Guarapuava, 206 anos depois: a força da História e as necessidades do presente
A importância da agropecuária no maior município em extensão do Paraná
09/12/2025
Fundada em 9 de dezembro de 1819, Guarapuava construiu sua identidade sobre a terra – não apenas como território, mas como destino econômico e social. Desde os primeiros colonizadores enviados pela Coroa Portuguesa aos Campos Gerais de Guarapuava, o município se moldou pelo ritmo da agropecuária. Tropeiros, ervateiros, madeireiros: cada ciclo deixou marcas profundas e projetou a região como referência para o Paraná que ainda nascia.
Guarapuava já era realidade consolidada quando, em 1853, o Paraná se emancipou de São Paulo. Participou, portanto, de todo o esforço para erguer um novo Estado. Cresceu, acolheu, irradiou influência. E foi também fonte de novos municípios, desmembrados ao longo das décadas enquanto a agropecuária se afirmava como espinha dorsal da economia regional.
Mapa do Paraná e o território original de Guarapuava no período inicial da colonização (1810): 175.000 km²
Tropeiros de antigamente e agricultores dos tempos modernos: histórias que se entrelaçam
Se o tropeirismo do Século XIX em Guarapuava foi vital para o desenvolvimento do Paraná, em outros tempos a madeira que saiu daqui ajudou a levantar cidades. Entre elas, Brasília, a Capital Federal.
No século XX, especialmente após a Segunda Guerra, Guarapuava se tornou ponto de convergência de múltiplas matrizes culturais: suábios do Danúbio, japoneses, italianos, ucranianos, poloneses, libaneses, portugueses e a presença histórica dos negros e dos povos originários.
É dessa mistura, somada ao caboclo do interior profundo, que se fez o tecido social do município que continua a ocupar o maior território individual do Paraná.
As antigas Cavalhadas, símbolo de conquista e da habilidade do homem do campo: ponto de cultura e História
Guarapuava de todas as raças: herança cultural de valor inestimável
O contraste entre a Guarapuava de 1950 – rural, dispersa, dependente da madeira e da pecuária extensiva – e a Guarapuava de 2025 é evidente.
Em cerca de oito décadas, o município saltou do extrativismo para índices expressivos de produtividade em soja, milho, trigo, cevada, aveia, batata e triticale; ampliou a silvicultura; investiu em genética animal; consolidou a maior maltaria da América Latina; diversificou o setor madeireiro; firmou-se no setor papeleiro com indústrias de ponta; passou a se fortalecer no agronegócio industrial.
De cada três cervejas consumidas no Brasil, uma é feita com malte produzido em Guarapuava. É um dado já conhecido, que merece ser repetido, pois retrata a participação industrial local no consumo da bebida mais popular do País.
Diversidade na agricultura, agroindústria de ponta
Junto ao trabalho valoroso das famílias de produtores rurais, com exemplar empreendedorismo e dedicação diuturna a suas propriedades, veio a pesquisa e a extensão rural. Na base da agropecuária, estão diversas empresas (nacionais e internacionais), agrônomos, técnicos, pesquisadores, na assistência técnica, no melhoramento genético e na qualidade do solo.
O agro é uma máquina com vários tentáculos, que não dorme, não tem domingo nem feriado, desafia o sol e a chuva, formado por pessoas em cujas veias pulsa a força transformadora que semeia o alimento que nutre a Humanidade.
Há, portanto, um consenso regional: o setor produtivo fez e continua fazendo sua parte. Pesquisa, empreendedorismo e reinvenção permitiram a Guarapuava disputar protagonismo em várias cadeias, inclusive na suinocultura, onde a genética local é referência continental.
Em Guarapuava, o agro é mais que pop: ele é esteio da economia, cerca de 20% do Produto Interno Bruto (PIB) do Município (IBGE/2022).
Setor madeireiro e papeleiro: do extrativismo à indústria tecnológica
É por isso que o Poder Público deve acompanhar o mesmo compasso.
A cidade que se tornou motor agroindustrial do Centro-Sul do Paraná ainda opera com logística de meados do século passado. O aeroporto local, apesar de esforços recentes, permanece aquém do necessário – a ponto de Guarapuava estar sem voos comerciais regulares e jamais ter estruturado transporte aéreo de cargas.
A ferrovia inaugurada em 1954 segue praticamente a mesma, ao longo de 71 anos de sua existência, sem modernizações compatíveis com a importância de um terminal estratégico.
O CAMINHO DO FUTURO FAZEMOS HOJE
Inauguração da estrada de ferro de Guarapuava em 1954 (no alto) e a necessidade, mais do que urgente, de um sistema multimodal de logística funcional e eficiente
Louvo a iniciativa das entidades empresariais, da Prefeitura e do governo do Estado, com a pretendida ampliação do Aeroporto Municipal Tancredo Thomaz de Faria. Porém, compactuo com a opinião de amplos setores da sociedade, de que logística é muito mais do que transporte de passageiros. Ainda que, estamos atrasados em comparação a outros municípios, em tese de menor porte, como Pato Branco.
Nas rodovias, o cenário é ainda mais revelador. Enquanto regiões vizinhas discutem duplicações, Guarapuava ainda trava batalhas antigas por simples pavimentações. A BR-277, vital para o escoamento da produção e acesso ao Porto de Paranaguá, segue sem solução concreta para o trecho crítico da Serra da Esperança – símbolo da imprevisão logística –, ao mesmo tempo em que outros trechos da mesma rodovia avançam em duplicações em ritmo acelerado (nesta semana, está sendo anunciada obra de uma nova pista entre Irati e Palmeira, extensão de 27,5 quilômetros).
É justo reconhecer avanços, como o início da duplicação da PR-466 até Palmeirinha e os projetos programados para a PR-170. Mas Guarapuava espera, e precisa, de muito mais.
O que Guarapuava pede não é privilégio – é coerência histórica. A região que produziu riqueza, povoou o interior, acolheu imigrantes, diversificou a economia e alimenta o Estado precisa de infraestrutura compatível com seu potencial.
Com apoio efetivo em incentivos, pesquisa e logística, Guarapuava pode não apenas continuar sendo potência agroindustrial, mas se tornar polo de inovação e transformação. Negar isso é desperdiçar aquilo que 206 anos de história construíram: um município que fez muito pelo Paraná e que agora precisa, legitimamente, receber de volta.
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