LUIZ FELIPE DE LIMA

LUIZ FELIPE DE LIMA

Formado em História pela Unicentro, é professor e um apaixonado pela história de Guarapuava. Pesquisador no campo da História das Relações Internacionais e Geopolítica.

Opinião

Histórias que o povo conta: as lendas criadas no entorno da Lutcher S/A (parte 3)

Da mula-sem-cabeça ao boitatá, da panela de dinheiro enterrada à noiva fantasma. Várias eram as lendas urbanas entorno da Lutcher.

18/06/2026

Da mula-sem-cabeça ao boitatá, da panela de dinheiro enterrada à noiva fantasma. Várias eram as lendas urbanas entorno da Lutcher.

Eram os anos de 1960 e minha mãe, hoje com 66 anos, à época era apenas um bebê. Meus avós, Domingos e Maria, eram pequenos agricultores e criavam os filhos na tranquilidade e na simplicidade do campo, no interior do que hoje é o Município de Candói. Minha mãe conta até hoje que tinha seu paraíso particular praticamente no quintal de casa: a estância hidromineral Santa Clara.

Descendo pelas corredeiras do Rio Jordão, a 80 quilômetros de Guarapuava, na margem direita da Rodovia PRC-560, está a famosa e histórica Estância de Santa Clara. Construída na década de 1960, durante o governo de Moisés Lupion, o local atraía centenas de turistas de todo país e até mesmo de países vizinhos como Argentina e Paraguai. O grande diferencial do resort, que viveu seu auge entre 1980 e 1990, era sua água mineral que muitos acreditavam ter poderes curativos, era a verdadeira joia da coroa. Ainda hoje, mesmo após o abandono da estância, muitos visitantes se aventuram pela região em busca de um “gole” da famosa água.

A Estância Santa Clara e a Lutcher eram o símbolo de um poder econômico em ascensão, que transforma o então interior de Guarapuava em rota de turismo e de negócios; muitos acreditavam que a região poderia se desenvolver muito mais que Guarapuava e se tornar o polo para uma nova metrópole além da capital na região leste do estado. Entretanto, para a decepção de muitos, a história tomou um rumo diferente.

Tanto a estância quanto a Lutcher se foram, mas delas restaram lendas interessantes e no mínimo curiosas.

Tempos depois de começar a contar aqui a história da Lutcher, descobri que meu avô trabalhou como terceirizado para a empresa. Quando a Lutcher se instalou definitivamente, muitas pessoas da região foram contratadas para a extração de madeira, não eram funcionários da Lutcher em si, mas homens e mulheres contratados no regime da famosa “empreitada”, isto é, um serviço ou atividade especifica, com finalidade.

Diferente do que estamos acostumados hoje, a cidade não tinha grandes proporções, o então distrito de Candói não era muito maior – em área – do que bairro Trianon aqui em Guarapuava. Boa parte de seus residentes estavam nas fazendas e sítios mato adentro e era ali que a vida acontecia. O grande mercado na porta de casa ou do prédio não existia naquela época, era a famosa “vendinha” ou “venda”, uma espécie de mercearia modesta em que se comprava diretamente do proprietário no balcão. Era o tempo da venda a granel, em que se comprava o arroz, o café, o feijão e a farinha de trigo por quilo, diferente de hoje – em que se compra a quantia certa e embalada. A carne, os embutidos como salame ou linguiça de porco não eram armazenados em freezer, mas tinham qualidade superior aos produtos de hoje, eram penduradas no teto, dentro do próprio estabelecimento ou armazenadas dentro de latas com gordura de porco para serem conservadas por mais tempo. O fogão não era a gás, não existia micro-ondas ou air-fryer, era o velho e bom fogão de lenha, para comprar o que se precisava, eram quilômetros a cavalo.

E é nesse cenário em que tudo se transforma com a memória popular.

Para o historiador francês, Jacques Le Goff, longe de ser um arquivo morto, ela é uma construção dinâmica e social, sendo de extrema importância para a construção da identidade individual e coletiva. As histórias aqui registradas possuem um sentimento de memória afetiva, pois para minha mãe é uma lembrança nítida como sendo a última viva de quatro filhos do casal Domingos e Maria. Os pontos principais não se perderam, foram preservados por sua memória, apenas os detalhes contados na primeira em vez em que ouvi a história foram deixados de lado. E é interessante demais observar como a própria memória é seletiva, pois o que era um detalhe essencial, hoje é secundário, sua memória – apesar de lúcida – foca nos detalhes sobre seu pai, o meu avô.

Para ela – que não conheceu minha avó, ficou órfã com apenas três anos de idade, as histórias ouvidas na infância não eram os contos da mãe, mas do pai e da irmã. Conta minha mãe, que certa noite meu avô estava retornando da casa de sua filha mais velha, minha já falecida tia Geraldina, a quem todos chamávamos carinhosamente de “Nega”. E aqui entra magia da sabedoria popular e do quanto as histórias transmitidas de pais para filhos fazem parte de um folclore riquíssimo; minha mãe ouviu a história de seu pai e contou para mim e meus irmãos do jeito que lembrava há quase 50 anos, quando ouviu a história pela primeira vez.

Contou meu avô que quando retornava da casa da filha, no meio do descampado avistou uma mulher com um vestido branco e um lenço na cabeça, lembrava muito uma noiva. Sentiu um frio na espinha, um arrepio do dedinho do pé até o último fio de cabelo. Como bom católico e homem de fé, rogou à Virgem Maria que o protegesse de qualquer perigo pensando que sua visão fosse algo demoníaco ou uma “visage”, como eram chamadas as famosas almas penadas ou vultos que se viam por aí.

Do alto do seu cavalo ele percebeu que a mulher fazia sinais com a mão e o chamava em direção a ela, sinais que ele só conseguiu ver com o clarão que a lua cheia fazia no campo.

Contava ele que o cavalo insistia em ir em direção à mulher, mas ele resistia e fazia forças para manter o animal na estrada.

De tanto insistir, conseguiu colocar o cavalo no rumo certo de casa e seguiu sua viagem, nunca mais viu a tal mulher e só contou aos filhos o que tinha presenciado naquela noite, não teve coragem de contar a mais ninguém.

Alguns dias depois, ele e outros companheiros trabalhavam em uma região próxima, poucos metros de onde ele viu a figura misteriosa. O que se descreve a partir daqui são memórias, que podem ter sido alteradas por quem contou ou por quem ouviu, mas o objeto permanece o mesmo. Meu avô dizia que junto à raiz de uma árvore, uma máquina arrancou do chão junto com as raízes uma panela coberta de barro até a borda; o objeto virou alvo de brincadeira entre os homens, um passava para o outro e ninguém queria o objeto de presente, até que um dos empregados acabou por recolher o objeto e começou a retirar a camada de barro e o que se seguiu foi um completo surto: dentro da panela vários objetos de ouro estavam guardados, eram anéis, pulseiras, corretes, moedas, tudo de ouro. Minha mãe conta que meu avô acreditou até o último dia de vida que o vulto que lhe apareceu no campo era da possível dona do tesouro e que estava pronta para lhe entregar o presente.

Tal crença se dava em razão de que no passado era muito comum que fazendeiros ou empregados escondessem riquezas dentro de panelas, bacias e outros recipientes resistentes e enterrassem o ouro dentro da propriedade, era uma prática para evitar que durante os assaltos todo o ouro fosse levado pelos criminosos.

Outra lenda urbana que alimentou a existência de ouro dentro da propriedade da Lutcher foi o surgimento do chamado “Boitatá”, que tem origem na cultura Tupi-Guarani e é uma lenda famosa dentro do folclore brasileiro.

O primeiro registro que se tem conhecimento do seu aparecimento é em 1560 por um padre jesuíta que voltava das missões.

Mas o que era o famoso boitatá? Na literatura folclórica, era uma cobra de fogo que flutuava e se movia em direção a quem lhe provocasse ou chamasse por seu nome.

As lendas urbanas registram dezenas de versões, mas prefiro a versão contada por nós aqui no sul do Brasil, principalmente no Rio Grande do Sul, em que contam os gaúchos que nas noites geladas de outono, com a geada que caía já no início da noite e o vento minuano que se arrastava pelos pampas, era possível ouvir o cantar do vento e o assovio do boitatá. Figura sempre presente nas lendas, o boitatá era o fruto do pecado na relação de compadres e comadres, em que se quebrava o compromisso sagrado do compadrio e havia o envolvimento amoroso de ambos. Desse amor proibido nascia a alma perdida chamada de boitatá, que vagava perdida na noite gelada do Sul em busca do caminho para sair deste mundo.

Muitas são as pessoas que afirmam terem encontrado um boitatá no meio do caminho e que deixaram ali uma parte de sua alma por causa do medo. Mas o que a ciência explicaria anos mais tarde e que aqueles mais velhos não acreditam até hoje, é que o boitatá é uma mera reação química que ocorre na natureza e gera um espetáculo visual que encanta ou assusta, dependendo de quem o vê.

Basicamente, quando plantas e animais morrem e se decompõem em condições naturais com umidade e falta de oxigênio, microrganismos decompõem a matéria orgânica liberando gases específicos Fosfina, Difosfina e Metano, esse último um gás que é o combustível da chama, isto é, do fogo azulado. Como são gases mais leves que o oxigênio, flutuam com facilidade e, na medida em que o local no solo onde esses gases estão acumulados vão sendo alterados pelo passo dos animais ou até mesmo do ser humano, eles vão sendo liberados no ar e então começa um processo natural chamado de combustão espontânea, isto é, o fogo surge por si só.

A luz emitida pela combustão da fosfina tem uma coloração que varia entre o azul e o verde pálido, o que, na escuridão profunda das matas, confere um aspecto sobrenatural e "fantasmagórico". Como a visão humana tem dificuldade em calcular distâncias precisas em condições de pouca luz (especialmente quando não há pontos de referência fixos), o observador tem a sensação de que a chama está perseguindo ou se aproximando dele.

Outras aparições que geravam boatos que corriam a galope pelo interior de Foz do Jordão, principalmente nos arredores da Lutcher era a da mula-sem-cabeça, que diferente do Boitatá não era um fenômeno químico e natural, mas uma figura mitológica que não se sabe ao certo sua origem, mas que assombrava os arredores da Lutcher. Alguns pesquisadores acreditam que associada à aparição do boitatá e o uso frequente de cavalos pelos moradores da região, fez surgir no imaginário do povo a figura mitológica da mula sem cabeça.

Muitas dessas lendas são alimentadas ainda hoje no imaginário social e popular quando se trata da Lutcher.

Muita gente jura que viu de tudo na região, mas muitas são as versões para todas as histórias. Dentre todas, a minha favorita – talvez – seja a do tesouro jesuíta escondido debaixo do véu da cachoeira do Jordão que deságua no rio Iguaçu. Acredita que em noite de Lua cheia é possível encontrar o local onde os padres jesuítas esconderam o baú cheio de moedas de ouro do tesouro Inca.

Em nome da diversão de vocês, caros leitores, posso me aventurar na próxima noite de Lua cheia e ir à Foz do Jordão em busca do baú com o tesouro perdido, mas já adianto, se encontrar, não dividirei com ninguém.

A você que me acompanhou até aqui, agradeço por ter permanecido. A Lutcher, para mim, começou como uma curiosidade e fez surgir uma história de família. O ciclo da madeira no Paraná guarda muitas riquezas, muitas lendas e histórias que somente o interior do nosso grandioso estado do Paraná é capaz de contar. Há muito mais entre a Serra da Esperança e a foz do rio Iguaçu do que se pode imaginar, basta tempo e disposição para descobrir e contar.

Convido você, a partir da próxima semana, a se aventurar comigo no coração do Pinhão na história das Indústrias Zattar. Até breve!

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