MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
À véspera
O que se perde quando alguém morre não é a pessoa. É o que só aquela pessoa sabia sobre você
01/11/2026
Finados não é uma data natural ligada ao solstício, à colheita ou à lua. É uma convenção: alguém, em algum concílio, decidiu que os mortos precisavam de um dia reservado, provavelmente porque os vivos estavam esquecendoAmanhã é finados. Hoje ainda não é.
Essa diferença de vinte e quatro horas parece pequena, mas é onde tudo acontece. Porque hoje, primeiro de novembro, as pessoas ainda estão do lado de cá da data, e é justamente esse lado que interessa. Amanhã todos estarão no cemitério, com flores e panos, cumprindo o rito. Hoje, não. Hoje é o dia em que a ausência ainda não recebeu permissão para ser pública.
O que se faz na véspera
Ninguém ensina a véspera. Ela não tem liturgia. É um dia comum, com trabalho, trânsito, contas a pagar, e no meio disso uma pessoa para em frente a uma gaveta e não abre. Sabe o que tem lá dentro. Sabe que amanhã vai precisar daquilo – uma foto, um papel, um objeto – e ainda assim não abre.
Esse gesto de não abrir é a coisa mais honesta do luto. Não é negação. É administração de estoque emocional, em que a pessoa sabe que amanhã vai gastar, então hoje economiza.
O dia que o calendário inventou
Finados não é uma data natural ligada ao solstício, à colheita ou à lua. É uma convenção: alguém, em algum concílio, decidiu que os mortos precisavam de um dia reservado, provavelmente porque os vivos estavam esquecendo.
O calendário não resolveu o problema que se propôs a resolver, e as pessoas continuam esquecendo. Seguem sem comparecer. Ainda marcam presença por obrigação, com pressa, olhando o celular. A data existe e não funciona: talvez esse seja o seu único mérito real: ela não funciona, mas insiste.
A pergunta que sobra
O que se perde quando alguém morre não é a pessoa. É o que só aquela pessoa sabia sobre você.
Sua mãe sabia como você era aos quatro anos. Seu amigo tinha ciência do que você disse naquela festa de 2009. Seu avô conhecia o nome do cachorro que ninguém mais lembra. Cada morte é um arquivo que fecha sem backup. E o Dia de Finados, com toda a sua solenidade de calendário, não recupera nada disso, apenas nos lembra, uma vez por ano, que o arquivo fechou.
Talvez seja por isso que as pessoas levam flores. Não é para o morto. É um gesto de quem chega tarde e sabe.
▪ Veja também
Todo mundo fala
-
ELEIÇÕES 2026Guarapuava elege três estaduais; Estacho deve assumir na Câmara Federal -
ELEIÇÕES 2026Paraná elege 30 deputados federais; veja eleitos, suplentes e votação completa -
ELEIÇÕES 2026Gabriely Montalde ainda enfrenta repercussão nas redes após a polêmica do Copacabana Palace -
SEGURANÇAPolicia prende suspeitos por execução em Guarapuava; atualizações por aqui

