MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
O discurso que virou poesia
Como a fala de Olegário Küster, que parecia "desastrosa" uniu os Clubes Guayra e Rio Branco em pleno Carnaval
18/03/2026
Poeta, Iracema, Arion e Olegário: parte da Família Küster em GuarapuavaHá histórias que atravessam gerações não apenas como memória familiar, mas como registro de uma época, de suas tensões, suas contradições, e dos pequenos milagres que impediam que tudo desmoronasse.
Esta é uma dessas histórias. Uma história sobre meu avô, Olegário Küster, sobre Guarapuava no início do século XX, e sobre como uma única frase pode conter tanto o abismo quanto a redenção.
(Imagem ilustrativa gerada por IA)
Guarapuava: dois clubes, duas sociedades
Para entender o que aconteceu naquela noite de Carnaval, é preciso entender Guarapuava. Mais especificamente, é preciso entender os dois clubes.
De um lado, o Clube Guayra, fundado em 1904. Símbolo da elite local, reunia fazendeiros, comerciantes prósperos, profissionais liberais, autoridades. Suas festas eram comentadas por semanas. Seus bailes, meticulosamente organizados. Seus salões, ornamentados com lustres importados e mobiliário europeu. O Guayra era poder, era prestígio, era o coração da sociedade que se considerava "civilizada".
Do outro lado, o Clube Rio Branco. Ali se reuniam os sambistas, os foliões, a população negra de Guarapuava. O Rio Branco era ritmo, era suor, era alegria que não precisava de lustres para brilhar. Era o coração da cultura popular, do samba que nascia nos terreiros e explodia nas ruas durante o Carnaval. Era resistência e celebração ao mesmo tempo.
Duas sociedades. Dois mundos. Separados por classe, por cor, por História com H maiúsculo.
Mas havia uma tradição curiosa que, uma vez por ano, fazia esses mundos se tocarem – ainda que brevemente, ainda que de forma ritualizada e carregada de simbolismo.
A tradição do convite
Todo Carnaval, um representante do Clube Guayra – geralmente alguém de prestígio, bem-falante, respeitado – ia até o Clube Rio Branco. Sua missão era simples, mas carregada de significado: fazer um discurso e convidar os sambistas a desfilarem no Guayra.
Era gesto de condescendência? De reconhecimento? De apropriação cultural? Provavelmente um pouco de tudo isso. Mas era também, à sua maneira imperfeita, uma tentativa de ponte. Um momento em que a elite branca reconhecia – ainda que dentro de seus próprios termos – a importância dos sambistas para a festa maior da cidade.
Os sambistas aceitavam o convite porque sabiam o peso simbólico: desfilar no Guayra era ocupar, ainda que temporariamente, aquele espaço de poder. Era levar o samba para onde ele não era esperado. Era afirmar: "Nós também somos Guarapuava".
Naquele Carnaval, a escolha para representante do Guayra recaiu sobre meu avô, Olegário Küster. Homem de palavra firme, conhecido por sua habilidade em falar em público. Parecia a escolha natural.
Mas nenhum dos organizadores imaginava o que estava prestes a acontecer.
A noite do discurso
O Clube Rio Branco estava em festa máxima. Música pulsava pelas paredes. Corpos dançavam em movimentos que pareciam nascer da própria terra. Suor, alegria, cerveja, gargalhadas – era Carnaval na sua essência mais pura.
Quando Olegário Küster chegou, acompanhado por alguns membros da diretoria do Guayra, a música baixou. Todos sabiam o que vinha: o discurso anual, o convite formal. Era parte do ritual. Sambistas se aproximaram, formando semicírculo. Alguns curiosos, outros céticos, todos atentos.
Olegário subiu no palco, ajeitou o paletó, limpou a garganta, e começou.
As primeiras palavras fluíram bem. Falou da tradição, da importância do Carnaval para Guarapuava, da alegria que unia a cidade. A plateia ouvia com respeito educado, ainda que distante. Afinal, aquele era o discurso da elite. As palavras eram bonitas, mas vinham de outro mundo.
E então, no meio de uma frase sobre a diversidade cultural da cidade, Olegário tentou se dirigir diretamente ao público. Tentou falar para eles, não sobre eles. E foi aí que tudo quase desmoronou.
O abismo de duas palavras
Olhando para a plateia de rostos negros, suados, vibrantes, Olegário disse, alto e claro:
– Pretos; negros...
E parou.
Silêncio.
Um silêncio cortante, denso, perigoso. O tipo de silêncio que antecede tempestades.
Os sambistas paralisaram. Sorrisos congelaram. Olhares se tornaram afiados. O que estava acontecendo? O representante do Guayra, ali, no Rio Branco, acabara de começar uma frase assim? Estava classificando-os? Estava segregando-os com palavras, ali mesmo, em sua própria casa?
No Brasil do início do século XX – apenas décadas após a abolição formal da escravidão –, aquelas palavras carregavam peso brutal. "Pretos; negros" não eram termos neutros. Eram marcadores. Eram rótulos de exclusão. E ditos assim, soltos, sem complemento, sem contexto acolhedor, soavam como insulto. Como confirmação de que, por mais que sambassem juntos no Carnaval, continuavam separados. Diferentes. Inferiores.
Olegário percebeu. Viu nos olhos à sua frente: indignação contida, mágoa, raiva começando a ferver. Viu nos rostos dos companheiros do Guayra que o acompanhavam: constrangimento, pânico discreto. O momento da ponte havia se tornado momento de abismo.
Ele tinha talvez dois segundos para consertar o irreparável. Ou aquela noite terminaria em hostilidade aberta. Ou pior.
A alquimia da redenção
Mas Olegário Küster não era homem de perder a compostura. E, talvez mais importante, não era homem de deixar um mal-entendido definir sua intenção. Ele sabia – ainda que instintivamente – que contexto era tudo. Que palavras eram como notas musicais: isoladas, podiam ser dissonância; mas na frase certa, viravam melodia.
Então, sem titubear, sem pedir desculpas, sem recuar, ele completou a frase como se tudo tivesse sido planejado desde o início:
— ...são os olhos de Maria.
O efeito foi instantâneo. Mágico. Transformador.
O que segundos antes parecia classificação racial ofensiva tornou-se, num piscar de olhos, poesia litúrgica. Os mesmos adjetivos – "pretos" e "negros" – que carregavam peso discriminatório, agora exaltavam beleza, profundidade, sagrado. Não eram mais rótulos aplicados a pessoas. Eram cores aplicadas aos olhos de Maria.
E Maria... ah, Maria! Não era filha de Olegário – ele tinha apenas filhos homens. Maria era a Mãe. A mãe de Jesus. A figura universal do catolicismo que permeava aquela sociedade inteira, do Guayra ao Rio Branco. Maria, símbolo de compaixão, de humanidade, de amor incondicional. Maria, que acolhia todos, ricos e pobres, brancos e negros.
Com cinco palavras – "são os olhos de Maria" – Olegário havia operado uma transmutação alquímica perfeita. Transformara potencial tragédia em beleza poética. Discurso político em imagem religiosa. Divisão em união simbólica.
O simbolismo profundo
Por que aquilo funcionou tão perfeitamente? Por que aquelas palavras específicas resgataram Olegário – e o momento – do abismo?
Porque ao invocar Maria, ele invocou algo maior que qualquer clube, maior que qualquer diferença social. Invocou o sagrado compartilhado. A devoção comum. A fé que, naquela sociedade profundamente católica, era um dos poucos territórios onde elite e povo se encontravam de fato.
"Pretos; negros" como adjetivos raciais dividem. Como adjetivos aplicados aos olhos de Nossa Senhora, unem. Todos ali – no Guayra e no Rio Branco – veneravam Maria. Todos conheciam suas imagens nas igrejas, seus olhos escuros pintados em madeira e tela. Aqueles olhos que olhavam com compaixão igual para todos os filhos.
Ao dizer "Pretos; negros são os olhos de Maria", Olegário estava dizendo, nas entrelinhas: "Essas cores que nos separam no mundo são as mesmas cores que contemplamos no sagrado. São cores de beleza divina. São cores de Mãe de todos nós."
Era teologia improvisada. Era poesia acidental. Era redenção linguística no fio da navalha.
A transformação: de discurso a verso
E aqui reside a genialidade daquele momento: Olegário não pediu desculpas. Não disse "me expressei mal". Não tentou explicar que sua intenção era outra. Ele simplesmente completou a frase, como se aquela sempre tivesse sido sua trajetória natural.
Essa é a diferença entre discurso e poesia.
Discurso explica, justifica, categoriza.
Poesia evoca, transforma, transcende.
Quando "Pretos; Negros" ganhou complemento – "são os olhos de Maria" –, deixou de ser classificação e virou imagem poética. Deixou de ser política e virou devoção. A conjunção "são" funcionou como ponte entre dois mundos, conectando o que poderia dividir ao que definitivamente unia.
"Pretos; negros SÃO os olhos de Maria."
Uma equação simples. Uma alquimia perfeita. Uma redenção no último segundo possível.
O aplauso e o convite aceito
O Clube Rio Branco explodiu em aplausos. Não foram aplausos educados ou protocolares. Foram aplausos genuínos, aliviados, encantados. Como quem testemunha o impossível: um representante da elite branca, no clube dos sambistas, quase cometendo a gafe irreparável, mas salvando-se – e salvando o momento – com poesia que invocava a Mãe de todos.
Sambistas bateram palmas vigorosas. Mulheres riram, algumas com lágrimas nos olhos. Homens acenaram aprovação. A tensão que segundos antes ameaçava explodir em conflito agora se dissolvia em admiração.
Olegário concluiu o discurso. Fez o convite formal: os sambistas estavam convidados a desfilar no Guayra, a levar seu ritmo, sua arte, sua cultura para o coração da elite. E, pela primeira vez em muitos carnavais, o convite foi aceito não apenas por obrigação ritual, mas com verdadeiro entusiasmo.
Porque naquela noite, ainda que por um instante, as palavras certas haviam feito o que leis e costumes não conseguiam: aproximar dois mundos. Ainda que temporariamente. Ainda que imperfeitamente.
A lição que atravessa o tempo
Hoje, mais de oitenta anos depois, essa história permanece viva na memória da família Küster. E não apenas como anedota curiosa, mas como lição profunda sobre linguagem, contexto, e a fragilidade das pontes entre mundos diferentes.
Palavras não são boas ou más por si mesmas. São ferramentas. Podem construir ou destruir, dependendo de como, onde, e para que são usadas. "Pretos; Negros" pode ser insulto ou contemplação sagrada. Tudo depende do que vem depois. Tudo depende do destino que damos às palavras.
A poesia é mais poderosa que o discurso porque não explica – transforma. Não classifica – transcende. Olegário poderia ter tentado explicar sua intenção original, mas teria falhado. Explicações soam como desculpas. Em vez disso, ele completou o pensamento de forma inesperada, transformando potencial tragédia em beleza compartilhada.
Erros podem virar arte quando temos coragem de não recuar, mas de redirecionar. O que poderia ter sido desastre diplomático virou momento de união. Porque Olegário não apagou as palavras – ele as completou com significado novo.
E, talvez a lição mais profunda: em contextos de divisão social – e Guarapuava do início do século XX era profundamente dividida –, as pontes mais eficazes não são as construídas por leis ou políticas, mas pelas referências compartilhadas. Maria era esse território comum. O sagrado que todos veneravam. A Mãe que acolhia todos os filhos, independente de qual clube frequentassem.
Guarapuava, dois clubes, uma poesia
O Clube Guayra e o Clube Rio Branco continuaram existindo por décadas. Continuaram sendo espaços separados, reflexos de uma sociedade dividida. O Carnaval de uma única noite não mudou estruturas seculares de exclusão.
Mas naquela noite específica, por alguns minutos, um homem chamado Olegário Küster conseguiu o improvável: transformar a linguagem da separação em linguagem da união. E deixou, para as gerações seguintes, uma lição que vale mais que qualquer discurso:
Pretos; negros... são os olhos de Maria.
E assim, discurso vira poesia. Tensão vira beleza. E uma frase que quase destruiu uma ponte acaba, paradoxalmente, fortalecendo-a.
Porque no final, todos – do Guayra e do Rio Branco – compartilhavam os mesmos olhos contemplando-os. Olhos escuros. Olhos compassivos. Olhos de Mãe.
Olhos de Maria.
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