LUIZ FELIPE DE LIMA
Formado em História pela Unicentro, é professor e um apaixonado pela história de Guarapuava. Pesquisador no campo da História das Relações Internacionais e Geopolítica.
São João Maria: o homem por trás da lenda
Profeta ou charlatão, milagreiro ou farsante, ninguém sabe a verdade, mas a crença popular o denominou santo e milagres são atribuídos à água santa de São João Maria, o profeta dos sertanejos
15/07/2026
O Brasil do fim do século XIX e início do século XX tem em sua história uma série de “revoltas”, que sempre tiveram o contorno de guerra civil, mas como para a maioria dos historiadores e jornalistas guerra civil é coisa de boliviano e argentino, por aqui chamamos de revoltas: da vacina; da chibata; do contestado; de canudos e por aí vai.
No centro dessas revoltas ou guerras, a mais famosa talvez seja a de Canudos (1896-1897), um dos episódios mais dramáticos do início do período republicano. O palco da guerra foi o pequeno povoado de Belo Monte, no sertão da Bahia, que acabou se tornando um refúgio para sertanejos, ex-escravizados, indígenas e marginalizados.
Liderados pelo beato leigo Antônio Conselheiro, o povoado e o movimento foram vistos como monarquistas em razão do discurso de Conselheiro contra o “Anti-Cristo”, a República. Para ele, os reis e imperadores tinham o direito divino de governar, enquanto que a República não pensava no povo e desafia os mandamentos de Deus ao separar a Igreja do Estado, ao aceitar o casamento civil em vez do casamento religioso. Além disso, enquanto o litoral nordestino entrava no rumo da “europeização”, isto é, adaptava-se à modernidade e pregava uma vida civilizada, Canudos era visto como o oposto, era um povoado de bárbaros.
O banho de sangue em Canudos, estima-se, beirou 25 mil mortos, na maior parte sertanejos e com poucas baixas para o exército de Prudente de Morais. Antônio Conselheiro foi a figura do mártir e passou a compor o que a historiografia chamaria mais tarde de “movimento messiânico”, um movimento social e religioso dentro de contextos de ampla desigualdade social e econômica e isolamento geográfico, onde populações inteiras arrasadas pela miséria buscavam a justiça social pela liderança de um “Messias”, muitas vezes visto como um enviado divino.
E é nesse cenário de um Messias que surge a figura (entre três monges) de São João Maria de Jesus, um monge que supostamente surgiu de maneira misteriosa entre as fronteiras do Paraná e Santa Catarina por volta de 1886. Sua presença torna-se marcante quando eclode a Guerra do Contestado (1912-1916), um confronto armado na região de fronteira entre o Paraná e Santa Catarina que envolveu camponeses e posseiros contra os governos dos dois estados, além do governo federal. O centro da disputa era a desapropriação de uma área que envolvia uma faixa de terra de 30 quilômetros de largura de cada lado do traçado de uma ferrovia que iria ligar São Paulo ao Rio Grande do Sul; a região era extremamente rica em erva-mate e passou a ser contestada, daí o nome de Guerra do Contestado.
Os camponeses e posseiros, agora expulsos de suas propriedades, passaram a formar pequenas comunidades para resistir ao empreendimento. A partir daí, o exército brasileiro, com apoio dos governos paranaense e catarinense, começa a reprimir o movimento até mesmo com o uso dos primeiros aviões de combate da Aeronáutica. A guerra chegou ao fim em 1916 com um saldo de aproximadamente 10 mil mortos, em sua maioria camponeses e posseiros.
São João Maria de Jesus
Antes de João Maria de Jesus, existem ainda outros dois, o padre italiano João Maria D’Agostini, da Ordem de Santo Agostinho, que receitava ervas como remédio, batizava e ensinava o catolicismo. Por onde passava deixava cruzes fincadas no solo e recomendava que todos fizessem o mesmo em suas casas. A literatura popular e a memória da história oral atribuem ao padre poderes de levitação (levitava sobre as águas do Tibagi e Jordão, tal qual Jesus quando apareceu a Pedro).
Um fato que talvez a maioria não conheça e os que conhecem o ignoram, é que João Maria de Jesus – o nosso, do Jordão – possivelmente se chamava Atanás Marcaf, de origem síria, teria crescido em Buenos Aires e um belo dia, quando os federalistas voltavam da campanha da Lapa, surgiu com eles um homem estranho que tinha o costume de falar sozinho e era um admirador do padre italiano D’Agostini, ouviu suas pregações e quando o primeiro desapareceu, este tomou seu lugar quase que imediatamente. Deixou o cabelo e a barba crescerem, andava com sandálias de couro cru, barrete de couro de onça, um bordão na mão, um terço no pescoço e, num bornal, trazia consigo uma miniatura de altar da Santíssima Trindade e adotou para si o nome de “João Maria de Jesus”.
Tal qual o italiano, receitava ervas como medicamentos para diversas doenças, aconselhava os camponeses, batizava crianças e adultos em cursos d’água e ensinava as práticas corretas da agricultura e da pesca. Além disso, não falava em nome de uma religião, mas no amor de Jesus Cristo pelo mundo e pregava em seu nome. Vegetariano, se alimentava de hortaliças, mel, mate, leite e queijo. Em “Guerra do Contestado: a organização da comunidade cabocla”, de Marli Auras, consta a seguinte passagem: “Eu nasci no mar, criei-me em Buenos Aires e faz onze anos que tive um sonho, percebendo nele claramente que devia caminhar pelo mundo durante quatorze anos, sem comer carne nas quartas-feiras, sextas-feiras e sábados, sem pousar na casa de outros. Vi-o claramente”.
Os relatos de história oral dão conta de que ele teria previsto a Grande Guerra (Primeira Guerra Mundial – 1914-1918), uma praga que destruiria todas as plantações e árvores (gafanhotos), uma epidemia com muitas mortes (gripe espanhola de 1918-1920) e uma tempestade de granizo que destruiria Guarapuava, em setembro de 1920. Sorte ou realmente “premonição”, tanto a guerra quanto a gripe surgiram, mas a tempestade de granizo, até onde se tem registros, não veio. O único registro de uma grande tempestade de granizo em Guarapuava é de 1968 e que causou inúmeros prejuízos à cidade.
Assim como Antônio Conselheiro na Bahia, criticava abertamente a República e era um fiel defensor da monarquia, criticava a separação do Estado e da Igreja. Segundo ele, essa separação era prejudicial aos homens e mulheres, pois corrompia os limites da convivência decente e que chegaria o dia em que não seria mais possível distinguir o homem da mulher. Homens usando cabelos compridos, roupas coloridas, joias e atitudes femininas
Criado no estilo mais “xucro” possível, não dormia dentro de casas, como andarilho havia se acostumado a dormir ao relento, debaixo de árvores ou nas encostas de montanhas. As lendas contadas a seu respeito dizem que onde ele costumava dormir, abençoava o local e ali surgiam fontes (olho) de água cristalina. De acordo com a lenda, é como teria surgido a gruta que hoje existe às margens do rio Jordão, em Guarapuava. A gruta entorno do olho d’água foi projetada na década de 1970, durante a gestão do ex-prefeito Nivaldo Krüger, como uma forma de tributo e homenagem ao beato; a água “santa” que corre por lá até hoje atrai milhares de pessoas todos os anos, são visitantes que acreditam em uma água milagrosa e com poderes curativos; a crendice popular também leva centenas de bebês a serem batizados todos os anos com a água da gruta e do próprio rio Jordão.
São João teria feito alertas para a agricultura guarapuavana, ensinando os sertanejos a manipularem a terra e fazer o plantio correto dos alimentos. Dizia que se não fossem adotadas técnicas modernas na pecuária, na agricultura e encontrados outros meios de produção, Guarapuava viraria “num porunga”, isto é, uma terra sem vida. Nos campos muito pasto e pouco rastro, a criação acabaria e a terra perderia sua força, fornecendo pouco alimento. Em cima da terra nada brotaria e só seria possível colher alimentos produzidos embaixo da terra.
João Maria de Jesus teria morrido no interior de Santa Catarina, em Taió, enquanto outras fontes sugerem que o Monge acabou apedrejado na cidade de Curitiba no fim de 1920, onde teria morrido e sido enterrado como indigente. Infelizmente não há nenhuma documentação oficial que comprove nenhuma das versões, os tempos eram outros e os registros não eram tão precisos quanto são hoje.
São João, a gruta e a água milagrosa estão presente no imaginário do guarapuavano, fazem parte das nossas lendas e da cultura popular, a memória construída ao redor do monge e de seus supostos milagres fez uma verdadeira legião de fiéis. A tradição, entretanto, não se mantém firme como no século passado; mudanças culturais vão fazendo com que a transmissão da própria cultura, da lenda, da memória e dos cultos religiosos acabem se perdendo com a morte de uma geração anterior. Minha avó “tirava o susto” de crianças com cera de abelha, uma simpatia caseira aprendida com curandeiros do interior na década de 1930 no interior do Paraná, minha mãe, nascida na década de 1960, aprendeu e trouxe consigo a tradição. Eu e minhas irmãs, embora tenhamos aprendido o mesmo ritual, nunca colocamos em prática e é pouco provável que o façamos.
As tradições são inventadas, transmitidas e mortas, até que alguém faça uma busca e as traga novamente à moda. Milagroso ou charlatão, São João Maria de Jesus tem um lugar na memória e na história, costumes foram aprendidos graças aos seus ensinamentos e assim permanecem, ainda que quase mortos na cultura local.
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