MARCELO ANTONIO CESCA
Juiz federal aposentado e ex-procurador federal. Atuou na Justiça Federal do Paraná e do Distrito Federal e na Advocacia-Geral da União
Insultolândia
Tornar algo possível, na política, exige muitos atributos
28/07/2026
A política tem muitas definições. A minha definição preferida é a de que “a política é a arte do possível.”
Tornar algo possível, na política, exige muitos atributos: discurso dialógico, trato diplomático com as pessoas, busca de consensos ou acordos mínimos possíveis, cessão parcial de pretensões, ponderação sobre as consequências das eventuais escolhas a serem tomadas etc.
A República Federativa do Brasil sempre se vangloriou de ser expoente na arte das relações diplomáticas com os governos e Estados estrangeiros.
É claro que esse romantismo muitas vezes é exagerado e busca esconder fatos pouco abonadores. Por exemplo: se Portugal e o Império do Brasil tivessem efetivamente respeitado o Tratado de Tordesilhas firmado com a Espanha, nossa língua materna na região de Guarapuava seria o espanhol, e talvez também o guarani.
Mas, em um mundo real cada vez mais conectado e influenciado pelo mundo virtual dos “likes”, dos “reels” e da necessidade contínua de manchetes jornalísticas impactantes e chocantes, a política, interna e internacional, está se tornado a arte de proferir insultos. Vivemos na “Insultolândia” global.
Há poucos dias, o Presidente da República Argentina ofendeu diretamente ao Chefe do Estado Brasileiro e a um Magistrado do nosso Supremo Tribunal Federal. Eis que então o Governo Brasileiro convocou o seu Embaixador na Argentina, solicitou explicações ao Embaixador Argentino no Brasil e nosso Ministro da Fazenda disparou um insulto com o Chefe daquela Nação Irmã. Parece briga de escola, mas estamos tratando dos dois países economicamente mais importantes da América do Sul.
Internamente, a cena grotesca de parlamentares federais se ofendendo e trocando mútuas agressões físicas no Plenário de uma Comissão Parlamentar de Inquérito no Congresso Nacional circulou pelos meios de comunicação aqui e no mundo.
O pior é que esses discursos de ódio, sejam à esquerda, ao centro ou à direita do espectro ideológico-partidário, só aumentam em quantidade e intensidadee, cada vez mais “viralizando” por meio da imprensa tradicional e da internet.
Certamente não foi isso que Platão sonhou ao escrever a sua monumental obra “A República”, muito embora há 2.500 anos ele já alertasse para o risco de a democracia descambar para a demagogia e para outras formas deterioradas da vida em comunidade.
Espero que as gerações futuras, ao se debruçarem sobre nossa “Insultolândia”, tenham piedade de nós e reconstruam a “pólis” (cidade) imaginada por Platão, para o bem de toda a humanidade. Pelo visto a “Era das Trevas” segue existindo firme e forte, bem diante de nossos olhos.
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