José Cantos Lopes Filho

JOSÉ CANTOS LOPES FILHO

Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.

Opinião

O giz e o horizonte

Eu próprio aprendi, às vezes pela dor, às vezes pela graça, que viver não é seguir uma linha reta

05/04/2026

Ninguém tem a vida toda resolvida. Muito menos eu, José, professor aposentado. 

Aos 20, eu não sabia de nada, embora tivesse emprego e o Brasil tivesse acabado de conquistar o tri. Meu pai, eufórico, subiu na carroceria de um caminhão verde e desceu a Avenida Brasil em Maringá comemorando, nunca tinha visto isso antes na vida dele. Foi inesquecível! Eu achava que o futuro seria simples, automático, uma estrada bem traçada. Ledo engano.

Aos 30, a vida também não estava organizada. Mudei de cidade, tinha um casamento recém-iniciado, uma filha bebê nos braços e um carro na garagem. Mesmo assim, dentro de mim morava um jovem cheio de dúvidas, tentando adivinhar o caminho pelo cheiro do vento.

E aos 60, quando pendurei o giz, recebi a aposentadoria e ganhei três netos para iluminar a casa, percebi, quase com espanto, que ainda não tinha chegado ao tal “ponto de equilíbrio” que tantos prometem. A vida continuava a me pedir novas lições.

Com o tempo, depois dos 70, fui entendendo que a gente muda mesmo: muda de sonho, de endereço, de crença, de carreira, de rumo. Tem quem ainda descubra vocação aos 50. Tem quem retorne aos estudos aos 70.

Eu próprio aprendi, às vezes pela dor, às vezes pela graça, que viver não é seguir uma linha reta.
É caminhar por curvas, tropeçar em esquinas, reencontrar atalhos que a gente nem sabia que existiam.

No fundo, talvez meu maior aprendizado, depois de tantos anos ensinando, tenha sido esse: a vida nunca está pronta. A vida apenas segue. E cabe a nós seguir com ela, recomeçando sempre.
Hoje, entendo que o tal “ponto de equilíbrio” não é um lugar onde se chega e se descansa; é o movimento do equilibrista que, para não cair, precisa continuar andando. A plenitude não mora na ausência de dúvidas, mas na coragem de conviver com elas.
Aposentei o giz e o apagador, mas não a curiosidade. Se a vida é um rascunho constante, descobri que não precisamos de uma borracha para apagar o que passou, mas de espaço nas margens para escrever o novo.
Viver, afinal, é essa arte de ser aprendiz do próprio tempo. É aceitar que somos, ao mesmo tempo, o mestre que orienta e a criança que tropeça. E, enquanto houver estrada e o "cheiro do vento" para nos guiar, o destino será sempre menos importante do que o espanto de ainda estarmos a caminho.
Pois a vida não se resolve. A vida se celebra, em cada curva, em cada recomeço.

José

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