JOSÉ CANTOS LOPES FILHO
Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.
Uma ordem que trabalha no silêncio
Um monumento que traduz transformação
26/05/2026
Há cidades que se anunciam pelo barulho, buzinas, vitrines, letreiros luminosos. Outras, como Guarapuava PR, preferem falar baixo. E, curiosamente, dizem muito.
Logo na entrada, na avenida principal, erguem-se três colunas firmes, lado a lado, sustentando uma pedra cúbica, bem talhada, bem assentada, como se tivesse encontrado, enfim, o seu lugar no mundo. Abaixo delas, quase em contraste proposital, repousa um bloco disforme, irregular, cheio de arestas, a pedra bruta. É um monumento simples na aparência, mas profundamente simbólico: a transformação.
Quem passa por ali percebe, ainda que sem compreender totalmente, que há algo sendo dito. A cidade revela, sem palavras, a presença de uma ordem que trabalha no silêncio. A maçonaria está ali, não escondida, mas também não alardeada. Discreta. Como convém.
Sempre achei curioso esse equilíbrio entre o visível e o invisível. Porque, afinal, a maçonaria nunca foi exatamente secreta, seus princípios são conhecidos, seus símbolos estão à vista. O que ela preserva não é o mistério pelo mistério, mas o valor do silêncio. Não é esconder-se do mundo, mas não depender dele para validar o que se faz.
Viajei por muitas cidades deste país, do Sul ao Nordeste, e em várias delas encontrei sinais semelhantes. Um compasso aqui, um esquadro ali, um monumento acolá. Quase como um sussurro coletivo dizendo: “há irmãos trabalhando”. E, de certa forma, parece haver orgulho nisso. Um orgulho compreensível, até.
Mas, diante daquelas colunas de Guarapuava, me ocorreu uma inquietação.
Se a essência do trabalho maçônico está na lapidação da própria pedra, na transformação silenciosa do bruto em perfeito, será que essa obra precisa mesmo de vitrines? Será que a virtude, quando iluminada demais, não corre o risco de se tornar espetáculo?
A filosofia maçônica ensina que cada homem é uma pedra bruta, carregada de imperfeições, chamada ao trabalho paciente do aperfeiçoamento.
Cinzelar-se é tarefa íntima. Não há plateia nesse ofício. O verdadeiro progresso acontece longe dos aplausos, no silêncio onde a consciência é ao mesmo tempo juiz e testemunha.
Lembrei-me então do tronco de beneficência, aquele gesto discreto, quase invisível, em que a mão deposita sem revelar. Ali está um dos ensinamentos mais nobres: fazer o bem sem registrar autoria, sem contabilizar reconhecimento, sem esperar retorno. Um ato que não busca eco, apenas sentido.
Talvez por isso o monumento seja mais profundo do que parece. Não é apenas uma exaltação da obra pronta, a pedra cúbica sobre as colunas. É também um lembrete daquilo que permanece abaixo: a pedra bruta, imperfeita, sustentando todo o processo. Como se dissesse que a verdadeira grandeza não está no que se mostra, mas no que se transforma.
E transformar-se, no fundo, é um trabalho silencioso.
Não é fácil, admito. Vivemos tempos em que tudo pede visibilidade, em que o bem, muitas vezes, vem acompanhado de anúncio. Fazer sem mostrar parece quase um contrassenso. Mas é justamente aí que reside a força do caráter: na escolha de agir sem depender do olhar alheio.
Quando o bem é praticado no anonimato, algo sutil acontece. Ele não apenas alcança o outro, ele retorna, molda, aperfeiçoa quem o praticou. É a pedra sendo lapidada por dentro, longe das luzes, mas cada vez mais próxima da forma ideal.
Talvez seja esse o verdadeiro ensinamento escondido naquela avenida de Guarapuava: não importa quantos vejam a pedra cúbica. O que realmente importa é o compromisso contínuo de trabalhar a pedra bruta, especialmente aquela que ninguém vê.
Porque, no fim, o reconhecimento mais legítimo não vem da cidade, nem dos aplausos, nem dos monumentos.
Vem do silêncio.

