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Santos Dumont chegou a Guarapuava a cavalo após cruzar o Paraná em viagem de seis dias

Dez anos depois do voo do 14-Bis, inventor atravessou cerca de 300 km pela mata para chegar a Curitiba e defender a preservação das Cataratas do Iguaçu

20/09/2026
Alberto Santos-Dumont,pioneiro da aviação, reconhecido pelo voo público do 14-Bis, em Paris, em 1906. Também desenvolveu dirigíveis e o Demoiselle, um dos primeiros aviões leves produzidos em pequena escala. Símbolo da ciência brasileiraAlberto Santos-Dumont,pioneiro da aviação, reconhecido pelo voo público do 14-Bis, em Paris, em 1906. Também desenvolveu dirigíveis e o Demoiselle, um dos primeiros aviões leves produzidos em pequena escala. Símbolo da ciência brasileira

Antes de se tornar símbolo da aviação brasileira, Santos Dumont protagonizou uma viagem pouco conhecida no interior do Paraná. Em maio de 1916, o inventor do 14-Bis chegou a Guarapuava a cavalo, depois de atravessar durante seis dias uma região ainda marcada pela mata e pela precariedade das estradas.

A viagem começou em Foz do Iguaçu e tinha um objetivo que nada tinha a ver com aviões: convencer o governo do Paraná a proteger as Cataratas do Iguaçu.

Santos Dumont ao lado do então presidente do Paraná, Afonso Camargo, que era natural de Guarapuava. "Pai da Aviação" tinha parada obrigatória em Guarapuava, um dos centros culturais e econômicos do Paraná naquela época

Santos Dumont tinha 42 anos quando chegou à região das Cataratas, em abril de 1916. Ao conhecer o local, ficou impressionado com a paisagem e descobriu que parte das terras estava em propriedade particular.

A reação foi imediata. O inventor decidiu viajar até Curitiba para pedir ao presidente do Paraná, Affonso Alves de Camargo, que transformasse a área em patrimônio público.

O problema era a distância.

Uma viagem pela mata

Em 28 de abril, Santos Dumont deixou Foz do Iguaçu montado a cavalo. Não havia uma ligação rodoviária direta com Curitiba. O caminho seguia, em boa parte, a faixa aberta para a linha telegráfica instalada pelo Exército.

Foram aproximadamente 300 quilômetros de percurso, atravessando áreas de mata e utilizando estruturas rudimentares ao longo do caminho.

A viagem durou seis dias.

No trajeto, Santos Dumont passou por pontos que hoje fazem parte do Oeste e do Centro-Sul do Paraná.

Em 1º de maio, chegou à região da atual Laranjeiras do Sul. No dia seguinte, alcançou a área de Cascavel, então vinculada ao município de Guarapuava.

A chegada a Guarapuava

Em 3 de maio de 1916, Santos Dumont chegou a Guarapuava.

Depois da longa cavalgada, o inventor foi recebido na cidade e hospedou-se no Hotel Demario. Também participou de uma recepção no Teatro Santo Antonio, onde recebeu homenagens da população.

A passagem ocorreu em uma Guarapuava muito diferente da atual, ainda distante da infraestrutura que décadas depois transformaria a cidade em um dos principais centros urbanos da região.

O visitante, porém, já era uma celebridade internacional.

Dez anos antes, havia conquistado fama mundial com o 14-Bis. Agora, chegava ao interior paranaense depois de atravessar a mata montado em um cavalo.

De Guarapuava a Curitiba

A viagem não terminou na cidade.

No dia seguinte, Santos Dumont deixou Guarapuava rumo a Ponta Grossa. De lá, seguiu de trem para Curitiba, onde finalmente se encontrou com o presidente Affonso Camargo.

A missão era específica: as Cataratas do Iguaçu.

O inventor queria que o poder público assumisse a proteção da área, impedindo que uma paisagem que considerava excepcional permanecesse submetida exclusivamente a interesses particulares.

A pressão de Santos Dumont

Meses depois da viagem, o governo do Paraná desapropriou a área das Cataratas e a declarou de utilidade pública.

O Parque Nacional do Iguaçu só seria criado oficialmente em 1939. A iniciativa de 1916, no entanto, é considerada um dos primeiros passos para a proteção institucional das Cataratas.

A viagem de Santos Dumont, portanto, ganhou um significado que ultrapassou a própria aventura.

O outro feito do inventor

A história costuma associar Santos Dumont aos aviões, aos balões e ao voo do 14-Bis.

Mas, em 1916, foi outro tipo de viagem que o levou ao interior do Paraná.

Ele saiu de Foz do Iguaçu, atravessou a mata a cavalo, passou por uma região que ainda pertencia ao vasto município de Guarapuava e chegou à cidade antes de seguir para Curitiba.

O homem que ajudou a fazer o mundo voar percorreu o Paraná pelo chão para defender que as Cataratas do Iguaçu também pertencessem ao futuro.

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