JOSÉ CANTOS LOPES FILHO
Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.
A praça da alegria
Colônia Vitória – Entre Rios
23/03/2026
Maringá, março 1978.
Um ciclo da minha vida se aproximava do fim. Eu havia concluído o curso de Química, já era professor, e começava a compreender o peso e a beleza das escolhas que a vida me mostrava.
Naqueles dias, ouvia incansavelmente Taiguara, sua voz parecia traduzir o que eu sentia, especialmente quando dizia:
“Só fecha o seu livro quem já aprendeu
Só peça outro amor, quem já deu o seu
Quem não soube a sombra, não sabe a luz.”
Deitado em minha surrada cama da av. Mauá em minha cabeça a música, e os versos me atravessavam como um espelho. Falavam de um amadurecimento que eu começava a viver na pele, a certeza de que era preciso errar, sofrer, se doar e aprender antes de seguir adiante. Cada verso soava como uma lembrança e que as minhas experiências verdadeiras não eram lineares nem fáceis.
Percebia, então, que crescer era justamente isso: enfrentar as sombras para merecer a luz. E eu, naquele momento de transição, sabia que estava apenas fechando um livro, não por cansaço, mas porque, enfim, havia aprendido que tinha uma missão, eu era professor… e eu ia ensinar química. Meu levantei daquela cama, apaguei a luz do quarto, vesti uma camisa rubro negra do Flamengo, montei em minha Honda CB200 e fui embora para sempre.
Colônia Vitória, junho 1978
Quando cheguei a Guarapuava, eu era um forasteiro que chegou de moto, o vento dos campos de Entre Rios trazia vozes antigas, um idioma que eu ainda não compreendia. A paisagem era toda verde e marrom, estradas, um mar de milho, soja, cevada, araucárias e silêncio. Numa república de professores o frio cortava como faca, e a solidão se assentava no peito como hóspede teimoso.
Eu vinha do norte quente, das ruas empoeiradas de Maringá, trazendo comigo uma mala, alguns livros de química, um diploma recém-conquistado e o medo de não pertencer a lugar algum. Entre Rios me recebeu com o cheiro de erva mate e da terra molhada; e aos poucos, aquele território estranho foi se tornando meu lar.
Dois meses depois, eu já me sentia um guarapuavano adotado, morando entre os alemães da Colônia Vitória. Começava a entender as primeiras palavras do dialeto que se misturava ao vento frio, e nas tardes sem pressa subia na moto e ia até o posto de gasolina. Lá havia um banco de madeira comprido, algumas cadeiras gastas e, sobretudo, uma roda de conversa que o tempo batizara de “Praça da Alegria”.
Todas as tardes apareciam os mesmos rostos: o cartorário João Farah, o gerente Nilvo Hoffman do Unibanco, prof de geografia Inácio Schneider, os agrônomos que moravam comigo na república, chefes da Cooperativa Agrária, fazendeiros prósperos, o médico do hospital, o prefeito de cada colônia, o delegado da colônia, e, agora, o recém-chegado professor de química, o tal “professor Cantos”.
A cuia de chimarrão girava de mão em mão, de boca em boca, e foi ali, entre goles amargos e risadas sérias, que aprendi a saborear o mate e as histórias daquele povo.
Falava-se de tudo: colheitas, clima, política, fofocas das cinco colônias. E, de repente, vivi algo inédito. Sempre que o assunto tocava na ditadura de Geisel ou em qualquer tema espinhoso, todos se voltavam para mim:
– Vamos ouvir o que o professor acha disso.
Caracas! Minha opinião importava!
Pela primeira vez, alguém queria saber o que eu pensava. O jovem maringaense, o rapaz tímido e invisível, estava sendo sepultado ali mesmo, sob as araucárias do Colégio Imperatriz e agora no banco da Praça da Alegria e, de suas cinzas, nascia o professor Cantos, o pensador, o cidadão respeitado.
Foi numa dessas tardes que João Farah comentou, distraído:
– Preciso vender meu carro.
Mal terminou a frase, e eu já disparei:
– Eu compro seu Fusca vermelho! Metade agora, metade no mês que vem.
No dia seguinte, a chave me esperava no café da manhã da república. Saí para o trabalho de carro, o primeiro carro da minha vida. Estacionei debaixo do grande pinheiro do colégio, girando as chaves no dedo, querendo mostrar ao mundo minha conquista e a secretaria loira do colégio ficou olhando da janela. Mas tirando a secretária, ninguém mais ligou ou deu a mínima. Lá, carro era coisa comum. Só para mim, era um troféu.
Enquanto o laboratório novo chegado da Alemanha tomava forma, bancadas, vidrarias, reagentes cuidadosamente distribuídos, o diretor Curt Klemz observava tudo, desconfiado. Nunca imaginara que o sujeito meio tresloucado que chegou de moto fosse capaz de tanto. Mas elogios não eram do feitio dele. Apenas dizia com voz firme:
– Deixe tudo bem arrumado para a visita do embaixador, daqui a quinze dias.
O tempo passou, os anos passaram e o banco da Praça da Alegria se manteve alegre e bem informado como sempre havia sido.
Então, na Colônia Vitória, eu percebi que aquela praça já não era apenas um banco de madeira ao lado de um posto, era o símbolo da minha chegada à vida adulta, o lugar onde aprendi a existir entre o riso dos outros e o silêncio de mim mesmo.
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