MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
Às seis da manhã
Atrás do balcão, o padeiro domina a cena
03/02/2026
Às seis da manhã, a padaria não é um comércio. É um acordo coletivo: a gente finge que acordou por vontade própria e, em troca, recebe café.
Ele entra e encontra o elenco fixo do horário, aquele que não muda nem quando muda. O primeiro é o Senhor do Bom Dia: distribui cumprimento como quem carimba documento, olhando nos olhos com uma alegria suspeita. O segundo é o Herdeiro do Silêncio: não fala, não responde, não reage – paga no débito como se fosse um ato íntimo. O terceiro é o Atleta do Tudo Bem: pergunta “tudo bem?” para todo mundo e não espera resposta porque ninguém tem lastro emocional às 6h.
Atrás do balcão, o padeiro domina a cena com a autoridade de quem já venceu a madrugada. Ele não serve pão; ele concede pão. Mexe na chapa com um olhar de veterano, como se dissesse: “se você soubesse o que eu já vi antes de amanhecer, nem pediria ‘caprichado’”.
A fila anda em câmera lenta, mas não por culpa do caixa. É porque, naquele horário, cada decisão pesa: pingado ou café grande? Pão na chapa ou na manteiga? Leite integral ou desnatado – essa mentira contada para si mesmo, geralmente na segunda-feira.
O sujeito da frente pede “um cafezinho”, como se existisse algum café grande o suficiente para o que ele está tentando resolver. A moça do lado pergunta se tem pão sem glúten, e a padaria inteira faz um minuto de silêncio respeitoso por alguém que escolheu sofrer por convicção. Um homem de uniforme, com pressa e olheiras, pede “dois pães e um pingado” com a precisão de quem já repetiu essa frase em 2019, 2020, 2021, 2022, 2023, 2024… e só não repetiu em 2025 porque ainda não chegou lá.
E então surge a figura mais perigosa daquele horário: o Cliente do “Só um minutinho”. Ele entra com a falsa simplicidade de quem vai pedir algo rápido, mas abre a porta do caos:
– Bom dia, chefe. Me vê… deixa eu ver… quais são os recheios do pão de queijo recheado?
O padeiro respira fundo com a paciência treinada em forno. O caixa olha para o teto, como quem conversa com um santo. A fila inteira inclina o corpo milimetricamente para a esquerda – não para enxergar melhor, mas para sinalizar, em linguagem corporal, que aquilo pode virar um incidente diplomático.
O “só um minutinho” continua:
– E esse salgado aqui é assado ou frito?
Ele aponta para a vitrine como se estivesse em um museu de arte moderna. A vitrine, que até então era apenas vitrine, vira palco. O Senhor do Bom Dia, que cumprimentava alegremente, para. A alegria dele agora tem um limite. O Herdeiro do Silêncio levanta um pouco a cabeça, porque até o silêncio tem protocolos.
O padeiro responde, sem perder a mão:
– Frito.
– Ah… e tem sem óleo?
A padaria, por dentro, dá uma gargalhada muda. Porque às seis da manhã ninguém quer verdade, quer consolo. E o consolo, quase sempre, vem com óleo.
Chega a vez dele. Ele pede o básico — café, pão na chapa — com a humildade de quem sabe que, naquele horário, o heroísmo é não complicar. O caixa pergunta:
– Vai mais alguma coisa?
A pergunta é uma armadilha existencial. “Mais alguma coisa” é como a vida fala quando quer testar sua disciplina. Ele olha para a vitrine, e a vitrine olha de volta, cheia de promessas douradas.
Ele diz que não. Diz com firmeza. Diz com convicção. Diz como quem venceu.
Então a atendente passa com uma bandeja de pão de queijo recém-saído, e o cheiro invade o lugar como um argumento irrefutável.
Ele muda de ideia sem cerimônia, com a dignidade de quem já aceitou a própria incoerência:
– Tá. Coloca dois também.
O Senhor do Bom Dia sorri, porque esse é o único final feliz disponível às seis da manhã: a pessoa não resolveu a vida, não reorganizou o mundo, não encontrou propósito. Mas saiu dali com café quente, pão na chapa e a certeza íntima de que, pelo menos hoje, o dia começou com um pequeno suborno legítimo.
E é isso que a padaria faz às seis: ela não alimenta só o corpo. Ela mantém de pé um país inteiro que ainda nem teve tempo de fingir que está bem.


