, no fundo, rasgar a própria possibilidade de pertencer a algo maior.
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