JOSÉ CANTOS LOPES FILHO
Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.
Uma aula que durou 48 anos
Guarapuava me recebeu com seu frio cortante e um céu sempre cinzento
30/03/2026
Dizem que algumas pessoas passam pela vida da gente como vento: sopram, refrescam e desaparecem. Outras ficam. Mas há também aquelas que voltam, atravessando décadas, quilômetros e lembranças, trazendo o passado amarrado no bagageiro de uma moto.
Foi em abril de 1978 que tudo começou. Eu cheguei a Guarapuava montado numa Honda CB200 vermelha, barulhenta, cheirando a gasolina e juventude. Na mochila, alguns livros de Química; na cabeça, mais dúvidas do que certezas.
Guarapuava me recebeu com seu frio cortante e um céu sempre cinzento. O colégio onde iria lecionar estava plantado no meio de uma floresta de araucárias, e parecia um mundo fechado em si: alunos descendentes de imigrantes alemães, professores também alemães, todos falando com sotaque carregado. Eu, estrangeiro de Maringá, recém-formado em Química, tentava encontrar um lugar.
E encontrei.
Entre quadros-negros riscados de fórmulas, tubos de ensaio e vidros de ácido que às vezes se derramavam pelo balcão, aprendi a ser professor, e sem perceber, comecei a escrever capítulos na vida de jovens que, até então, eram apenas nomes no diário de classe.
Mas ali, naquele cenário úmido e reservado, fiz amigos, dei aula de Química e, sem querer, acabei marcando vidas.
Ou pelo menos, na vida de um deles.
⸻
28 DE ABRIL DE 2025 — Sexta-feira Santa
Quase meio século depois, o telefone toca. Atendo sem imaginar que aquela voz traria de volta o inverno de 1978.
— Professor! Aqui é o Alberto Schlafner… lembra de mim?
Lembrar?
Como esquecer?
Ele, que certa vez derrubou uma proveta de ácido sulfúrico e quase jogou água em cima para limpar, ainda bem que foi “quase”. Ele, filho do meu amigo Tony Schlafner, dono das uvas mais doces da Colônia. Ele, aluno do meu primeiro emprego, no Colégio Imperatriz Dona Leopoldina.
A voz tinha emoção e um quê de sotaque mineiro. Alberto contou que vivia entre Belo Horizonte e Ouro Preto, mas que queria fazer uma viagem: rodar 1.400 quilômetros para rever amigos, e principalmente, para abraçar um professor que, segundo ele, havia sido “o mestre mais inspirador” de sua vida.
E riu:
— Professor, o senhor não sabe… minha paixão por motos começou naquele dia em que vi o senhor chegar na escola, de CB200.
Respondi no mesmo tom:
— Claro que lembro. Minha coluna até hoje também lembra.
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A lembrança voltou inteira, nítida.
Era manhã quando minha moto subiu o degrau do portão da escola e entrou roncando no pátio. Em segundos, alunos e alunas me cercaram, comentando aquele estranho magrelo cabeludo que desceu da moto carregando três livros de Química. Para mim, foi um choque: um monte de jovens loiros, de olhos claros, todos olhando como se eu tivesse vindo de outro planeta.
No meio deles, um menino pequeno, silencioso, quase invisível. Não se misturava à algazarra, apenas observava. Aproximou-se devagar, ficou olhando a moto de perto. Era Alberto Schlafner.
De longe, lembro bem, a secretária loira da escola correu até a janela. Ficou me espiando, curiosa. Mas eu, meio atordoado, passei rápido sem notar. Entrei direto na sala do diretor, onde um senhor simpático, de baixa estatura, me recebeu com um sorriso caloroso estendendo a mão:
— Seja bem-vindo à nossa escola, professor José. Eu sou Kurt Klenz, o diretor.
Foi assim que começou.
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O Encontro
Alguns dias depois do telefonema, lá estava ele. Alberto Schlafner, montado numa BMW GS1250, atravessando estradas, serras e fronteiras de tempo. O motor rugia, mas era o coração que acelerava.
Quando nos vimos, bastou um olhar. Ele, de boné, com cabelos rareando. Eu, de fios totalmente grisalhos. Mas o reconhecimento foi imediato, como se a sala de aula apenas tivesse mudado de endereço.
Fomos para uma choperia.
Rimos alto.
Bebemos.
Brindamos.
Contamos histórias repetidas, esquecemos que já as havíamos contado, e não fez diferença alguma. Era como se o intervalo da aula de Química, interrompido em 1978, tivesse apenas se prolongado até agora.
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No final da tarde, entre chope e lembranças, percebi uma verdade simples: a vida é feita desses milagres discretos. Reencontros improváveis que reacendem a chama e provam que nada foi em vão.
Envelhecer… descobri, não é tragédia. É privilégio. É ter no corpo as marcas de quem atravessou estações, mas ainda guarda forças para brindar a vida — e celebrar um encontro 48 anos depois.
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Na despedida, já meio altos, Alberto me abraçou com a força de quem reencontra a raiz que o formou. A voz embargou:
— Professor… se eu tivesse que rodar esses 1.400 km outra vez, rodaria sem pensar. Porque tem gente que a gente não encontra duas vezes na vida. O senhor foi ponto de partida.
Não soube responder. Disfarcei o nó na garganta com um gole de espuma. Quem diria? O menino da terceira fila, agora homem feito, cruzando o país só para agradecer.
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Fiquei parado no estacionamento, vendo a moto sumir na noite. O rastro vermelho da lanterna traseira foi desaparecendo, como a cena final de um filme.
Voltei para casa com o peito aquecido — não apenas pelo álcool, mas pela certeza de que, em cada aula, em cada palavra, em cada gesto, a gente deixa um rastro. Uns discretos, outros barulhentos como motor em alta rotação.
Mas todos, todos mesmo, valem a viagem.
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