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Guarapuava precisa de uma pista para decolar, mas, antes, é indispensável encontrar o destino certo

Investimento no atual Aeroporto Municipal, orçado em R$ 50 milhões, pode repetir erros do passado recente

06/10/2025

Depois que a Azul Linhas Aéreas encerrou os voos para a Guarapuava em setembro, alegando limitações técnicas da pista e dificuldades financeiras, entidades empresariais e o poder público local uniram forças para tentar modernizar o Aeroporto Municipal Tancredo Thomas de Farias. A proposta, no entanto, já nasce cercada de dúvidas e divide opiniões entre quem vê o projeto como essencial e quem o considera insuficiente diante dos desafios de infraestrutura e integração regional.

O plano é ambicioso. Com custo estimado em R$ 50 milhões, o projeto prevê ampliar a pista dos atuais 1.200 para 1.800 metros, reformar o terminal de passageiros e instalar novos equipamentos de navegação. A primeira fase, de estudos técnicos e análises de solo, já está em andamento. Financiada por empresas locais, como Agrária, Santa Maria, Sicredi, Cresol, Repinho e Grupo Dal Pozzo, essa etapa consumirá R$ 600 mil da iniciativa privada. Até o fim de novembro, o aeroporto ficará fechado para pousos e decolagens, com exceção de voos de emergência.

A segunda parte é mais problemática. As entidades esperam com o atual projeto levantar junto ao Governo do Estado todo os recursos que serão necessários para tirar a reforma do papel. É uma corrida contra o tempo. Qualquer novo projeto a ser aprovado na esfera governamental tem até três meses para ser concluído. Depois disso, já é fim de ano e, praticamente, fim de governo, com a proximidade das eleições de 2026.

A temática pode até ser um bom “case” eleitoral, com teor apelativo quando fala em “turismo”, “negócios”, porém conflita com a realidade.

De um lado, por estar sendo pensado no apagar das luzes de um governo – em quem deposita todas as fichas para abrir as torneiras dos cofres públicos em período eleitoral –, por outro, e principalmente, por não ter sido idealizado antes.

O que não faltou foi tempo e necessidade. No primeiro estágio, quando o projeto do atual Aeroporto foi idealizado, assentou-se sobre um projeto que, ao ser inaugurado, em 2019, chegou em 2025, seis anos depois, completamente defasado. No segundo quesito, o da necessidade, é o recorrente comportamento verificado em Guarapuava de obras mal planejadas, restritas a segmentos, sem a amplitude de contexto de um município que nasceu 200 anos atrás com vocação para ser liderança – e patina em índices paroquiais, perdendo investimentos para outros centros. O caso da "restauração" do Calçadão da XV de Novembro é emblemático.

Investimento alto, em estrutura limitada

As entidades coligadas à Associação Comercial e Empresarial de Guarapuava (ACIG), parceria com a regional da Fiep, Prefeitura e CDL, insistem na nova reforma, seguindo idêntico estratagema à reforma que foi inaugurada em 2019. A presidente da ACIG, Maria Inês Guiné, diz que o projeto é resultado de um esforço coletivo. “As entidades mostraram que, quando o setor produtivo se une ao poder público, grandes transformações acontecem”, afirma. Segundo ela, a ampliação permitirá que Guarapuava volte a atrair empresas aéreas e fortaleça o turismo e os negócios.

Mas, é crescente o receio de que o município esteja investindo alto em uma estrutura limitada. A comparação com outras cidades do Paraná é inevitável. Em Ponta Grossa, por exemplo, a pista está sendo estendida para 2.800 metros, com estrutura voltada também para cargas. O aeroporto faz parte de um plano logístico estadual, que busca integrar rodovias, ferrovias e o transporte aéreo. Já em Foz do Iguaçu, um pacote de investimentos federais e estaduais transformou o terminal num centro aéreo de referência, com pista ampliada, novo terminal e status de polo logístico e turístico do Cone Sul.

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Guarapuava e seu perfil urbano e o atual Aeroporto Municipal: descompasso entre índices de representação econômica e déficits sociais consideráveis

Guarapuava, por outro lado, não apresentou até hoje um modelo de desenvolvimento com o qual possa disputar recursos no Governo Federal. Não é apenas a ausência de uma representatividade forte e sólida, já que o município está há 10 anos sem um deputado federal. É porque não se preocupou em debater, muito menos criar um planejamento regionalizado, estribado no potencial da região e, também, dos déficits socioeconômicos que o Terceiro Planalto apresenta.

É a equação entre potencialidades e necessidades que faz o desenvolvimento acontecer. E o “start” começa dentro das entidades empresariais, de forma abrangente e representativa, amplificando-se para o meio político. Tanto mais forte é a sociedade, maior será o impulsionamento nas esferas subsequentes.

O projeto em discussão pelos empresários enfrenta restrições físicas e de planejamento. A área do aeroporto é pequena, e a ampliação já esbarra em processos de desapropriação. Além disso, a dependência de recursos do governo estadual pode atrasar as obras. Mesmo com a pista ampliada, o Aeroporto ainda estaria longe da capacidade necessária para receber aeronaves de maior porte e operações de carga regulares.

Para um terminal de carga, por exemplo, é indispensável um pátio de depósito e de manobra para caminhões e containers. A pista obedece a adensamento e extensão para aviões cargueiros.

Nesse sentido, a localização do Aeroporto Regional deve ser a mais central entre todos os municípios da região, para que estas cidades possam usufruir dos benefícios, e também esteja conectado a uma rodovia (a BR-277 é a mais viável) e à ferrovia. A duplicação da 277 e das rodovias estaduais, como a 170 e 466, inclui-se nesse processo, tal como é indispensável a modernização da ferrovia existente, que data de 1950.

Este projeto parece gigantesco se comparado ao que existe hoje. E, de fato, é, pois a ausência de décadas criou um vácuo de programas e investimentos. Por não ter sido programado antes, é que Guarapuava ficou à margem do desenvolvimento que outras regiões do Paraná vêm construindo entre tamanha lacuna observada na Região Central do Estado. E o perigo de continuar navegando no raso é evidente, se se insistir num projeto de aeroporto sem torque para expandir.

A discussão deve ser mais abrangente, para ganhar força e viabilidade

O tema chegou à Câmara Municipal. O presidente do Legislativo, Pedro Moraes (MDB), reconhece o empenho da ACIG e da Fiep, mas defende a criação do Aeroporto Regional como alternativa mais abrangente. Ele lidera um movimento que ganhou força durante a recente Assembleia Itinerante da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), realizada em Guarapuava, e apresentou ao deputado Alexandre Curi, presidente da instituição, uma Carta-Manifesto com propostas para o desenvolvimento conjunto da região.

“Guarapuava só vai crescer se a região crescer junto. Do contrário, continuaremos tendo mais do mesmo”, afirma Moraes. A proposta prevê um aeroporto compartilhado entre municípios vizinhos, com duas pistas – uma voltada ao transporte de passageiros e outra de cargas –, integrado a um programa regional de desenvolvimento econômico. O documento recebeu apoio de vereadores de 13 cidades, num movimento que começa a ganhar representatividade política com adesão de mais legisladores e, a partir daqui, reverberar na comunidade.

A discussão não é apenas técnica. O desafio de Guarapuava é alinhar ambição e planejamento. Se a meta for apenas manter o nível atual, a ampliação ora pretendida é suficiente. O impacto disso está no índice de investimentos privados e na oferta de empregos, mais os desníveis sociais e econômicos que derivam dessa inércia.

Mas, se o objetivo é competir como um novo polo econômico do Paraná, o município precisará de um plano logístico compatível – e de uma estratégia para aproveitar o capital humano que forma anualmente em suas universidades. São cerca de 20.000 estudantes universitários, mais outros milhares no nível intermediário, sob a expectativa de oportunidades de emprego e empreendedorismo.

As universidades estão dotadas de cientistas, extensionistas e acadêmicos, para quem um sítio aeroportuário é a porta de entrada, e não de saída. Guarapuava tem instituições de ensino fortes, mão de obra qualificada e localização estratégica. Falta conectar esses fatores a uma visão integrada de futuro.

A história recente reforça o alerta

É possível afirmar que o Aeroporto Municipal foi recém-inaugurado; são apenas 6 anos, quase nada quando se fala em planejamento estratégico, geralmente pensado para 30 anos e até 50 anos, construído por etapas e continuamente. Os políticos se candidatam comprometidos com esses objetivos, diminuindo o risco de descontinuidade. As cidades da região buscam caminhos no escopo dessas ideias. A economia evolui de um perfil primário, produtor de matéria-prima, para a indústria de transformação, que emprega e rende divisas.

O perigo de que indústrias locais de porte invistam em outros mercados – como fez a Agrária, ao sair com nova maltaria em Ponta Grossa – precisa ser mitigado.

Enquanto isso, a reforma do Aeroporto Municipal segue em operação, ainda na fase inicial, sob o discurso de “modernização e progresso”. Mas, sem integração logística com outras regiões e sem articulação política mais ampla, o futuro do aeroporto pode continuar limitado –  uma pista maior, mas o mesmo destino.

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