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Roda da vida de Bruna Thimoteo gira com brasilidade e precisão no palco

Cantora guarapuavana retorna à cidade natal com o espetáculo "Roda da Vida"

21/09/2025

PAULO ESTECHE

A Bruna Thimoteo que ocupou o centro do palco no Teatro Municipal de Guarapuava neste sábado (20) já não é a menina que, anos atrás, assistiu a uma montagem de O Quebra-Nozes com os olhos marejados e os ouvidos em transe. Aquela que se viu ali, pela primeira vez, não como espectadora, mas como corpo que dança e voz que vibra sob as luzes. O tempo passou. E o tempo – esse velho alquimista; por sinal, tema de uma de suas músicas – lapidou em Bruna uma artista que carrega no timbre e na letra uma síntese pessoal da brasilidade mística e melódica.

Guarapuavana de nascença, Bruna agora retorna à sua cidade como quem volta ao berço não para repousar, mas para afirmar a própria identidade. Subiu ao palco com o espetáculo "Roda da Vida", título de seu primeiro álbum autoral, acompanhada por um quinteto de músicos cuja precisão e sensibilidade sustentam e amplificam a delicadeza vocal da cantora.

Bruna Thimoteo: uma artista em plena evolução (fotos: redes sociais da cantora)

A apresentação foi para além de um show. Foi um gesto de devolução – de quem saiu, se formou longe, mas volta para mostrar em que se transformou. Na plateia, um público exigente, afeito à MPB de raiz e à música bem construída, colheu com atenção cada nuance. E foi nesse cenário de escuta cuidadosa que Bruna evocou sua memória de infância: aquele dia em que viu Tchaikovsky soar pela primeira vez, em O Quebra-Nozes, e compreendeu, ainda que sem palavras, que seu lugar era o palco.

Mas engana-se quem vê nela uma artista em início de carreira. Embora seja este, de fato, seu primeiro álbum, há um percurso visível de estudo e maturação. A voz – aveludada, mas firme – é apenas a superfície. O que pulsa por baixo são anos de escrita, tentativa, erro, escuta, e uma coragem rara de ser autoral num país onde a música popular sofre, cada vez mais, a pasteurização das fórmulas fáceis.

O show em Guarapuava: emoção por estar na cidade natal, que acolheu seus primeiros passos como musicista

As letras que compõem Roda da Vida são atravessadas por elementos da mitologia brasileira e da religiosidade afro-indígena, sem cair na caricatura ou no folclore domesticado. Bruna canta o Brasil que pulsa entre o visível e o invisível – um Brasil que dança com Exu, que dialoga com as águas de Iemanjá, que se move no compasso da ancestralidade. Não há concessões óbvias: há poesia, há densidade, há um convite à escuta atenta.

Bruna partiu de Guarapuava rumo a Curitiba, anos atrás, com a fé de quem sabe que o palco a espera. E agora, depois de anos de imersão – em si, na música, na palavra – volta a se apresentar na capital paranaense, nesta quinta-feira, no Teatro Paiol, reduto histórico da boa música brasileira.

Na trajetória de Bruna Thimoteo, o destino parece menos importante que o movimento. E o movimento, neste momento, é de ascensão. A roda gira.

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