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De Guarapuava ao STF: como Nossa Senhora Aparecida foi parar no centro das eleições

Caminhoneiros participaram de romariana cidade já programada em homenagem à santa

27/09/2026
Questionamento sobre o título de Padroeira do Brasil colocou Nossa Senhora Aparecida no debate eleitoral. Entenda a origem da história, as decisões de Mendonça e Dino e a romaria dos caminhoneiros em GuarapuavaQuestionamento sobre o título de Padroeira do Brasil colocou Nossa Senhora Aparecida no debate eleitoral. Entenda a origem da história, as decisões de Mendonça e Dino e a romaria dos caminhoneiros em Guarapuava

A uma semana das urnas, Nossa Senhora Aparecida entrou inesperadamente no centro da eleição presidencial de 2026. Uma informação falsa de que o candidato Flávio Bolsonaro (PL) pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil espalhou-se pelas redes sociais, provocou reações políticas e religiosas e terminou em uma disputa judicial que envolveu o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF).

Enquanto a controvérsia ganhava repercussão nacional, em Guarapuava uma cena chamou atenção na manhã deste domingo (27): caminhoneiros percorreram as ruas da cidade em romaria dedicada a Nossa Senhora Aparecida. Apesar da coincidência com o debate eleitoral, o evento não nasceu da polêmica política.

A Romaria dos Caminhoneiros já estava anunciada pela Diocese de Guarapuava desde 19 de setembro e integra a programação da 57ª Festa da Padroeira Nossa Senhora Aparecida.

A concentração ocorreu no Parque Lacerda Werneck, com saída em direção ao Santuário Nossa Senhora Aparecida, no Bonsucesso, onde estavam previstas a bênção dos caminhoneiros e dos veículos e atividades religiosas.

De onde surgiu a polêmica

O ponto de partida da crise eleitoral foi a circulação da afirmação de que Flávio Bolsonaro retiraria, caso eleito, o título de Padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Não existe proposta do candidato nesse sentido, e Flávio Bolsonaro negou publicamente a informação.

A história, entretanto, encontrou um antecedente verdadeiro, mas de quase duas décadas atrás. Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli, à época no PMDB de Mato Grosso, apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007.

O texto propunha modificar a Lei 6.802/1980 para que Nossa Senhora Aparecida deixasse de ser denominada “Padroeira do Brasil” na legislação e passasse a ser identificada como “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto não prosperou e está arquivado.

Não há, portanto, base factual para atribuir aquela proposta de 2007 a Flávio Bolsonaro ou afirmar que ela corresponda a uma proposta de sua campanha em 2026.

O que diz a lei

O título permanece estabelecido na legislação brasileira. A Lei 6.802, de 30 de junho de 1980, declara 12 de outubro feriado nacional e consagra a data a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. A norma teve origem no Projeto de Lei 220/1979 e não consta como revogada.

A lei determina ainda que 12 de outubro seja dedicado ao culto público e oficial a Nossa Senhora Aparecida.

Tema explode na campanha

Mesmo sendo falsa a afirmação sobre uma proposta atual de Flávio Bolsonaro, a discussão rapidamente ultrapassou a checagem factual e entrou no confronto político.

Publicações associaram a controvérsia à relação do candidato com segmentos evangélicos, enquanto adversários e aliados passaram a explorar politicamente o episódio. A campanha de Flávio procurou conter a repercussão e acionou a Justiça Eleitoral para retirar conteúdos que considerava falsos.

O episódio também expôs diferenças históricas entre católicos e evangélicos em relação à figura de Maria. Para a tradição católica, Nossa Senhora ocupa lugar central na devoção; denominações protestantes reconhecem Maria como personagem bíblica e mãe de Jesus, mas rejeitam sua veneração religiosa. Essas diferenças teológicas ganharam visibilidade em meio à disputa eleitoral.

Mendonça manda retirar publicação

Uma das decisões mais relevantes ocorreu depois que Flávio Bolsonaro acionou o TSE contra uma publicação do humorista Antonio Tabet.

Tabet publicou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida acompanhada de uma crítica política. A campanha argumentou que o conteúdo estava relacionado à informação falsa sobre a retirada do título de Padroeira e pediu sua remoção.

O ministro André Mendonça, vice-presidente do TSE, concedeu liminar determinando a retirada da publicação. Na avaliação preliminar de Mendonça, o conteúdo apresentava carga crítica e depreciativa e estava relacionado a uma informação sem suporte factual. A ordem previa multa diária de R$ 30 mil em caso de descumprimento.

Dino derruba a decisão

A disputa chegou ao STF. Neste domingo, o ministro Flávio Dino cassou a determinação de Mendonça e autorizou o restabelecimento da publicação de Tabet e de conteúdos alcançados pela mesma fundamentação.

Dino observou que a postagem do humorista não mencionava nominalmente Flávio Bolsonaro nem seus familiares. Para considerar o conteúdo ilícito, segundo o ministro, seria necessário presumir a quem a expressão usada pelo humorista se referia.

Na avaliação de Dino, a remoção antecipada produzia restrição desproporcional à liberdade de expressão em pleno processo eleitoral. O ministro também relacionou sua decisão à proteção da liberdade religiosa.

A decisão não transforma em verdadeira a afirmação de que Flávio Bolsonaro pretende retirar o título de Padroeira — essa alegação continua sem base factual. O ponto analisado por Dino foi a legalidade da retirada da manifestação de Tabet e os limites impostos à expressão política durante a campanha.

De Guarapuava ao debate nacional

Em Guarapuava, a coincidência de datas deu ao episódio uma imagem particularmente simbólica. Enquanto Nossa Senhora Aparecida dominava parte do debate político nacional, caminhões atravessavam a cidade em uma manifestação de fé que já estava programada.

A romaria deste domingo faz parte das comemorações que antecedem 12 de outubro e foi apresentada pela Diocese como momento de fé, devoção e agradecimento. Depois do percurso, a programação previa bênção dos veículos no Santuário.

A devoção possui forte presença regional

Em junho, durante as comemorações pelos 60 anos da Diocese de Guarapuava, mais de 2.700 romeiros participaram de uma peregrinação ao Santuário Nacional de Aparecida, utilizando mais de 60 veículos entre ônibus, vans e automóveis.

A poucos dias da votação, portanto, dois acontecimentos distintos acabaram se encontrando no noticiário: uma tradicional manifestação religiosa em Guarapuava e uma controvérsia eleitoral nacional envolvendo o símbolo religioso mais conhecido do catolicismo brasileiro.

Separar esses fatos é fundamental. A romaria dos caminhoneiros em Guarapuava tem origem religiosa e programação anterior à controvérsia eleitoral; já a discussão política nasceu de uma informação falsa, ganhou repercussão entre candidatos e chegou às mais altas cortes do país.

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