JOSÉ CANTOS LOPES FILHO
Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.
Sob a torre da Catedral
Quando atravesso a porta da Catedral, o mundo de fora fica para trás
16/03/2026
Quando cheguei a Guarapuava, isto foi a bastante tempo atrás, bastou erguer os olhos para a Catedral para perceber que ali havia mais do que paredes e fé. Sempre ouvi dizer, quase em sussurro, como quem conta uma lembrança antiga, que aquela igreja não fora sempre assim. Antes, fora outra. Reformada nas primeiras décadas do século XX, carregava no corpo as marcas do tempo e das mãos que a reinventaram.
Naqueles anos, Guarapuava ainda respirava o compasso lento do interior. A cidade se organizava em torno da igreja matriz como quem se reúne em volta de uma fogueira. As ruas centrais eram de terra batida, marcadas pelos sulcos das carroças e pelo passo firme dos cavalos. O comércio se resumia a armazéns de balcão gasto, casas de secos e molhados, pequenas oficinas onde o dia começava cedo e terminava com a luz baixa do lampião.
Tropeiros cruzavam a cidade trazendo notícias, mercadorias e histórias de longe. Era assim que o mundo chegava a Guarapuava: em lombos cansados, em rodas de conversa, em pausas diante da igreja.
A matriz era mais do que templo. Era referência, abrigo, ponto de encontro e medida do tempo. Quando decidiram erguer sua torre, não construíam apenas pedra sobre pedra. Construíam um sinal de progresso, um gesto de fé coletiva, uma afirmação silenciosa de que a cidade crescia e queria ser vista.
A torre subiu com esforço comum: doações contadas moeda a moeda, mutirões, braços simples e esperança farta. Cada morador parecia colocar ali um pouco de si, um dia de trabalho, uma prece, um sonho.
E quando a torre finalmente se fez visível sobre os telhados baixos, Guarapuava soube que não era mais apenas um pouso de caminhos, mas uma cidade que começava a se reconhecer no próprio horizonte.
Hoje eu moro muito próximo dessa Catedral e ali com regularidade frequência eu renovo a minha fé. Quando atravesso a porta da Catedral, o mundo de fora fica para trás. O ruído da praça se desfaz como poeira ao vento, e o primeiro sentimento é de recolhimento. O ar muda. Há um leve cheiro de cera queimada e madeira antiga, misturado ao incenso que parece morar nas paredes.
A luz entra com cuidado. Não invade, pousa! Cada passo ecoa baixo, quase pedindo licença. O silêncio não é vazio; é cheio de presenças.
Quando fecho os olhos, é possível quase ouvir as vozes antigas: missas cantadas, crianças inquietas, suspiros, lágrimas discretas.
Então eu sinto que a fé deste professor, não está apenas nos símbolos, está impregnada na presença Divina naquele no espaço.
Quando saio, algo fica. Não sei explicar exatamente o quê. Talvez seja uma paz leve, talvez um silêncio interior. A Catedral não prometeu nenhum milagres, mas ofereceu presença.
E, isso basta me basta!

