MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Contato: milton.kuster@gmail.com | Instagram: milton_luiz_cleve_kuster
A carta que o mar não entregou
Naquela noite, Marina não dormiu cedo
02/10/2026
Um envelope esquecido desperta em Marina a coragem de levar adiante uma promessa interrompida. Entre silêncios e lembranças, ela descobre que também há viagens feitas para entregar palavrasA pousada assentava-se rente à areia, como quem encosta o ouvido no chão para escutar o que o mar sussurra. Tinha o alpendre caiado, as janelas azuis e um silêncio de estação vazia. No quarto do fundo do corredor, dentro da mesinha de cabeceira, havia uma gaveta que ninguém abria há muitos verões.
Foi Marina quem a abriu. Chegara naquela tarde, sem pressa, com uma mala pequena e o coração cheio, mas disso não dizia nada. Ao correr a mão pelo fundo da gaveta, encontrou um envelope amarelado, sem selo e nem remetente. Apenas um nome, escrito em letra firme, quase desbotado.
Desceu ao alpendre com o papel na mão.
— Óia, tava na gaveta do quarto do fundo — disse, estendendo o envelope à velha pousadeira.
Dona Aurora olhou para o nome, e o tempo, por um instante, parou diante dela. Não era surpresa: conhecia aquele envelope de cor, como se conhece o rosto de quem parte.
— Essa carta espera, guria — murmurou. — Espera desde o verão em que o vento mudou de direção.
— Espera por quem?
— Por quem escreveu. Um rapaz que passou três temporadas aqui. Escreveu pra moça que amava, prometendo voltar pra buscá-la. Guardou o envelope na gaveta, foi até o porto... e o mar resolveu que ele ficaria consigo.
Marina calou-se. Observou a onda quebrar ao longe, a espuma subindo e descendo, sem pedir licença a ninguém.
— E a senhora nunca leu?
— Ler, num leio. Carta num se lê com os olhos dos outros. Carta é confiança embrulhada em papel — e confiança, menina, a gente guarda, num abre.
— Mas se ele num voltou, pra que guardar?
A velha pousadeira sorriu, sorriso de quem já entendeu mais do que a vida lhe explicou.
— Tchê, escrever é uma forma de ficar. Enquanto esta carta estiver aqui, ele num partiu de todo. O mar levou o corpo; eu guardo a palavra.
Naquela noite, Marina não dormiu cedo. Ficou no alpendre, com o envelope no colo, ouvindo o mar. Pensou nas cartas que nunca escrevera, nas palavras que enterrara no peito por orgulho ou por medo. Refletiu que talvez houvesse, espalhadas pelo mundo, pessoas à espera de palavras que jamais chegaram.
De manhã, antes de partir, colocou o envelope sobre a mesa da cozinha.
— Eu vô até a cidade do nome escrito — disse. — Se o mar num entregou, a terra entrega.
Dona Aurora desviou os olhos do fogão. Desta vez, o sorriso chegou aos olhos.
— Então vai, guria. O mar ensina que tudo o que parte pode voltar. Até as palavras que a gente num teve coragem de dizer.
Marina atravessou a porta, e a pousada ficou para trás, como um abraço que se abandona quando já estamos longe. Levava na bagagem não uma carta, mas uma promessa: a de que nenhuma palavra verdadeira permanece para sempre no fundo de uma gaveta. Algumas precisam apenas de um verão, de um vento e de uma mão disposta a levá-las até o fim do caminho.
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