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Venezuela: ideologia, petróleo e a conta que sobra para a região

A crise no país vizinho é fruto de escolhas políticas equivocadas

05/01/2026

A crise venezuelana deixou há muito tempo de ser um problema interno. O colapso econômico, político e social do país vizinho tornou-se um alerta regional sobre os riscos do autoritarismo ideológico, da dependência excessiva do Estado e da submissão da democracia a projetos de poder personalistas. O que acontece hoje na Venezuela é menos um acidente histórico e mais o resultado previsível de escolhas políticas equivocadas.

Durante décadas, a Venezuela desfrutou de uma posição privilegiada na América Latina. Dono de vastas reservas de petróleo, o país teve recursos suficientes para construir infraestrutura, investir em políticas sociais e garantir estabilidade. Mas a riqueza fácil mascarou problemas estruturais: instituições frágeis, clientelismo político e uma economia refém do preço internacional do barril. Quando o dinheiro do petróleo deixou de ser abundante, o castelo de cartas ruiu.

A chegada de Hugo Chávez ao poder marcou uma virada decisiva. Sob o discurso de justiça social e soberania nacional, o chavismo promoveu a concentração de poder, enfraqueceu o Legislativo, aparelhou o Judiciário e transformou as Forças Armadas em braço político do governo. O sucessor Nicolás Maduro aprofundou esse caminho, levando o país a um cenário de hiperinflação, escassez de alimentos, colapso dos serviços públicos e repressão sistemática à oposição.

Diante desse quadro, os Estados Unidos passaram a exercer pressão econômica e diplomática sobre Caracas. Não se trata de novidade. Ao longo do século XX, Washington interveio em países como Panamá e Nicarágua, sempre sob o argumento de defender a democracia ou combater ameaças ideológicas.

Na prática, tais ações mostraram que interesses estratégicos e geopolíticos costumam pesar mais do que a retórica moral que as acompanha.

No caso venezuelano, o petróleo é o fator central. A maior reserva comprovada do mundo não é um detalhe irrelevante, mas o eixo da disputa. Sanções e isolamento internacional visam enfraquecer o regime, mas também ampliam o sofrimento da população, que já paga caro pela incompetência e pelo autoritarismo do governo Maduro.

O Brasil, por sua vez, assiste a essa crise de uma posição ambígua. Em nome de afinidades ideológicas, governos brasileiros no passado minimizaram os abusos do regime chavista e apostaram em uma integração política que ignorava sinais evidentes de autoritarismo. Em outro extremo, houve momentos de alinhamento automático aos Estados Unidos, sem oferecer soluções concretas para o drama humano que se desenrolava na fronteira norte.

O resultado dessa hesitação está à vista: milhões de venezuelanos cruzaram para países vizinhos, especialmente para o Brasil, em busca do mínimo para sobreviver. A crise escancarou que tolerar regimes autoritários em nome da ideologia tem custo real e imediato.

A lição venezuelana é clara e deveria servir de alerta para toda a América Latina.

Democracia não sobrevive quando instituições são capturadas, a economia é estatizada sem critério e o discurso político substitui a responsabilidade administrativa. O petróleo, que poderia ser instrumento de desenvolvimento, transformou-se em combustível para a permanência no poder.

No fim, entre interesses internacionais, populismo interno e omissões regionais, quem perde é sempre a população. E quando a ideologia se impõe sobre a realidade, a conta – como mostra a Venezuela – nunca demora a chegar.

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