Tarifaço de 25% sobre produtos madeireiros brasileiros: o problema não é a tarifa, é a reação do mercado
Momento exige racionalidade nas decisões
21/07/2026
CÉLIO CUNHA (*)
A decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos madeireiros brasileiros gerou preocupação imediata entre fabricantes, importadores e distribuidores. À primeira vista, a medida parece representar um golpe severo para o setor. Entretanto, uma análise econômica mais aprofundada demonstra que o maior risco não está na tarifa em si, mas na reação dos próprios exportadores brasileiros.
O setor de compensados é um excelente exemplo. Aproximadamente 66% da produção brasileira é destinada à exportação, e cerca de um terço desse volume tem como destino o mercado norte-americano. Isso significa que aproximadamente 22% da produção nacional depende dos Estados Unidos.
Naturalmente, parte da demanda poderá diminuir em razão do aumento do custo para o comprador americano. Porém, isso não significa que os fabricantes brasileiros precisem absorver essa perda reduzindo seus preços.
Se as empresas responderem racionalmente, ajustando a produção à nova realidade, o impacto econômico poderá ser praticamente nulo.
A lógica econômica
Suponha que a demanda dos Estados Unidos recue de forma equivalente à parcela afetada pela tarifa. Em vez de disputar os pedidos remanescentes por meio de descontos agressivos, bastaria que a indústria brasileira reduzisse temporariamente sua oferta em aproximadamente 11%.
Com menor disponibilidade de produto, o mercado permaneceria equilibrado. O volume exportado aos Estados Unidos continuaria existindo, porém distribuído entre empresas que mantivessem disciplina comercial, preservando os preços internacionais.
Em outras palavras:
- produção reduzida em cerca de 11%;
- exportações reduzidas na mesma proporção;
- preços preservados;
- margens preservadas;
- resultado financeiro praticamente inalterado.
Essa estratégia é muito menos onerosa do que iniciar uma guerra de preços.
O verdadeiro perigo: o dumping voluntário
Infelizmente, a história mostra que parte do setor costuma reagir de forma emocional.
Quando surgem dificuldades, alguns fabricantes procuram manter suas fábricas operando a qualquer custo, oferecendo descontos cada vez maiores para preservar volumes.
É justamente essa reação que destrói valor.
Se um compensado cujo custo de produção é de US$ 340/m³ passar a ser vendido por US$ 290/m³, não existe eficiência industrial capaz de compensar uma perda dessa magnitude. Cada embarque passa a gerar prejuízo operacional.
Além disso, essa prática produz efeitos duradouros:
- deterioração das margens de toda a indústria;desvalorização do produto brasileiro no mercado internacional;
- fragilização financeira dos fabricantes;
- aumento do risco de novas investigações antidumping;
- redução da capacidade de investimento em qualidade, tecnologia e sustentabilidade.
Em vez de combater a tarifa, os próprios exportadores acabam transferindo riqueza para os compradores estrangeiros.
O mercado continua precisando de compensado
Outro aspecto frequentemente ignorado é que o consumo americano de compensado não desaparece por causa de uma tarifa.
Os Estados Unidos continuarão necessitando do produto para construção civil, indústria e embalagens.
A tarifa apenas altera parte da estrutura de custos da cadeia.
Quando a oferta brasileira é ajustada de maneira coordenada e racional, o mercado tende naturalmente a absorver esse novo equilíbrio de preços.
Quem insiste em vender abaixo do custo apenas acelera a destruição de valor sem recuperar a demanda perdida.
Disciplina comercial é vantagem competitiva
Empresas financeiramente saudáveis entendem que preservar margem é mais importante do que preservar volume a qualquer preço.
Reduzir temporariamente a produção pode parecer uma decisão difícil, mas costuma ser muito menos prejudicial do que produzir para acumular prejuízos.
Mercados internacionais valorizam fornecedores consistentes, previsíveis e disciplinados. Já mercados inundados por ofertas desesperadas rapidamente passam a exigir descontos permanentes.
Conclusão
O tarifaço de 25% representa um desafio importante para a indústria brasileira de compensados, mas não precisa se transformar em uma crise.
Se o setor ajustar sua produção à nova realidade e resistir à tentação de reduzir preços, o impacto econômico poderá ser mínimo. A redução temporária de aproximadamente 11% da oferta é suficiente para preservar o equilíbrio entre oferta e demanda, mantendo preços, margens e a sustentabilidade financeira das empresas.
O maior inimigo da indústria não é a tarifa americana.
É a falta de disciplina comercial.
O mercado internacional respeita empresas que defendem o valor de seus produtos. Aquelas que vendem abaixo do custo não conquistam mercado; apenas financiam, com seus próprios prejuízos, a rentabilidade de seus clientes.
CÉLIO CUNHA economista, industrial e mercadólogo
▪ Veja também
Recomendado para você
Todo mundo fala
-
JUSTIÇA TCE confirma irregularidades no transporte coletivo de Guarapuava e manda investigar renovação de contrato da Pérola do Oeste -
TRÂNSITOColisão na BR-277 provoca incêndio, mata motorista e deixa sete feridos graves em Candói -
POLÍTICAPré-campanha segue em campo -
SEGURANÇA Acusado de matar homem em frente a escola vai a júri popular em Guarapuava
