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Santos Dumont chegou a Guarapuava a cavalo após cruzar o Paraná em viagem de seis dias

Dez anos depois do voo do 14-Bis, inventor atravessou cerca de 300 km pela mata para chegar a Curitiba e defender a preservação das Cataratas do Iguaçu

24/08/2026

Antes de se tornar símbolo da aviação brasileira, Santos Dumont protagonizou uma viagem pouco conhecida no interior do Paraná. Em maio de 1916, o inventor do 14-Bis chegou a Guarapuava a cavalo, depois de atravessar durante seis dias uma região ainda marcada pela mata e pela precariedade das estradas.

A viagem começou em Foz do Iguaçu e tinha um objetivo que nada tinha a ver com aviões: convencer o governo do Paraná a proteger as Cataratas do Iguaçu.

Santos Dumont tinha 42 anos quando chegou à região das Cataratas, em abril de 1916. Ao conhecer o local, ficou impressionado com a paisagem e descobriu que parte das terras estava em propriedade particular.

A reação foi imediata. O inventor decidiu viajar até Curitiba para pedir ao presidente do Paraná, Affonso Alves de Camargo, que transformasse a área em patrimônio público.

O problema era a distância.

Uma viagem pela mata

Em 28 de abril, Santos Dumont deixou Foz do Iguaçu montado a cavalo. Não havia uma ligação rodoviária direta com Curitiba. O caminho seguia, em boa parte, a faixa aberta para a linha telegráfica instalada pelo Exército.

Foram aproximadamente 300 quilômetros de percurso, atravessando áreas de mata e utilizando estruturas rudimentares ao longo do caminho.

A viagem durou seis dias.

No trajeto, Santos Dumont passou por pontos que hoje fazem parte do Oeste e do Centro-Sul do Paraná. Em 1º de maio, chegou à região da atual Laranjeiras do Sul. No dia seguinte, alcançou a área de Cascavel, então vinculada ao município de Guarapuava.

A chegada a Guarapuava

Em 3 de maio de 1916, Santos Dumont chegou a Guarapuava.

Depois da longa cavalgada, o inventor foi recebido na cidade e hospedou-se no Hotel Demario. Também participou de uma recepção no Teatro Santo Antonio, onde recebeu homenagens da população.

A passagem ocorreu em uma Guarapuava muito diferente da atual, ainda distante da infraestrutura que décadas depois transformaria a cidade em um dos principais centros urbanos da região.

O visitante, porém, já era uma celebridade internacional.

Dez anos antes, havia conquistado fama mundial com o 14-Bis. Agora, chegava ao interior paranaense depois de atravessar a mata montado em um cavalo.

De Guarapuava a Curitiba

A viagem não terminou na cidade.

No dia seguinte, Santos Dumont deixou Guarapuava rumo a Ponta Grossa. De lá, seguiu de trem para Curitiba, onde finalmente se encontrou com o presidente Affonso Camargo.

A pauta era específica: as Cataratas do Iguaçu.

O inventor queria que o poder público assumisse a proteção da área, impedindo que uma paisagem que considerava excepcional permanecesse submetida exclusivamente a interesses particulares.

A pressão de Santos Dumont

Meses depois da viagem, o governo do Paraná desapropriou a área das Cataratas e a declarou de utilidade pública.

O Parque Nacional do Iguaçu só seria criado oficialmente em 1939. A iniciativa de 1916, no entanto, é considerada um dos primeiros passos para a proteção institucional das Cataratas.

A viagem de Santos Dumont, portanto, ganhou um significado que ultrapassou a própria aventura.

O outro feito do inventor

A história costuma associar Santos Dumont aos aviões, aos balões e ao voo do 14-Bis.

Mas, em 1916, foi outro tipo de viagem que o levou ao interior do Paraná.

Ele saiu de Foz do Iguaçu, atravessou a mata a cavalo, passou por uma região que ainda pertencia ao vasto município de Guarapuava e chegou à cidade antes de seguir para Curitiba.

O homem que ajudou a fazer o mundo voar percorreu o Paraná pelo chão para defender que as Cataratas do Iguaçu também pertencessem ao futuro.

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