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Sexto mês de meta estourada: impactos para política monetária e governo

10/07/2025

FABRÍCIO TONEGUTTI (*)

Com o resultado de junho, o Brasil completa seis meses consecutivos com a inflação oficialmente fora da meta estabelecida. Desde janeiro, a inflação em 12 meses medida pelo IPCA (índice oficial utilizado no sistema de metas) permaneceu acima do limite de tolerância de 4,5% ao ano. Esse descumprimento da meta pelo sexto mês seguido aciona os dispositivos do regime de metas contínuo: conforme a regra, quando a inflação estoura o teto da meta por seis meses seguidos, o presidente do Banco Central deve divulgar uma explicação pública sobre as causas do não cumprimento, as medidas para trazer a inflação de volta aos eixos e o horizonte esperado para isso. Na prática, isso significa que o Banco Central terá de emitir uma nota no seu Relatório de Política Monetária e uma carta aberta ao Ministério da Fazenda detalhando por que a inflação fugiu do intervalo e o que será feito para corrigir o rumo. De fato, o BC já se preparava para essa contingência: com a divulgação do IPCA de junho, esperada em 10 de julho, seria confirmada a necessidade de uma nova carta explicando o novo estouro da meta.

As implicações para a política monetária são significativas. A persistência inflacionária acima da meta tem levado o Banco Central a manter os juros básicos (taxa Selic) em patamares elevados por mais tempo do que o governo desejava. Nos últimos meses, diante da resistência dos preços, o BC elevou a Selic para 15% ao ano, um dos níveis mais altos do mundo em termos reais (descontada a inflação). Essa postura mais dura visa esfriar a economia e conter a alta de preços, ainda que ao custo de desacelerar a atividade econômica. Economistas apontam que, sem a colaboração de uma política fiscal mais equilibrada, o Banco Central se viu obrigado a carregar esse esforço quase sozinho, mantendo os juros altos para compensar pressões de demanda. A mensagem da autoridade monetária tem sido clara: enquanto a inflação não mostrar trajetória firme de convergência para 3%, não há espaço para cortes duradouros de juros. Isso significa que planos de estímulo ao crescimento terão de conviver com uma política monetária restritiva no curto prazo.

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A situação impõe um teste de credibilidade ao Banco Central e ao regime de metas. Repetidos descumprimentos das metas minam a confiança de que a autoridade monetária conseguirá entregar inflação baixa no horizonte relevante. De fato, o próprio Banco Central reconheceu em relatório recente que as expectativas de inflação permanecem desancoradas – isto é, distantes da meta nos próximos anos. Projeções oficiais indicam que a inflação pode encerrar 2025 em torno de 4,9%, novamente acima do teto de 4,5%, o que significaria mais um ano de meta não cumprida . Somente em 2026 a inflação retornaria ao intervalo de tolerância, segundo as estimativas do BC.

Esse quadro desafia a credibilidade do Banco Central: quanto mais tempo a inflação ficar acima da meta, maior o risco de descrédito junto ao público e ao mercado, pois formadores de preços passam a duvidar do compromisso com a meta. Isso pode criar um círculo vicioso, elevando prêmios de risco, pressionando o câmbio e tornando o trabalho de desinflação ainda mais difícil.

Para o governo federal, os efeitos desse cenário inflacionário são duplos. Por um lado, a alta de preços prolongada corrói o poder de compra da população, gera insatisfação popular e pressiona especialmente as camadas de renda mais baixa (já que itens essenciais como alimentos subindo pesam mais para os mais pobres, medidos justamente pelo INPC). Isso tende a impactar a avaliação do governo, além de obrigar a reajustes maiores em salários mínimos, aposentadorias e outros benefícios indexados, aumentando as despesas públicas.

Por outro lado, a necessidade de juros altos por mais tempo para domar a inflação frustra os planos do governo de acelerar o crescimento econômico. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe econômica manifestavam o desejo de ver a Selic cair para estimular crédito e investimento, mas tiveram de reconhecer a autonomia do BC nesse processo.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou recentemente que espera a inflação dentro da banda da meta apenas em 2026, e reforçou que a avaliação sobre quando cortar os juros cabe exclusivamente ao Banco Central. Isso mostra que o governo, ao menos no discurso, compreende a gravidade da situação e evita pressionar publicamente por afrouxamento monetário prematuro.

Ainda assim, nos bastidores, a tensão entre a política fiscal e monetária é latente: o BC alerta que a expansão fiscal dificulta o controle da inflação, enquanto o governo pondera os custos de segurar a economia em ano pré-eleitoral.

Em resumo, o estouro da meta pelo sexto mês consecutivo escancara os desafios macroeconômicos atuais do Brasil. A inflação persistente – originada por uma mistura de choques (alimentos, energia) e fatores internos (serviços, demanda aquecida) – coloca em xeque a eficácia das medidas de controle de preços. A política monetária terá de seguir vigilante, possivelmente sacrificando parte do crescimento de curto prazo para garantir uma convergência inflacionária mais à frente.

A credibilidade do Banco Central está em jogo, exigindo comunicação clara e ações firmes para reconquistar a confiança de que a meta de 3% será perseguida. E para o governo, fica a lição de que estabilidade de preços e crescimento andam de mãos dadas no longo prazo: sem inflação sob controle, o desenvolvimento sustentado se torna inviável. Assim, o momento pede coordenação – uma sintonia fina entre o Banco Central, mantendo o rigor técnico, e o governo, ajustando sua política fiscal, para que ambos caminhem na direção de entregar ao país uma inflação baixa e estável, dentro da meta, nos próximos anos.

(*) Sobre Fabrício Tonegutti:

Diretor executivo da Mix Fiscal, empresa com 20 anos de experiência em inteligência tributária para o varejo, Fabrício Tonegutti é especializado em direito tributário pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Reconhecido como um dos principais especialistas do setor, Tonegutti já prestou consultoria e serviços para mais de 10 mil supermercados em todo o Brasil, desenvolvendo soluções para otimização de processos e aumento da lucratividade.

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