LUIZ FELIPE DE LIMA

LUIZ FELIPE DE LIMA

Formado em História pela Unicentro, é professor e um apaixonado pela história de Guarapuava. Pesquisador no campo da História das Relações Internacionais e Geopolítica.

Opinião

Ritos, raízes e simpatias: onde foram parar as benzedeiras?

Cura para mau-olhado, costas rendidas, gripe, quebranto e tantas outras rezas e simpatias; mais do que medicina popular, as benzedeiras simbolizam um conhecimento em extinção.

04/08/2026
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Para os nascidos antes dos anos 2000 e que ainda têm a sorte de ter os pais e avós vivos, certamente já tomou um chá de alho ou de limão, gengibre e mel, uma mistura potente para combater os sintomas de gripes e resfriados. Que criança raiz nunca recebeu como remédio um “esfregão” nas pernas com hortelã, vinagre e açúcar? Remédio caseiro famoso para combater o “ataque das bichas” na criançada no interior. Na fase adulta, quem não tomou um chá de losna para rebater os efeitos de uma ressaca daquelas, não viveu direito. Mas infelizmente é um grupo em extinção, se já não chegou nesse ponto.

A sabedoria popular possui mistérios que por muito tempo passaram despercebidos pela ciência, especialmente pela medicina e não era por acaso. A ciência tradicional não aceitava nada que não passasse pelo crivo do método científico – afinal, é isso que a ciência é e faz. Entretanto, a própria ciência, por meio de pesquisadores brilhantes em todo o mundo acabaram descobrindo ao longo de décadas aquilo que homens e mulheres sem nenhuma instrução educacional já sabiam há muito tempo, haviam aprendido com seus pais, que aprenderam com seus avós que aprenderam quando eram crianças com um vizinho ou alguém mais velho da comunidade.

A origem

É praticamente consenso entre os historiadores que a origem das benzedeiras ou rezadeiras se dá entre os fins da Antiguidade e o início da Idade Média para os europeus e em períodos semelhantes na Ásia e na África. Embora o conhecimento sobre ervas medicinais já tivesse sido estudado pelos gregos e pelos romanos na Europa, é somente a partir do século VI d.C que a prática de utilizar as ervas torna-se conhecida para os europeus. Acredita-se que entre os asiáticos e africanos a prática é ainda mais antiga.

Durante a Inquisição Católica (séculos XII e XIX), o que a Igreja acreditava serem bruxas, eram, na verdade, mulheres que possuíam um amplo conhecimento de remédios naturais e que passaram a ser perseguidas politicamente e terminaram condenadas pelos tribunais do santo ofício e queimadas em praça pública.

No Brasil, as benzedeiras são frutos da cultura católica portuguesa, dos saberes dos indígenas e das práticas religiosas africanas que acabaram se incorporando no cotidiano da colônia a partir de 1530. O termo “benzedeira” vem do latim, de “bene dicere”, isto é, o “bem-dizer”. Acreditava-se que para determinados problemas a saída era a oração (base católica) e a mistura de ervas medicinais (práticas indígenas e africanas) que resultavam em remédios, simpatias e orações criadas para afastar o mal, curar maleita e qualquer outra coisa. A prática, embora bem intencionada, era e continua sendo condenada pela Igreja Católica, sendo extremamente perseguida desde a Idade Média até os dias atuais.

A dimensão territorial de continente que o Brasil possui facilitou a disseminação do conhecimento popular desse grupo seleto, os benzedores e rezadores. No interior, à medida em que as Bandeiras iam avançado e criando povoados que mais tarde se tornavam vilas e cidades, essas pessoas tornavam-se os médicos do local e até pouco tempo eram os únicos recursos que a população tinha em áreas mais isoladas e afastadas.

As benzedeiras guarapuavanas

Em Guarapuava, cidade de muitas crenças e histórias populares, as benzedeiras eram famosas e eram muitas, eram – em sua maioria – mulheres confiáveis, conhecidas pela comunidade e que sempre tinham um bom remédio, uma palavra de conforto, uma oração para abrir os caminhos e um conselho sábio para oferecer a quem procurava. Mas nem tudo são flores, muitas eram atacadas e carregavam o estereótipo de “macumbeiras”, termo pejorativo para se referir à prática do culto de matriz africana.

E é exatamente aqui que muitas das crenças ficam extremamente interessantes, pois eram conhecimentos repassados de mães para filhas, quase um dom transferido geneticamente. No bairro Santa Cruz, eu tive o prazer de conhecer e escrever sobre dona Arlete, uma verdadeira lenda em Guarapuava e procurada por centenas de guarapuavanos e pessoas até mesmo de outras cidades. Muito religiosa e devota de Nossa Senhora Aparecida, tinha como norte ajudar o próximo, sem perguntar de onde veio, quem era, em quem votava, se acreditava nisso ou naquilo. Seu propósito era ajudar.

No bairro Dos Estados, assim como dona Arlete, existia Dona Clarinda, vizinha de minha mãe por muitos anos, que ensinava como “tirar o susto” de crianças ou como curar o “ar no umbigo” de recém nascidos – nome popular para a hérnia umbilical. Uma prática muito comum em todo o Brasil para esse mal era a moeda com esparadrapo no umbigo da criança. Os antigos achavam que essas técnicas funcionavam porque a maioria das hérnias umbilicais fecha sozinha com o crescimento natural do bebê. Como o anel abdominal costuma fechar naturalmente nos primeiros meses, as pessoas associavam a cura à simpatia que estava sendo feita naquele momento. Verdade ou não, o problema era resolvido.

E não parava por aí. Tinha machucado as costas, deu um mal jeito ao mover um móvel ou se abaixar para pegar algo? Sem problemas, havia um remédio. Para “costas rendidas”, existia a famosa “costura” (não era literal). A "costura nas costas" é um ritual de benzimento tradicional muito antigo, usado no folclore brasileiro para curar as chamadas "costas rendidas", rasgos musculares ou torções. A benzedeira não costura a pele da pessoa, mas faz um ato simbólico utilizando agulha, linha e um pedaço de pano. Acompanhado do ato havia uma reza, em que a benzedeira proferia: “o que é eu coso?” (coso = primeira pessoa do singular do verbo coser, isto é, costurar). E ela mesma respondia: “costuro carne rendida, nervo torcido e osso quebrado”. Até hoje, quem passou pelo ritual sagrado afirma com veemência que funciona.

Na cultura popular, em especial no interior, se uma criança passasse vontade de comer ou beber algo, ficava “atacada das bichas”, que nada mais eram do que vermes ou parasitas intestinais. Acreditava-se que os vermes se "atiçavam", "desembolavam" ou subiam do intestino para o estômago e garganta, tapando a respiração e provocando desmaios ou morte. O remédio? De tudo um pouco. Os mais famosos eram uma dose generosa de querosene para massagear a barriga da criança para acalmar as lombrigas; outro remédio muito famoso e ensinado por muitos anos aqui em Guarapuava era a mistura de hortelã, vinagre e açúcar (ou mel no lugar do açúcar) e esfregado na sola dos pés e nas pernas das crianças para combater o mal das bichas.

Mas onde está esse conhecimento e essa sabedoria popular que já não se encontra mais com tanta facilidade por aí? A história demonstra ao longo do tempo que tradições podem ser aprendidas, inventadas e transmitidas, mas essa tradição (ou dom para muitos), parece estar em extinção, ao menos na maioria das cidades, quer seja pelo fenômeno da urbanização ou da mudança de comportamento e cultura entre gerações. A geração da minha mãe (boomers) aprendeu com a geração de minha avó (silenciosa), mas pouco ou quase nada dessa sabedoria popular foi transmitida para a geração x, aquela nascida entre 1965 e 1980. Os millenials (nascidos a partir de 1981) experimentaram as curas e rezas, sabem como funciona e poucos aprenderam sobre os poderes curativos de plantas e raízes, poucos desta geração sabem como fazer um chá de mel, gengibre, casca de laranja e limão para combater os sintomas do resfriado e gripe; a geração Z quase não faz ideia do que é um ritual de benzimento e orações e geração Alpha nem se fala.

Com a morte de pessoas dessa geração mais antiga (silenciosa e boomer), tradições e hábitos também vão sendo sepultados aos poucos; para os millenials que são pais de primeira viagem, é um momento quase cinematográfico de aproveitar a presença de avós e bisavós para se aprender tudo o que se pode da cultura popular sobre cuidados e curas, mas é nesse contraste que também há o choque de cultura e geracional, muitos dos hábitos de cura não são mais aceitos pelas gerações atuais, nem mesmo pela medicina moderna. A exemplo da hérnia umbilical, é extremamente recomendável evitar colocar uma moeda de cobre no umbigo de um recém-nascido.

O fato é que toda geração tende a achar que a sua é melhor do que a anterior e costumes acabam sendo desprezados, o mesmo ocorre do outro lado, em que a geração mais antiga acredita que a nova geração está perdida, sem rumo (e como esse é um texto de opinião, eu concordo, estão perdidos no mundo). Mas verdade ou não, preciosismo ou saudosismo de minha parte, as benzedeiras fazem parte de uma cultura em vias de extinção, à medida em que a modernização avança, velhos hábitos vão sendo deixados de lado. Há 30 anos era comum que qualquer ser humano soubesse colocar feijão em uma panela de pressão e cozinha-lo, cortar alho e cebola e temperá-lo para o almoço. Em tempos de fast food, casar com um homem ou mulher que sabe cozinhar feijão é raridade.

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