LUIZ FELIPE DE LIMA

LUIZ FELIPE DE LIMA

Formado em História pela Unicentro, é professor e um apaixonado pela história de Guarapuava. Pesquisador no campo da História das Relações Internacionais e Geopolítica.

Opinião

Lutcher: histórias que o povo conta

Todo mundo sabe como termina essa história, mas como ela começa?

04/03/2026

A década de 1950 ficou marcada pela fase desenvolvimentista do governo Getúlio Vargas que apostava na industrialização rápida do país como forma de fortalecer a economia brasileira e trocar o mercado agrícola pelo industrial – da importação, pela produção nacional dos bens que eram consumidos aqui.

Mas bem longe do eixo Rio-São Paulo, no Terceiro Planalto Paranaense, tudo corria dentro da mais perfeita normalidade, sem sinais de que uma grande mudança estava por acontecer na região de Guarapuava. No encontro das águas do rio Jordão com o poderoso rio Iguaçu, um Segredo se tornaria o centro das conversas nos balcões das vendas, nas igrejas e principalmente nas praças. Boatos aqui e acolá transformaram a história em um registro precioso e que até hoje chama a atenção pelos mistérios e lendas; ali nascia a Lutcher S/A.

Fundada por Frederic Lutcher Brown, começou a operar oficialmente em 1961, de acordo com documentos do extinto Ministério do Exército. Lutcher Brown, embora nascido nos Estados Unidos, morava no Uruguai desde 1953, onde seu pai construiu a maior fábrica de papel e celulose daquele país, a Companhia Industrial Del Sur S/A. A recém construída Lutcher funcionou oficialmente até dezembro de 1965 e fechou as portas sem dar explicações. Anos mais tarde, documentos comprovariam que a falta de capital e a pressão do governo brasileiro fizeram com que Lutcher Brown fechasse as portas e deixasse para trás uma mega estrutura, milhares de desempregados e muitas dívidas.

Todo mundo sabe como termina essa história, mas como ela começa? Quem são seus personagens centrais, como surgiram as lendas e o que realmente existia no Segredo? Pois bem! Para entender o que há no Segredo é preciso, antes de tudo, entender a origem dele.

O “s” maiúsculo não é por acaso, Segredo é uma localidade e é a partir daqui que a nossa história começa a ser contada.

Na segunda metade do século XVIII, mais precisamente por volta de 1770, a comitiva de Afonso Botelho de Sampaio e Souza foi encontrar a expedição comandada pelo miliciano Cândido Xavier, que fez o caminho inverso e subiu o rio Jordão em direção à Guarapuava, vindo pelo Iguaçu. Afonso Botelho teria encontrado com o grupo de Xavier nas proximidades da foz do rio Pinhão (que deságua no Jordão). Ali, descreve Marcondes, Sampaio e Souza quase se afogou enquanto buscavam por ouro e, de acordo com a lenda, disse que nasceu de novo e por isso passaria a chamar o rio de “Jordão”, em alusão ao curso d’água em que Jesus foi batizado por João Batista, em Betânia (atual Jordânia).

A região passou a ser alvo de intensas buscas por pedras preciosas em razão da riqueza do território e das lendas já conhecidas por Afonso Botelho e Cândido Xavier. Isto porque os jesuítas portugueses, retornando de Guaíra, teriam parado na margem esquerda do Iguaçu (na foz do Jordão) para descansar e ali teriam escondido as pedras preciosas roubadas no reduto espanhol a oeste. O pequeno véu formado pela cachoeira do rio Jordão acabou por ajudar a esconder as pedras e, de acordo com a lenda, antes de serem expulsos do Brasil durante a administração do Marquês de Pombal, os jesuítas deixaram um baú com diversos tesouros. A lenda também tem uma versão reproduzida até hoje, de que o tal baú só pode ser visto em noites de lua cheia e de que é amaldiçoado, sendo que a maldição acompanhará aquele tentar recuperá-lo.

Ao lado da foz do rio Jordão, há uma grande quantidade de terras, que antes de ser propriedade da Lutcher S/A, pertencia a um fazendeiro chamado Sinval Martins de Araújo. Segundo relatos, ele próprio foi quem descobriu os primeiros “problemas” na área. Uma parte do gado de sua propriedade ficava em uma área pantanosa e Sinval começou a observar que havia um local em que os bois permaneciam por mais tempo. Ao longo do tempo, o casco dos animais começou a apodrecer e cair. Logo depois Sinval teria contraído uma doença no ouvido que o levou a tratamento nos Estados Unidos e lá, segundo contam, teria sido identificado um câncer por contaminação pela radiação devido a exposição a urânio.

O início

Contam alguns moradores e também o jornalista Luiz Geraldo Mazza (in memorian), que durante dois ou três anos, o céu sobre o vale do Rio Jordão deixou de pertencer aos gaviões e passou a ser ocupado por aviões de modelo até então pouco vistos na região. É claro, os guarapuavanos já conheciam os aviões, mas o modelo Douglas DC-3, de fabricação da McDonnell Douglas, famosos durante a Segunda Guerra, até então não eram tão populares na região sul, embora fossem utilizados pela VARIG na aviação comercial. Além disso, os voos eram diários, em quadrantes perfeitos, “como se estivessem medindo alguma coisa”. E realmente estavam. Eram as primeiras sondagens do terreno para a instalação da fábrica que iria ocorrer cinco anos mais tarde.

Diferentes dos famosos “teco-teco”, termo utilizado para se referir aos aviões monomotores, especialmente as aeronaves da Cessna, os aviões estadunidenses que rondavam a região de Guarapuava eram bimotores e muito mais velozes. Bastou o primeiro voo para chamar a atenção, eram duas aeronaves, de matrícula estrangeira, que riscavam os céus sobre o vale do Jordão e também a vila do Segredo. Além disso, não eram aviões de passeio, ambos tinham equipamentos de aerofotogrametria e uma meia dúzia para mais de sensores que os caboclos da região não faziam ideia do que era nem muito menos como se chamavam. Os sertanejos ainda não sabiam, mas as duas aeronaves fabricadas no belíssimo estado do Missouri, EUA, estavam à procura do que Lutcher pai considerava sua maior ambição: construir a maior fábrica de papel e celulose em terras brasileiras.

A região escolhida não foi um mero acaso. Alguns estudos já indicavam o potencial para energia das águas do Jordão e a fertilidade da região para madeira de Araucária. Além disso, alguns moradores mais antigos da região não descartam a possibilidade Lutcher pai ter sido atraído pelos boatos de pedras preciosas na foz do Jordão e da possível “água pesada”, termo utilizado para se referir ao urânio.

José Maurino, um daqueles sertanejos impressionados com o que via no céu e em terra, contou ao jornal Diário do Paraná que era um dos ex-proprietários de terras onde a Lutcher iria se instalar, suas terras avizinhavam-se com as de Sinval Martins de Araújo. Conta ele que depois que os aviões começaram a sobrevoar sua propriedade não demorou muito até um grupo de estrangeiros que inicialmente responderam estar caçando na região, mas não disseram o que. Levavam consigo diversos aparelhos “que faziam ruídos como se estivessem arranhando algo” – que posteriormente o jornalista Mazza deduziu serem contadores Geiger (instrumento utilizado para detectar e medir radiação ionizante). Maurino contou que pouco tempo depois, um advogado de São Paulo foi à propriedade oferecendo compra-la e chamou a atenção o valor muito maior do que o preço estabelecido para a região. Depois de adquiridas as terras, antes mesmo de iniciar a construção, a Lutcher contratou seguranças armados para impedir o acesso a diversos lugares, inclusive a margem do rio que era muito frequentada pelos moradores. Do dia para a noite, conta ele, homens uniformizados e armados começaram a fazer a segurança em toda a propriedade impedindo que áreas comuns se tornasse inacessíveis.

O tempo passou e o sonho de Henry Lutcher Brown passou a ser comandado por seu filho, Frederic Lutcher Brown. A primeira vez que ele vem ao Brasil é em 1953, mesmo período em que os aviões rondavam o Segredo. Já nessa época, sua residência oficial era o Uruguai, conforma demonstra o visto emitido pelo consulado brasileiro em Montevideu

Visto de entrada no Brasil de Frederic Lutcher Brown, de 1953. Fonte: Arquivo da Biblioteca Nacional.  

E então se inicia a construção da fábrica. A Vila do Segredo, até então pacata, passa a ser um centro movimentado com operários que vinham de todo o Brasil e de países vizinhos, em uma única mesa de bar era possível encontrar operários da Bahia, do Rio Grande do Sul e do Paraguai conversando como se fossem amigos de longa data. Além de paraguaios, a presença de ingleses, estadunidenses e alemães era frequente também. Segredo se tornou um polo para trabalhadores braçais, enquanto o salário aproximado na região de Guarapuava era de Cr$ 40.000,00 (Cruzeiros), a Lutcher oferecia postos de trabalho com salário médio de Cr$ 150.000,00, o que equivale hoje a um salário de aproximadamente R$ 5.600,00, um valor bem acima da média local. Além do salário elevado, a empresa também oferecia moradia fixa, lenha para consumo doméstico, energia elétrica e água sem cobrar nada dos funcionários. Não é preciso dizer o quanto a notícia correu à galope pelo sertão brasileiro.

Lutcher Brown foi além. Construiu casas, um hospital, um cinema, uma escola, um minimercado para abastecer a pequena vila e uma pista para pousos e decolagens do seu DC-3. No começo, a fábrica chegou a contar com 1.200 funcionários, entre operários e diretores, todos alocados na propriedade em casas pré-fabricadas.

Casas dos operários da Lutcher, em primeiro plano. Ao fundo, a chaminé da caldeira da fábrica. Foto: Reprodução Tribuna SC/Facebook

Não demorou muito e começaram a surgir os primeiros boatos, lendas e histórias assustadoras que rondavam a região, até mesmo de um fugitivo nazista que buscou abrigo na indústria. Mas esses são relatos que eu convido você a acompanhar na parte 2 desta série sobre a Lutcher. Até breve!

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