José Cantos Lopes Filho

JOSÉ CANTOS LOPES FILHO

Professor Cantos, aposentado de Química da Unicentro, formado nas exatas, aprendeu que a maior alquimia está nas relações humanas e nas histórias que atravessam o tempo.

Opinião

A porta que caiu e a porta que se abriu

Colégio Carneiro Martins e FAFIG, uma grande mudança

15/04/2026

1988 foi para mim um ano simbólico, marcado pelo fim do regime militar e a transição à democracia, e esse processo afetava a educação em Guarapuava, havia muitos debates sobre currículo, autonomia e espaço público. 

Em Guarapuava essas as instituições regionais como a FAFIG, as mudanças se manifestavam mais lentamente, mas havia mobilizações acadêmicas e reavaliação do papel público da educação superior.  Eu, José Cantos Professor, carregava dentro de mim uma coleção de primeiras vezes. A primeira aula, a primeira gafe, a primeira diretora estadual, o primeiro diretor de faculdade, a a primeira vez que sentia parte de algo maior. Para mim, o ano de 1988 anos foi esse marco: deixei para trás a vida de químico de laboratório, entre carvões ativados e resinas de goma-laca na extinta Brasilac, para mergulhar de vez na aventura da docência. Tinha deixado Entre Rios e Guarapuava seria o palco dessa mudança.

A cidade, fria e acolhedora ao mesmo tempo, me recebeu com salas de aula cheias, corredores barulhentos e professores que se reuniam no recreio como se fosse uma assembleia permanente. Entre colégios, caronas de Maverick, experiências de magnésio que quase pareceram show de rock, e portas de armários caindo em cabeças de diretores, ali começava a se escrever a minha história como educador. Uma história que, sem que eu soubesse, acabaria me levando para dentro de uma faculdade, que um dia se transformaria em nossa Universidade.

História 

Era 1988 e eu chegava vindo da Colônia Vitória para Guarapuava ainda com cheiro de Carvão Brasilac impregnado nas roupas e nos cabelos. Tinha deixado para trás meu emprego de químico em uma Indústria Brasilac de carvão ativado, emprego sério, técnico, muitos conhecidos… mas sem alma. 

Agora, o destino me colocava em outra rota: ser professor de Química naquela cidade fria tão diferente de Maringá de onde tinha vindo.

A maratona era puxada. Lecionava no Colégio Nossa Senhora do Belém, no Colégio Estadual Carneiro Martins e também no Colégio Estadual Ana Vanda Bassara. 

Eu corria de uma escola para outra como se fosse atleta olímpico de laboratório. Ainda bem que tinha a companhia do meu colega de profissão e de altos papos, o professor Victor Hugo Zanette. Ele pilotava um Maverick oito cilindros — aquilo mais parecia um avião sem asas, e me dava carona às dez da manhã. Era só sair do Belém e acelerar até o Carneiro Martins, com o barulho do motor abafando nossas angústias e, claro, a conversa fiada de professores iniciantes.

O Carneiro Martins era um colégio especial: o mais agitado da cidade, centro nervoso de políticas de Educação. 

Ali, muitos professores da FAFIG (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guarapuava) também davam aula. O recreio era um espetáculo à parte: a cada intervalo, um grupo de docentes se concentrava na porta da escola para falar de política, da FAFIG e, claro, para fumar.

O círculo mais respeitado era formado pelo diretor da FAFIG, o professor Wilson Camargo, e figuras marcantes como o professor Jamil Abdanur, que tinha uma mania quase antropológica: arrancava o filtro do cigarro Continental e fumava direto no toco, como se filtro fosse frescura de gente frágil. Havia ainda o professor Amauri  com seu bigodão lecionando Geografia, o professor Paulo Jorge de Biologia, o próprio Zanette de Matemática, o professor Chiquinho um farmacêutico que ensinava química e tantos outros. Eu, novato vindo das colônias e ainda no “baixo clero”, ficava observando de longe, tentando aprender com aquele time que parecia ter sempre uma fumaça e uma opinião pronta. Mas, eles nem notavam que eu existia. 

Certa manhã, a diretora professora Valderez me chamou para conhecer o laboratório de Química. Queria que eu aproveitasse os reagentes e equipamentos, mesmo que em estado duvidoso. Fui todo animado, mas ao abrir um armário aéreo, a porta simplesmente despencou direto na cabeça da professora Valderez . Bahh “Bem-vindo ao laboratório”, pensei, enquanto a diretora se ajeitava com um sorriso amarelo dolorido. 

Do lado, na sala vizinha, estava o professor Camargo lecionando Física. Sorte que ele não percebeu, ou fingiu não perceber, porque a cena foi digna de pastelão. Fiquei famoso naquele colégio por ter acertado a cabeça da diretora. 

Alguns dias depois, de noite, levei meus alunos para uma experiência clássica: queimar fita de magnésio. Apaguei as luzes da sala e organizei os grupos para acenderem as fitas em tempos diferentes. Foi um show de flashes, fumaça e tosses. Parecia que os Beatles estavam fazendo um show secreto no laboratório. 

De repente, os alunos começaram a sair para respirar e, com toda aquela movimentação, o professor Wilson Camargo saiu da sua sala. Ele parou, ficou observando aquela “balada química” e depois se aproximou de mim.

— Opa, boa noite, professor. Tudo bem? Eu sou o professor Wilson Camargo.

— Prazer, professor, sou o prof Cantos, de Química. Sempre vejo vocês no grupo ali da entrada, discutindo a política da faculdade.

— Pois é, é justamente disso que quero falar. Estou precisando de alguém como você lá na FAFIG. Preciso montar um laboratório de Ciências e quero experiências assim, do jeito que você fez aqui hoje.

— O que fiz hoje aqui é experiência básica, professor Camargo, coisa simples…

— Mas nem isso eu tenho lá. Você topa?

Naquele instante, o tempo parou. Era como se eu tivesse ganhado na loteria acadêmica. Não pensei duas vezes:

— Aceito!

No dia seguinte, às 10h, já estava pontualmente no gabinete de Camargo. Ele não enrolou:

— Professor Cantos, tenho 16 horas semanais no curso de Ciências – Licenciatura Curta. O senhor aceita?

— Aceito sem pestanejar, professor. Troco umas aulas no Ana Vanda Bassara e venho para cá.

O vice-diretor, professor Cherigato, entrou na sala, e Camargo foi categórico:

— Destranque todos os caminhos, tire os empecilhos que aparecerem. Quero esse professor trabalhando conosco já.

E foi assim que, com uma porta caindo na cabeça da diretora e um laboratório de fumaça, dei meu primeiro passo dentro da FAFIG, que no futuro se transformaria na UNICENTRO, uma das universidades mais respeitadas do Paraná.

A turma inicial era pequena: apenas sete alunos. Mas deles nasceram amizades e carreiras brilhantes. Entre eles, lembro com carinho da aluna Gislei Rigoni, a aluna Rebeca que concluíram Ciências, depois Biologia, e se tornaram as melhores docentes da universidade.

Foi assim que entrei na Unicentro… e ali fiquei até o dia que me aposentei .

Olho para trás e penso: não foi só sorte. Foi também aquela chama que o magnésio soltou, iluminando o meu caminho. E, claro, a coragem de não desistir mesmo com portas desabando, colégios lotados e Maverick voando pela cidade.

José Cantos Lopes Filho – Professor da FAFIG

Recomendado para você

Últimas Notícias

SUPER BANNER PREF prefig