Crédito para empreender: quando usar o imóvel como garantia para abrir ou expandir um negócio
O bem deixa de ser visto apenas como patrimônio ou reserva de valor
16/07/2026
GUSTAVO MANDELLO (*)
Durante muitos anos, o acesso ao crédito para pequenas e médias empresas no Brasil esteve concentrado em linhas de curto prazo, frequentemente associadas a custos elevados e à necessidade de resolver demandas imediatas de caixa. Em um ambiente marcado por juros altos e maior seletividade das instituições financeiras, essa lógica passou a ser cada vez mais desafiadora.
Ao mesmo tempo, cresce entre os empresários a percepção de que a escolha da fonte de financiamento influencia diretamente a capacidade de investimento, o ritmo de expansão e até mesmo a competitividade do negócio. Mais do que obter recursos, a discussão passa a ser sobre qual modalidade está mais alinhada ao objetivo do investimento.
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Gustavo Mandello: "Essa transformação acompanha uma lógica comum em mercados mais desenvolvidos"
Esse movimento ajuda a explicar o crescimento do crédito com garantia de imóvel, conhecido como home equity. Dados da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) mostram que, apenas no primeiro trimestre de 2026, as concessões da modalidade somaram R$ 3,16 bilhões, alta de 25,8% em relação ao mesmo período do ano anterior, o maior volume da série histórica. O estoque dessas operações também se aproxima de R$ 30 bilhões.
Embora ainda represente uma parcela pequena do mercado de crédito brasileiro, especialmente quando comparado a economias mais maduras, esse crescimento sugere uma mudança na forma como empresas e empreendedores utilizam seus ativos. O imóvel deixa de ser visto apenas como patrimônio ou reserva de valor e passa a integrar a estratégia financeira do negócio.
Essa transformação acompanha uma lógica comum em mercados mais desenvolvidos: investimentos de longo prazo tendem a ser financiados por linhas compatíveis com seu ciclo de retorno. Projetos como ampliação da capacidade produtiva, abertura de novas unidades, aquisição de equipamentos ou modernização tecnológica normalmente exigem tempo para gerar resultados. Financiar esse tipo de investimento com crédito de curto prazo pode pressionar o fluxo de caixa e limitar o próprio crescimento da empresa.
A mesma lógica vale para processos de reorganização financeira. Empresas que acumulam dívidas contratadas em modalidades mais caras podem encontrar vantagens na consolidação desses passivos em uma operação com prazo mais longo e custo financeiro menor. No entanto, essa estratégia produz resultados apenas quando acompanhada por ajustes na gestão financeira. Trocar uma dívida por outra, isoladamente, não resolve problemas estruturais de caixa.
Também é importante reconhecer que o empréstimo com garantia de imóvel não é uma solução universal. Trata-se de uma operação que utiliza um patrimônio como garantia e, por isso, exige análise criteriosa sobre a finalidade dos recursos, a capacidade de pagamento da empresa e as perspectivas de retorno do investimento. Utilizar esse tipo de crédito para financiar despesas recorrentes ou cobrir déficits operacionais sem um plano de recuperação pode apenas postergar dificuldades financeiras.
Mais do que discutir uma modalidade específica, o crescimento do home equity evidencia uma mudança mais ampla na gestão financeira das empresas brasileiras. Em vez de recorrer ao crédito apenas em momentos de necessidade, parte dos empreendedores começa a incorporá-lo como instrumento de planejamento, avaliando prazo, custo e finalidade antes da contratação.
Esse amadurecimento tende a ganhar importância à medida que o ambiente econômico exige decisões cada vez mais criteriosas sobre alocação de capital. Em um cenário de maior competição e necessidade constante de ganhos de produtividade, a qualidade das decisões financeiras passa a ser tão relevante quanto a qualidade das decisões operacionais.
O avanço do crédito com garantia de imóvel, portanto, pode ser interpretado menos como a ascensão de um produto específico e mais como um sinal da evolução do mercado de crédito brasileiro. À medida que empresários passam a alinhar o tipo de financiamento ao perfil de seus investimentos, o crédito deixa de cumprir apenas uma função emergencial e passa a integrar uma visão mais estratégica da gestão empresarial.
GUSTAVO MANDELLO, líder comercial do Bari e especialista em empréstimo com garantia de imóvel.
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