Por que Trump perdeu: custo de vida, guerra e denúncias pesam na derrota republicana
Leia, também, sobre os reflexos da crise nos EUA para os exportadores de madeira de Guarapuava
04/11/2026
O avanço democrata em redutos republicanos expôs a insatisfação dos eleitores com os rumos do governo e ampliou os obstáculos à agenda da Casa Branca nos próximos dois anosO aumento do custo de vida, a guerra contra o Irã e as denúncias de favorecimento a negócios da família de Donald Trump ajudaram a impulsionar a derrota republicana nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3).
O partido perdeu a maioria na Câmara e no Senado, em uma votação marcada pela insatisfação com os rumos do governo.
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Embora Trump não estivesse pessoalmente na disputa, o resultado atingiu sua administração e a agenda que defendeu durante a campanha. Os democratas avançaram inclusive em estados tradicionalmente republicanos, como Texas, Kansas, Carolina do Sul, Ohio e Iowa.
Pesquisas de boca de urna e avaliações de especialistas ouvidos pela Agência Brasil apontam uma combinação de fatores para explicar o revés. A pressão sobre o orçamento das famílias aparece no centro desse desgaste.
Economia frustra expectativas dos eleitores
Segundo levantamento da NBC News citado pela Agência Brasil, 65% dos entrevistados afirmaram que as políticas de Trump pioraram a economia, enquanto 62% o responsabilizaram pelos preços elevados.
A insatisfação atingiu uma das principais promessas que sustentaram a vitória do republicano em 2024: melhorar as condições econômicas dos norte-americanos. O custo de vida, que havia desgastado o governo democrata de Joe Biden, passou a pressionar o sucessor.
A professora de relações internacionais Camila Vidal, da Universidade Federal de Santa Catarina, explicou à Agência Brasil que parte dos eleitores esperava uma administração concentrada nos problemas internos e nas dificuldades financeiras da população.
Na avaliação da pesquisadora, essa expectativa não foi atendida. Despesas essenciais continuaram comprometendo a renda das famílias, alimentando a percepção de que o governo não respondeu às necessidades cotidianas.
Tarifas e guerra ampliam pressão sobre os preços
A política de tarifas sobre importações encareceu produtos no mercado norte-americano. Ao mesmo tempo, a guerra contra o Irã acrescentou pressão sobre os combustíveis.
Conforme a reportagem da Agência Brasil, o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, após o ataque dos Estados Unidos, contribuiu para elevar os preços da gasolina e do diesel, com efeitos sobre os custos de transporte e outras atividades econômicas.
O conflito produziu, assim, desgaste em duas frentes: pela decisão de entrar na guerra e pelas consequências econômicas percebidas pelos consumidores. Na pesquisa citada, 63% disseram que os Estados Unidos tomaram a decisão errada ao iniciar a ação militar contra o Irã.
O historiador James N. Green, da Universidade de Brown, afirmou à Agência Brasil que a alta dos preços passou a ser associada pelos eleitores tanto às tarifas quanto à guerra.
Denúncias atingem discurso e imagem do governo
As suspeitas envolvendo interesses privados da família presidencial também ganharam importância durante a campanha.
Segundo Green, denúncias de uso da influência política para favorecer negócios particulares provocaram insatisfação inclusive entre pessoas que haviam votado em Trump.
A reportagem da Agência Brasil menciona acusações de favorecimento empresarial, possíveis conflitos de interesse e suspeitas de utilização de informações privilegiadas em operações financeiras. Também cita investigação jornalística do The Washington Post sobre contratos federais obtidos por empresas ligadas aos filhos do presidente.
Essas denúncias acrescentaram desgaste à administração. As acusações, entretanto, não equivalem, por si só, a condenações judiciais.
Política migratória encontra resistência
A imigração, uma das principais bandeiras de Trump, também apareceu como fonte de rejeição. Para 57% dos entrevistados no levantamento citado, as políticas do presidente nessa área foram longe demais.
O dado mostra que o endurecimento das medidas migratórias encontrou resistência entre os eleitores. Uma agenda utilizada pelo republicano para mobilizar sua base passou também a estimular votos contrários ao governo.
Inteligência artificial vira preocupação eleitoral
A inteligência artificial entrou no debate como outro ponto de tensão. Segundo a pesquisa, 57% acreditavam que a IA faria mais mal do que bem à sociedade, e 76% eram contrários à construção de centros de processamento de dados em suas comunidades.
As respostas revelam desconfiança em relação à expansão da tecnologia e à infraestrutura necessária para sustentá-la. Esse ambiente confrontou a posição de Trump favorável à redução de barreiras regulatórias para o setor.
Os números expressam preocupações dos entrevistados, mas não permitem atribuir isoladamente à inteligência artificial uma parcela específica da derrota.
Para o professor de direito internacional Paulo Borba Casella, da Universidade de São Paulo, o resultado deve ser compreendido pela combinação entre desgaste econômico e decisões políticas do governo.
A perda das duas Casas do Congresso transforma essa insatisfação em uma limitação institucional: Trump terá de conduzir os dois últimos anos do mandato diante de uma oposição com mais instrumentos para fiscalizar sua administração e dificultar o avanço de suas propostas.
O que a derrota de Trump muda para o Brasil e Guarapuava
Mais espaço para negociação, sem alívio imediato. A vitória democrata amplia a fiscalização sobre a política externa e comercial de Donald Trump e pode abrir oportunidades para o Brasil negociar barreiras às exportações. Mas a mudança no Congresso, que assume em janeiro de 2027, não cancela automaticamente tarifas nem impede novas medidas do presidente.
Eduardo e Flávio Bolsonaro. Politicamente, o resultado enfraquece o principal aliado internacional dos irmãos e torna Washington um ambiente menos favorável às suas articulações. Eduardo perde espaço relativo para pressionar autoridades americanas; no caso de Flávio, parlamentares democratas já cobraram explicações sobre sua entrada nos Estados Unidos e uma possível participação do governo Trump em sua saída do Brasil. A nova maioria pode dar força a essas iniciativas, mas não altera automaticamente a situação migratória ou judicial dos dois.
Madeira de Guarapuava. Para as indústrias exportadoras, o efeito dependerá de mudanças concretas nas regras comerciais. Tarifas elevadas encarecem o produto brasileiro nos Estados Unidos e podem provocar pedidos de desconto, redução de encomendas e pressão sobre margens, com possíveis reflexos em fornecedores florestais, transporte e empregos na região. A eleição, por si só, não elimina esses custos. O setor madeireiro de Guarapuava reduziu a marcha de produção e promoveu demissões alegando a crise de exportação com os Estados Unidos.
Atenção às alíquotas. A referência a tarifas de até 50% exige identificar o produto e a regra aplicável. O quadro do MDIC, atualizado em 26 de outubro, informa sobretaxas acumuladas de 37,5% para vários tipos de madeira e móveis, além de tratamentos setoriais específicos. Portanto, não é correto apresentar 50% como cobrança geral sobre a madeira exportada por Guarapuava.
Dólar, juros e investimentos. Para a economia brasileira, o resultado também acrescenta incerteza sobre os próximos passos de Washington. A reação de Trump à derrota, a guerra no Irã e as decisões comerciais continuarão influenciando petróleo, inflação e mercados internacionais. Não há uma relação automática entre vitória democrata, queda do dólar e melhora das exportações brasileiras.
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