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Boqueirão registra quatro ocorrências de violência em menos de 24 horas em Guarapuava

Bairro mais populoso da cidade teve caso de criança baleada, violência doméstica, invasão de residência e tentativa de roubo no mesmo sábado

20/09/2026
Imagem de satélite do Boqueirão, bairro com histórico no desenvolvimento industrial de Guarapuava, que hoje sobrevive em meio a grandes empreendimentos imobiliários e a escalada da violênciaImagem de satélite do Boqueirão, bairro com histórico no desenvolvimento industrial de Guarapuava, que hoje sobrevive em meio a grandes empreendimentos imobiliários e a escalada da violência

O Boqueirão, na região sul de Guarapuava, registrou quatro diferentes ocorrências relacionadas à violência e a crimes contra o patrimônio em menos de 24 horas. Entre a madrugada e a tarde deste sábado (19), a Polícia Militar atendeu casos de violência doméstica, invasão e furto em uma residência, tentativa de roubo em um supermercado e o disparo que atingiu uma criança de 9 anos na cabeça.

Os quatro registros ocorreram em um intervalo inferior a 11 horas, entre 5h34 e 16h20. Pouco antes, às 3h52, a PM também havia atendido uma ocorrência de perturbação do sossego no bairro. Assim, foram cinco chamados policiais no Boqueirão em aproximadamente 12 horas.

Alto índice de violência

As estatísticas consolidadas de criminalidade por bairro ainda estão sendo apuradas. A leitura dos boletins diários do 16º Batalhão da Polícia Militar, entretanto, mostra o Boqueirão entre as regiões que aparecem com frequência nos registros, ao lado de bairros como Jardim das Américas, Morro Alto e Residencial 2000.

A recorrência nos boletins, isoladamente, não permite classificar qual é o bairro mais violento da cidade. Essa comparação exige dados consolidados, o número de habitantes de cada região e a separação das ocorrências por natureza e gravidade.

Criança de 9 anos é atingida na cabeça

O caso mais grave ocorreu por volta das 15h30. Uma criança de 9 anos foi atingida na cabeça por um disparo de revólver calibre .32 dentro de uma residência.

Conforme a Polícia Militar, o tio da vítima admitiu que manuseava irregularmente a arma quando ocorreu o disparo. O menino foi atendido pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e encaminhado ao Hospital São Vicente, onde continuava internado.

A arma não foi encontrada. Os policiais receberam relatos divergentes sobre quem seria o proprietário e qual pessoa teria deixado a residência levando o revólver.

Durante a abordagem, a equipe encontrou uma cápsula de calibre .32 com o rapaz. Ele foi preso e encaminhado à Polícia Civil, acompanhado de duas testemunhas. As circunstâncias do disparo e o desaparecimento da arma serão investigados.

Mulher denuncia agressões do marido

A primeira ocorrência relacionada à violência foi atendida às 5h34. Uma mulher de 29 anos contou à polícia que encontrou o marido, de 43 anos, consumindo bebidas alcoólicas em um bar próximo à residência do casal.

Segundo a vítima, depois de retornarem para casa, o homem teria desferido socos e empurrões contra ela. A mulher caiu e sofreu uma lesão na mão esquerda.

O homem foi localizado durante patrulhamento. Ele apresentava lesões na face e nos braços, mas negou ter agredido a esposa. Em seu relato, afirmou que retirou a mulher do bar porque ela pretendia iniciar uma briga e que depois teria sido atacado por ela com arranhões e empurrões.

Diante das versões apresentadas e das lesões constatadas, os dois foram encaminhados à 14ª Subdivisão Policial para prestar depoimento.

Casa é invadida e objetos são destruídos

Às 9h43, uma moradora de 36 anos encontrou sua residência arrombada depois de passar a noite fora. Segundo ela, uma janela do quarto foi forçada para que o invasor entrasse no imóvel.

A casa estava revirada, uma televisão de 50 polegadas e outros objetos haviam sido quebrados. Documentos pessoais, cartões bancários e documentos dos filhos da moradora foram furtados.

A mulher não conseguiu fornecer informações sobre a autoria do crime. A PM realizou buscas pela região, mas nenhum suspeito foi encontrado.

Suspeita ameaça funcionária de supermercado

A quarta ocorrência foi registrada às 16h20, em um supermercado. Uma mulher entrou no estabelecimento e começou a esconder mercadorias dentro de uma mochila, conforme o relato repassado à polícia.

A solicitante reconheceu a suspeita como autora de outro furto ocorrido no dia anterior e tentou contê-la segurando a mochila. Nesse momento, a mulher teria ameaçado a funcionária de morte e fugido, deixando os produtos para trás.

Imagens das câmeras de segurança permitiram a identificação da suspeita. Apesar das buscas realizadas, ela não havia sido localizada até a elaboração do boletim.

Festa com som alto mobiliza a PM

Além dos quatro casos, a Polícia Militar atendeu, às 3h52, uma denúncia de perturbação do trabalho ou do sossego. A equipe constatou que uma festa era realizada com som alto.

A responsável, de 27 anos, foi orientada a encerrar o evento e cumpriu a determinação de forma pacífica. Como a situação foi resolvida no local, a PM apenas elaborou o boletim de ocorrência.

Novos empreendimentos imobiliários, com pesados investimentos empresariais, passaram a integrar o cenário do bairro Boqueirão em tempos recentes

Boqueirão é o bairro mais populoso de Guarapuava

O volume de chamados precisa ser analisado também em relação ao tamanho do Boqueirão. Dados de planejamento urbano citados em estudos sobre Guarapuava apontam uma população de aproximadamente 17,7 mil moradores, colocando-o como o bairro oficial mais populoso do município. Levantamentos locais já trabalharam com uma estimativa próxima de 21 mil habitantes.

O território é extenso e reúne diferentes núcleos residenciais. Ao longo das últimas décadas, a região passou por uma intensa expansão imobiliária, que colocou lado a lado novos condomínios, conjuntos habitacionais, loteamentos tradicionais e áreas de ocupação ou regularização fundiária.

Em 2026, um decreto municipal aprovou a regularização fundiária de interesse social de uma área pertencente à massa falida da Madeirit. O terreno reúne mais de 239 mil metros quadrados distribuídos entre zonas industriais e áreas de expansão controlada.

Madeirit na década de 1960 (no alto) e hoje (acima), escombros

A Manasa (fotos acima) foi uma das principais empresas do setor madeireiro no Paraná. Também deu o título a Guarapuava como maior produtor paranaense de maçãs. A sede da empresa era no bairro Boqueirão, onde hoje está a Besha

 

Falência de indústrias deixou marcas no bairro

A história do Boqueirão está diretamente ligada à atividade madeireira. O bairro abrigou unidades da Manasa (Madeireira Nacional S.A.) e da Madeirit, duas gigantes de um setor que durante décadas movimentou a economia de Guarapuava e empregou centenas de famílias.

A ligação era tão forte que uma escola fundada em 1964 recebeu inicialmente o nome de Casa Escolar Madeireira Nacional e atendia principalmente filhos de funcionários da Manasa. Registros históricos também indicam que a Madeirit iniciou sua produção em Guarapuava ainda na década de 1940.

A falência dessas empresas eliminou postos de trabalho e deixou grandes áreas industriais desativadas ou subutilizadas. A Madeirit teve a falência associada a processos que ainda envolvem bens, ações trabalhistas e terrenos da antiga companhia. A grande empresa que empregou centenas de famílias e criou uma comunidade em torno dela, é hoje uma série de imóveis desocupados e deteriorados por ação do tempo.

O bairro continuou crescendo, mas sem um programa contínuo de desenvolvimento industrial e comercial capaz de substituir, na mesma escala, os empregos perdidos com o fim das grandes madeireiras. A expansão residencial avançou mais rapidamente do que a criação de oportunidades econômicas dentro do próprio território.

A sequência de ocorrências deste sábado reforça a necessidade de políticas que ultrapassem o policiamento ostensivo. Segurança pública, iluminação, regularização urbana, assistência social, proteção às mulheres, atividades para crianças e adolescentes e geração de emprego precisam integrar uma estratégia específica para o bairro mais populoso de Guarapuava.

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