Flávio Bolsonaro pressionou Vorcaro por recursos para filme sobre Jair Bolsonaro, revelam mensagens
Reportagem do The Intercept mostra que senador atuou diretamente para cobrar pagamentos de banqueiro investigado
13/05/2026
A revelação de que o senador Flávio Bolsonaro atuou diretamente para pressionar o banqueiro Daniel Vorcaro a financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro abriu uma nova frente de desgaste político para o núcleo bolsonarista em meio às articulações da corrida presidencial de 2026.
Mensagens, áudios e registros obtidos pelo portal The Intercept Brasil indicam que Flávio manteve contato frequente com Vorcaro ao longo de 2025 para cobrar pagamentos ligados à produção cinematográfica “Dark Horse”, projeto voltado à trajetória política de Bolsonaro e tratado nos bastidores como peça estratégica para reforçar a imagem pública do ex-presidente junto ao eleitorado conservador.
Segundo a publicação, o banqueiro chegou a desembolsar cerca de R$ 61 milhões entre fevereiro e maio de 2025 para financiar a produção. Os recursos teriam sido enviados a um fundo sediado nos Estados Unidos e ligado a aliados do ex-deputado Eduardo Bolsonaro.
As conversas reveladas mostram que Flávio acompanhava pessoalmente a liberação dos recursos e demonstrava preocupação com os atrasos nos pagamentos. Em um áudio enviado a Vorcaro em 8 de setembro de 2025, o senador afirma compreender o “momento dificílimo” vivido pelo banqueiro – referência ao fracasso da tentativa de venda do Banco Master ao BRB após resistência do Banco Central – mas cobra uma definição sobre valores pendentes.
“Tá num momento muito decisivo aqui do filme e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso”, disse Flávio, segundo o material divulgado pelo Intercept.
O conteúdo sugere que o senador atuava como articulador político e interlocutor direto da produção, numa tentativa de assegurar a continuidade financeira do projeto mesmo em meio à crise enfrentada por Vorcaro.
As mensagens mostram ainda que a relação entre os dois extrapolava contatos pontuais. Em outubro, Flávio voltou a pressionar o banqueiro, afirmando que a equipe do filme estava “no limite”. Na mesma conversa, convidou Vorcaro para um jantar com o ator Jim Caviezel, escolhido para interpretar Jair Bolsonaro na produção. O encontro, segundo o Intercept, seria realizado na casa do banqueiro.
Em outra troca de mensagens, ocorrida em novembro, Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz”. Vorcaro respondeu por meio de mensagem de visualização única. Em seguida, o senador reagiu com “Amém”.
O episódio ganhou dimensão ainda maior porque, no dia seguinte à conversa, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos. A detenção ocorreu no âmbito de investigações sobre suspeitas de fraudes financeiras, corrupção de agentes públicos e atuação de uma estrutura descrita por investigadores como “milícia privada” para constranger adversários.
A reportagem do Intercept também aponta que parte dos pagamentos teria sido operacionalizada por meio da empresa
Entre Investimentos e Participações, vinculada ao banqueiro. A empresa aparece em mensagens trocadas entre Vorcaro e o empresário Fabiano Zettel, cunhado do banqueiro.
Documentos da Receita Federal enviados à CPI do Crime Organizado do Senado mostram que o Banco Master repassou ao menos R$ 2,3 milhões à empresa em 2025, período em que ocorreram os aportes ligados ao filme.
O empresário apontado como intermediador da negociação confirmou ter participado das tratativas para que Vorcaro financiasse a produção cinematográfica. Segundo ele, os pagamentos foram interrompidos após o agravamento da crise no Banco Master e havia preocupação em manter a participação do banqueiro longe da exposição pública.
Questionado nesta quarta-feira ao deixar o Supremo Tribunal Federal, Flávio Bolsonaro não negou a existência das conversas nem dos pedidos de recursos. Limitou-se a afirmar que o caso envolve “dinheiro privado” e negou irregularidades.
A divulgação das mensagens ocorre num momento sensível para o grupo bolsonarista. Com Jair Bolsonaro ainda enfrentando restrições jurídicas e inelegibilidade, Flávio passou a ser tratado por aliados como um dos possíveis herdeiros políticos do capital eleitoral do ex-presidente em 2026.
Nos bastidores de Brasília, integrantes da oposição defendem que o material revelado pelo Intercept aprofunde questionamentos sobre a relação entre empresários investigados e o entorno do ex-presidente. Aliados de Flávio, por outro lado, sustentam que não há ilegalidade em buscar financiamento privado para uma produção audiovisual.
A repercussão também tende a ampliar o desgaste em torno do Banco Master e de Daniel Vorcaro, personagem que já vinha sendo monitorado por órgãos de investigação financeira e que agora aparece associado diretamente ao financiamento de um projeto político-cultural ligado ao bolsonarismo.
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