LUIZ FELIPE DE LIMA
Formado em História pela Unicentro, é professor e um apaixonado pela história de Guarapuava. Pesquisador no campo da História das Relações Internacionais e Geopolítica.
Histórias que o povo conta: o segredo da Lutcher S/A (Parte 2)
Um certo dia a Polícia Federal andava às catas de um suposto ex-oficial austríaco da SS (a tropa de proteção pessoal de Hitler)
16/03/2026
Imagem gerada por IA da antiga fábrica da Luchter: Polícia Federal procura por líder nazista Inaugurada em 1961, a Lutcher mexeu com o imaginário dos guarapuavanos. As lendas sobre a extração de “água pesada”, ouro e a presença de um fugitivo nazista entre os funcionários aguçou ainda mais a imaginação do povo. Eram as histórias que o povo contava
Os anos 1960 trouxeram consigo uma importante mudança comportamental influenciada pelo cinema e principalmente pela música dos Beatles e Rolling Stones. Mas isso era nos grandes centros, o interior tinha sua própria plataforma cultural e em Guarapuava não era diferente. Como qualquer outra cidade do interior, Guarapuava ainda vivia “arisca” com os efeitos causados pela Segunda Guerra Mundial (1939-1945) e pela corrida espacial dentro da Guerra Fria. Na metade da década o Brasil ainda iria enfrentar uma crise política institucional resultante da interferência geopolítica dos Estados Unidos sob o ideal de “América para os americanos” e da “Aliança para o Progresso” do Presidente John Kennedy, o presidente João Goulart, o Jango, seria deposto por um golpe de Estado orquestrado pelos militares do Exército e com amplo apoio de civis.
O medo do comunismo era real, principalmente porque a União Soviética havia saído fortalecida da Segunda Guerra após a invadir Berlim e derrotar os nazistas. Guerra é guerra e aliados são aliados, mas a guerra havia acabado e o medo do comunismo estava novamente em voga e as pessoas viam comunistas até na sopa. E em Guarapuava isso não era diferente, muito pelo contrário, a resistência a estrangeiros, especialmente da Europa oriental, era muito forte. Poloneses e ucranianos já viviam por aqui há algum tempo, mas quando uma nova leva de estrangeiros começou a chegar numa região pouco conhecida e que pouco sabia do que se passava do outro lado do Atlântico, o medo começou a falar mais alto e os primeiros episódios de xenofobia começaram a ser registrados – aliás, esse nem era o termo empregado na época.
Em janeiro de 1958, enquanto a seleção brasileira comemorava seu primeiro título em uma Copa do Mundo, chegaram ao Brasil, contratados por Lutcher Brown filho, engenheiros alemães e holandeses para tratar dos planos de construção da Lutcher no vale do Jordão. Não é preciso dizer que ao primeiro sinal de homens brancos falando outro idioma chamou a atenção e despertou a antipatia da comunidade local. A aversão aos alemães ainda era muito forte, então todos eram xingados de todas as formas possíveis; a vantagem é que como não conheciam muito bem o idioma português, tão pouco compreendiam o sotaque da região, não entendiam nem dez por cento das ofensas proferidas. Mas, mesmo ofendidos, os engenheiros deram início aos trabalhos e o canteiro de obras começou a ser desenhado.
No começo, os alemães eram chamados (pelos ingleses) de Kraut (adaptação de sauerkraut – chucrute em alemão). A referência pejorativa era com relação ao prato tradicional alemão, que nada mais é que uma conserva de repolho fermentado em salmoura. No Brasil, o Kraut foi trocado pela tradução e todos os homens brancos eram chamados de “Chucrutes”, independente da nacionalidade; o objetivo era claro: diminuir os alemães em razão do sentimento antigermânico que existia. E o sentimento não era apenas em razão da guerra, mas principalmente porque em 1942, submarinos alemães afundaram navios mercantes na costa e mataram mais de 600 pessoas. Naquela altura, era questão de honra e vingança; assim o Brasil declarou guerra ao Eixo no mesmo ano e entrou na Segunda Guerra Mundial.
Outro problema cultural gerado pela presença de alemães na região do Segredo foi com os ucranianos e poloneses que já residiam na região. Quando não eram chamados de chucrutes, outro termo usado para xingar os alemães era “polaco”, que culturalmente era ligado aos poloneses. A Polônia também possuía um forte sentimento antigermânico, afinal, foi a invasão do país que marcou o início da Segunda Guerra, em 1º de setembro de 1939. Ser comparado aos alemães era uma tremenda ofensa. Além disso, o termo “polacas”, no plural, era utilizado também para se referir às prostitutas judias que foram contrabandeadas para o Brasil. Dessa forma, os poloneses tentavam evitar a todo custo a associação do termo “polaco” com o gentílico de polonês.
Quem também não gostava do termo eram os imigrantes ucranianos. Tal qual ocorria com os holandeses, britânicos e americanos que eram chamados de “chucrute” ou “polacos” por serem brancos, os ucranianos também foram alvos do termo. Ocorre que a Ucrânia também guardava um profundo ressentimento com os poloneses, pois tocava em uma ferida ainda aberta na história do país. Os imigrantes que vieram ao Brasil eram, em sua maioria, de uma região chamada de “Galícia” (não a escocesa, mas ucraniana). Historicamente, essa foi uma região dominada pela Polônia e enquanto isso, os camponeses de origem ucraniana eram submetidos a um regime análogo à escravidão pelos poloneses. Daí o “ranço” dos ucranianos com o termo “polaco”. Não demorou muito para a polícia começar a registrar ocorrências de brigas e desentendimentos nas ruas da cidade entre os guarapuavanos e os imigrantes ucranianos, poloneses e os alemães.
O fugitivo nazista e o Anjo da Morte
Um certo dia a Polícia Federal andava às catas de um suposto ex-oficial austríaco da SS (a tropa de proteção pessoal de Hitler). A SS era o que havia de pior dentro do Nazismo, eram oficiais truculentos e altamente treinados nas mais variadas modalidades de barbáries contra os prisioneiros judeus e ciganos.
Erich Erchstein era o nome da figura caçada pela PF no Brasil. Suspeitava-se que ele fosse um oficial de alta patente da SS e o suposto responsável por localizar Joseph Mengele, o Anjo da Morte, apontado como o médico-chefe dos campos de concentração na Polônia e o principal “seletor” que decidia quem trabalhava e quem era exterminado. Após a guerra, Mengele fugiu para a Argentina, Paraguai e por fim para o Brasil. Erdstein (grafado como Erchstein) era, na verdade, um criminoso procurado por diversos crimes como apropriação indébita, fraude, organizar jogos de azar, entre outros ilícitos.
Em 1961, de fuga novamente para o Brasil, Erdstein veio parar em Segredo, onde conseguiu uma colocação na Lutcher. Segundo alguns relatos de trabalhadores locais, Erich era muito discreto no espaço de trabalho, mas fora dele, costumava contar que havia descoberto o paradeiro de um alto membro do comando Nazista na Alemanha. Quem com ele conviveu dizia não acreditar na história, que era mais um engodo ou delírio.
O que muitos não sabiam é que, em partes, ele falava a verdade. Estava no encalço de Mengele, mas os registros não confirmam a veracidade de que ele é que teria entregue o paradeiro do Anjo da Morte à polícia de Estado argentina. Além disso, ele estava à procura de Mengele, mas muitos acreditam que tudo era fruto de uma mente perturbada. O fato é que sua estadia na Lutcher não durou muito tempo, pouco depois de chegar já fez as malas, pediu demissão e veio para Guarapuava, onde – de acordo com o jornal Diário do Paraná – teria feito amigos e com a ajuda destes chegou a arrendar e explorar comercialmente um estabelecimento hoteleiro. Infelizmente o jornal não aponta qual hotel seria, mas quando souberam de sua fama, ele já estava longe.
Durante muitos anos a história foi alimentada, alterada e recontada de diversas formas, mas no fim, descobriu-se que Erich de fato era um soldado do exército alemão, mas nunca foi oficial da SS. Além disso, era judeu-austríaco e é um dos poucos casos brilhantes de soldados que conseguiram esconder sua descendência do exército. Depois de preso e processado, ele saiu das páginas policiais e morreu em Curitiba, no ano de 1993, aos 74 anos e foi sepultado no cemitério israelita, no bairro Santa Cândida.
O que a Polícia Federal não sabia, à época, é que o criminoso procurado já havia sido um funcionário da Secretaria de Segurança e atuava como tradutor na delegacia de estrangeiros, na capital paranaense. Como ficar em um único lugar não coadunava com o seu espírito aventureiro, fez a façanha de conseguir convencer o Delegado de Polícia Civil a transformá-lo numa espécie de caçador de nazistas pelo interior do Paraná e Santa Catarina.
A bagunça foi tamanha, que em uma tarde o Estado de São Paulo causou um alvoroço ainda maior ao dar palco para Erdstein, isso porque nessa altura ele já habitava a cidade de Marechal Cândido Rondon e criou uma história mirabolante de Mengele estava para estabelecer o IV Reich no Paraná. O jornal publicou a história e os olhos do governo voltaram-se para Erdstein e o oeste do Paraná, a ponto de que a Polícia Federal iniciou sua caçada pelo “exterminador de nazistas”, como ele próprio se chamava.
Por fim, Erdstein confessou à uma revista que tinha encontrado Joseph Mengele no Oeste do Paraná e o matou. A imprensa outra vez se agitou, mas a confissão era falsa. O verdadeiro Mengele, que assumiu a identidade de outro alemão, morreu de verdade em fevereiro de 1979, no litoral de São Paulo. O anjo da morte teve um AVC e morreu afogado, mas sua verdadeira identidade seria revelada por sua família somente alguns anos depois.
O aeroporto e a “água pesada”
De volta ao Segredo, conta a história que em uma noite de lua cheia de 1964, atraídos pela lenda dos jesuítas, quatro jovens do então distrito do Candói, da região das Águas de Santa Clara, foram até à foz do rio Jordão para pescar e também para procurar o tesouro que os padres da Companhia de Jesus haviam deixado para trás. A lenda dizia que o tesouro só podia ser encontrado em noite de lua cheia, quando o véu da cachoeira se abria e o baú era iluminado pela luz da lua, mas como em toda boa lenda, também havia a maldição. A lenda dizia que aqueles que tentassem recuperar o baú seriam amaldiçoados, pois o tesouro era fruto do roubo e da matança indígena ocorrida em Guaíra pelos espanhóis. Era ouro manchado com sangue e a maldição dos deuses indígenas iria recair sobre aqueles que levassem o ouro embora.
Quando se aproximavam do véu da cachoeira do Jordão, os quatro jovens foram surpreendidos pelo barulho dos motores do DC-3, o avião de Lutcher Brown, que se aproximava da área para pouso. No escuro, os jovens não foram avistados, mas perceberam o avião sumir na escuridão e pouco tempo depois os motores diminuíram e por fim silenciaram.
A pista estava há poucos quilômetros da foz do rio e alguns minutos depois ouviram o barulho dos carros do comboio descendo da pista para a sede da fábrica. Seu Juca (nome fictício para o trabalhador da fábrica que não quer ser identificado) conta que era comum o comboio de caminhões durante toda a madrugada. Ainda hoje residente em Foz do Jordão, ele conta que sua memória é ativada todas as noites quando escuta mais de um caminhão passar ao mesmo tempo pela PR-662 – Rodovia Dr. Antônio Anibelli.
A cidade de Guarapuava, embora distante do que se passava no resto do mundo, não era isolada. As lendas da Guerra Fria sobre a produção de bombas nucleares, a crise dos mísseis em Cuba um ano antes e a possibilidade de uma guerra nuclear entre EUA e União Soviética, reacendiam os medos e lendas. O termo “água pesada” era famoso durante a Segunda Guerra e esteve envolvido no processo de sabotagem de uma usina na Noruega; como era um termo militar frequentemente utilizado, passou a ser difundido com uma nuvem de mistério e perigo.
A “água pesada” (D2O) contém “deutério”, um isótopo do hidrogênio que tem um nêutron a mais e atua como moderador de reatores nucleares reduzindo a velocidade dos nêutrons ao atingirem o urânio e impedindo assim uma reação em cadeia. Ela possui a mesma aparência, cheiro e aspectos da água comum (H2O), entretanto, é 10% mais densa, daí a confusão com “água pesada”.
Outro fator que ajudou a difundir a lenda do urânio, além da história da doença de Sinval Martins e do casco amolecido do gado no campo, era o relato de trabalhadores da fábrica, que diziam existir áreas isoladas da fábrica e corredores subterrâneos que eram proibidos até mesmo para os diretores da Lutcher. Somado a isso, na madrugada diversos caminhões chegavam e saíam em comboio, totalmente carregados e com escolta armada até onde se sabe. Certa vez, um dos trabalhadores chegou a ser parado pela Polícia enquanto vinha à Guarapuava, foi questionado e revistado, queriam saber dos caminhões, mas como ele não possuía a informação, foi liberado. Além disso, a lenda também foi alimentada em razão de alguns funcionários utilizarem equipamentos de proteção individual daqueles que só se via nas telas do cinema, como se estivessem prestes a entrar em contato com algo muito perigoso.
Naturalmente, anos mais tarde, o solo chegou a ser testado e nenhum vestígio de grande quantidade de urânio foi encontrada, o que faz com que a tese da extração de urânio perca a confiabilidade. O que é possível confirmar é que de fato minerais foram extraídos sem a devida autorização do exército brasileiro. O Comando Militar do Sul, inclusive, ordenou investigações contra a Lutcher e tropas do exército vieram à Guarapuava para adentrar à fábrica. Durante as investigações, a produção foi paralisada e o local fechado temporariamente.
Um relatório da Quarta Zona Aérea – atual COMAR IV – Comando Aeronáutico Regional da FAB apontou que Frederic Lutcher “viajou apressadamente para o Uruguai por estar implicado com o grupo de contrabandistas de minerais estratégicos recentemente descobertos no Brasil”
(Fonte: Arquivo da Biblioteca Nacional).
O relatório também apontava que Lutcher Brown, apesar da falência da fábrica, possuía um sólido patrimônio tanto no Brasil quanto no Uruguai e estava, a partir da Companhia Del Sur, utilizando seus contatos com contrabandistas que agiam no Brasil a partir da exploração de terras raras. Lutcher nunca foi processado formalmente, mas teve sua vida revirada pelo Exército em um momento em que a ação de estrangeiros era fortemente vigiada após o golpe militar de 1964.
Até onde o Exército comprovou, a mineração de ouro foi a principal atividade desenvolvida clandestinamente pela Lutcher até o instante em que foi fechada. O grupo atuava em boa parte da região Sul e também nas Minas Gerais, todo o minério extraído era contrabandeado para fora do país, principalmente Estados Unidos, juntamente com a carga de papel de celulose enviada por meio da exportação.
O aeroporto
Além do comboio de caminhões, o Exército também suspeitava que boa parte dos minérios retirados de Foz do Jordão eram contrabandeados dentro do DC-3 que Lutcher Brown possuía. Além disso, ele também possuía um monomotor Cessna, que oficialmente era utilizado por seus diretores como meio de locomoção entre Foz do Jordão x Curitiba x São Paulo.
O aeroporto, que na verdade era uma simples pista de pouso, funcionava sem a autorização da Força Aérea Brasileira, isto é, a Aeronáutica o considerava um aeroporto clandestino, tal qual as pistas do garimpo no Norte do país já eram utilizadas.
No início da construção da fábrica, a pista pouco chamou a atenção, pois ficava a pelo menos 5km do complexo. Os moradores mais antigos relatam que os pousos e decolagens ocorriam em horários totalmente “incomuns”, isto é, na madrugada, antes do amanhecer e nunca à luz do dia. A mesma coisa ocorria com os caminhões: todo mundo via o comboio sair, mas eles não passavam pelos principais pontos da estrada, o que levantou a hipótese de que utilizavam uma estrada secundária e iam até o aeroporto para abastecer o avião. Embora a Aeronáutica considerasse a pista clandestina, não existem documentos que comprovem uma investigação aprofundada contra Lutcher ou contra o aeródromo em si.
Além de todas as lendas e da produção de papel e celulose, Frederic Lutcher Brown também conseguiu com o Governo JK a concessão para explorar as águas do Rio Jordão. O Decreto nº 47.226, de 13 de novembro de 1959, outorgava à “Lutcher S.A – Celulose e Papel concessão para o aproveitamento progressivo de energia hidráulica para uso exclusivo, de desníveis existentes em um trecho do rio Jordão, no Distrito de Condoi, município de Guarapuava, Estado do Paraná”. O decreto permitia que a empresa aproveitasse o potencial hidráulico do rio e os desníveis para a produção de energia ao longo de 12km no curso do rio, a contar da confluência com o rio Iguaçu, ou seja, contando da foz, 12km acima.
O amigo Dirceu Dalmaz, o Pato, que viveu a infância na Lutcher, conta que o primeiro carregamento de celulose embarcou de trem em 1963, com destino a São Paulo, provavelmente saindo da estação de Góes Artigas, na região do Guará, divisa com Inácio Martins. O Segredo permaneceu de pé e alguns anos daria origem à pequena e bela cidade de Foz do Jordão, que guarda em sua história preciosas lendas e memórias contadas por aqueles que viveram a história e não esquecem dos detalhes.
A história da Lutcher continua rendendo bons causos de boteco, o imaginário popular ajudou muito na sua construção e fez com que Lutcher Brown formasse aqui o seu pequeno império, ainda que temporário. Os reais segredos repousam com ele no túmulo, mas muitos vestígios foram deixados para trás. E citando o historiador francês Marc Bloch, “o historiador se parece com o ogro da lenda, onde fareja carne humana, sabe que ali está a sua caça”, ou seja, a caçada continua.
Na próxima semana você vai acompanhar a terceira e última parte desta preciosa história que irá ganhar um toque pessoal com histórias do meu avô, que trabalhou para a Lutcher e de como as histórias populares do ouro e de lendas como a mula sem cabeça alimentaram ainda mais os contos sobre essa empresa lendária na história do Paraná. Até a próxima!
Recomendado para você

