MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
A perícia da Velha Chica
Os lustres de cristal filtravam a luz em mil pontos cintilantes
24/03/2026
Guarapuava, anos 30 ou 40. Uma cidade que respirava ares de progresso, mas que, no fundo, ainda se apegava a tradições e hierarquias sociais rígidas. Nela vivia Olegário Küster, que viria a ser meu avô, um homem de poucas posses, mas de uma riqueza interior inestimável. Poeta por vocação, ele era um dos poucos que ousava questionar as convenções, um espírito livre em um tempo de amarras. Embora fizesse parte da elite local, sua arte o colocava à margem, um observador crítico de seu próprio meio.
O Club Guayra, palco de eventos sociais e culturais da alta sociedade, anunciava seu tradicional concurso de poesia. Era um evento de gala, onde os declamadores mais renomados da cidade se apresentavam, buscando a aprovação de um júri seleto e de uma plateia exigente. Olegário, com sua poesia visceral e muitas vezes incômoda, não era bem-vindo. Sua inscrição, não foi autorizada.
Mas Olegário não era homem de se curvar. Naquela noite, o Club Guayra estava repleto. Os lustres de cristal filtravam a luz em mil pontos cintilantes, as cortinas de veludo pesado abafavam o burburinho da rua, e o cheiro inconfundível de charuto e cera de assoalho pairava no ar, misturado à luz amarelada que banhava o salão. A plateia, um mar de rostos masculinos – fazendeiros de terras vastas, comerciantes de posses consideráveis, políticos de influência local – aguardava com uma mistura de tédio e expectativa. Os declamadores oficiais, com suas vozes impostadas e gestos estudados, haviam se revezado no púlpito, cada um buscando a aprovação daquele seleto júri.
Olegário Küster, de seu canto discreto, sentia o coração acelerar. Sabia que sua inscrição não fora autorizada, que seu nome não seria chamado. Mas a ideia, o poema, a “Perícia da Velha Chica”, já estava rabiscado em sua mente, fervilhando, exigindo ser libertado. Era um risco absoluto, uma afronta direta àquela ordem estabelecida. As mãos suavam, a boca estava seca, mas uma determinação férrea o impulsionava.
Num ato de pura rebeldia, sem ser convocado, ele se levantou e caminhou em direção ao púlpito, um silêncio atônito se espalhando pela sala. A tensão crescia no ar, não apenas pela competição, mas por uma expectativa não dita, um pressentimento de que algo fora do script estava prestes a acontecer. A plateia, que antes cochichava e se dispersava, agora fixava os olhos nele, surpresa e um tanto incomodada com aquela ousadia.
Ali, diante de todos, Olegário não declamou um poema memorizado. Ele o criou. As palavras fluíam, um pensamento rápido seguindo o outro, a métrica e a rima se encaixando em tempo real, como se a própria Velha Chica sussurrasse em seu ouvido. Era uma criação simultânea à declamação, um fio da navalha onde cada verso era um salto no escuro. O risco era palpável, a coragem de criar em tempo real, sem rede de segurança, era a própria essência de seu ato. O medo inicial deu lugar a uma euforia controlada, uma força que vinha da verdade de seus versos crus, da crítica social ácida que ele tecia ali, ao vivo. Ele sentia a energia da plateia mudar, o incômodo inicial se transformando em uma atenção quase hipnotizada, alguns rostos exibindo um misto de choque e fascínio.
A “Perícia da Velha Chica” era um poema impublicável, um retrato cru e sem filtros da realidade, que expunha as hipocrisias e os vícios da sociedade da época. Versos que, ainda hoje, seriam considerados ousados.
Quando, contra todas as expectativas, Olegário Küster foi declarado o vencedor, não foi apenas uma vitória. Foi um escândalo, um reconhecimento forçado da arte genuína sobre a convenção, um triunfo do improviso e da ousadia. A elite de Guarapuava, chocada e constrangida, teve que aplaudir o homem que ousou desafiá-la com a força de sua palavra.
Olegário Küster se tornou uma lenda. Sua história, a do poeta que, com um poema improvisado e impublicável, venceu um concurso de poesia e chocou a alta sociedade, ecoou por gerações. Um testemunho do poder da arte em desafiar o status quo e da coragem de um homem que se recusou a ser silenciado.
Nota do autor:
Consta que meu avô, deixou com meu primo Eduardo Küster a nobre missão de guardar a versão escrita e o direito de declamar a Perícia da Velha Chica. Eu não tive a oportunidade de ver isso acontecendo, mas a notícia é a de que o Eduardo a declamava encenando-a tanto quanto o poeta.
Por essa razão, dedico esta crônica ao primo Eduardo Küster – Escovão – in memoriam.
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