JOSÉ CANTOS LOPES FILHO
Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.
Entre Rios e eu: partes de uma mesma história
"Precisa-se de professor de química para trabalhar em Entre Rios – Guarapuava"
08/03/2026
A chegada dos Suábios do Danúbio no Porto de Santos (1951), a caminho das colônias de Entre RiosEm 1951, numa estrada de chão conhecida como Guaiapó, nas imediações do nascente município de Maringá, nascia um menino chamado José. Cresceu junto com a cidade, acompanhando o avanço das ruas vermelhas, das lavouras de café e das primeiras salas de aula. Tornou-se químico, depois professor, como se o conhecimento fosse também uma forma de enraizamento.
Foi nesse mesmo 1951 que, a centenas de quilômetros dali, o distrito de Entre Rios, em Guarapuava, começava a existir. O mundo ainda sentia as cicatrizes da Segunda Guerra Mundial, e um grande grupo de imigrantes suábios do Danúbio, expulsos de suas terras na Europa, encontrava no Brasil a promessa de recomeço. Vieram embarcados no navio Provence, sob bandeira suíça, com destino ao porto de Santos. De lá, seguiram de trem, a velha Maria-Fumaça, até Góes Artigas, onde desembarcaram para iniciar a colonização da região. Assim nascia Entre Rios: entre campos, rios e silêncios.
Vinte e oito anos depois, em Maringá, o jovem José, agora químico e professor recém-formado, foi ao Departamento de Química da universidade para se despedir do professor Jacó, chefe do departamento. Um abraço rápido, palavras breves. Ao sair, no mural do corredor, um bilhete escrito à mão chamou sua atenção:
“PRECISA-SE DE PROFESSOR DE QUÍMICA PARA TRABALHAR EM ENTRE RIOS – GUARAPUAVA.”
Ele arrancou o papel do mural, dobrou-o com cuidado e guardou no bolso da camisa. Embarcou num ônibus com destino a Curitiba. Na parada de Ponta Grossa, ainda de madrugada, desceu para um café quente. Foi então que viu a bilheteria da Princesa dos Campos anunciando um ônibus para Guarapuava nos próximos trinta minutos.
Retirou o bilhete do bolso, releu com atenção, voltou ao ônibus, pegou a mochila, comprou a passagem, e ali mesmo mudou o destino da própria viagem.
Ainda naquela madrugada, como forasteiro, desembarcou numa velha rodoviária no centro de Guarapuava. Pouco depois, conseguiu carona num ônibus que levava funcionários para trabalhar na Cooperativa Agrária. Cruzaram a ponte sobre o rio Jordão, enquanto os passageiros cantavam músicas de Milionário & José Rico. Foi assim que cheguei a Entre Rios, e cheguei para ficar.
Quatro dias depois, estacionei uma Honda CB 200 em frente ao Colégio Imperatriz Dona Leopoldina. Era 1978. Entre Rios já não era mais um começo, mas ainda não havia se misturado completamente ao Brasil. Vivia um tempo de maturidade silenciosa. A Cooperativa Agrária era o eixo da vida econômica e social. O trigo, a cevada, o leite, os silos e as máquinas agrícolas ditavam o ritmo das estações e do humor coletivo.
Meus alunos, em sua maioria suábios de segunda geração, traziam consigo uma hierarquia social discreta, porém perceptível: quem estava dentro da cooperativa, quem trabalhava para ela, quem vinha de fora. Tudo parecia funcional, correto, sem excessos.
O português era falado, claro, mas o alemão ainda ecoava nas conversas dos mais velhos, nas igrejas, nas reuniões comunitárias. Para o professor forasteiro, havia uma sensação dupla: acolhimento educado, porém atravessado por uma distância invisível. Um ano depois de chegar nesta escola eu já ensinava química falando assim:
Natriumhydroxid reagiert mit Salzsäure und bildet Natriumchlorid und Wasser.
Em 1978, troquei as terras vermelhas de Maringá e o cheiro do café pelo ar fresco das araucárias e pelo odor dos grãos armazenados.
O vento era constante nos campos abertos; ao longe, o ronco baixo dos tratores se misturava ao silêncio respeitoso das vilas ao cair da tarde. Em contraste com os cafezais que eu conhecia, encontrei uma geometria agrícola quase europeia: estradas de terra bem cuidadas, casas sóbrias, jardins contidos, algumas com um pouco de ostentação.
Para o professor que vinha de Maringá, Entre Rios parecia organizado demais, silencioso demais, correto demais. Porém, foi ali que me casei. Foi ali que criei raízes fora do lugar onde nasci. E, por tudo isso que vivi e escrevi, sei que também sou, ainda que discretamente, parte da história de Entre Rios.
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