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Guarapuava perde força política em Brasília após 13 anos sem deputado federal próprio

Fragmentação de candidaturas locais esvazia influência institucional do município e amplia dependência de parlamentares de outras regiões

09/05/2026

Guarapuava atravessa um processo silencioso de enfraquecimento político no cenário nacional. Há 13 anos sem um deputado federal com base consolidada no município, a cidade perdeu espaço institucional em Brasília, reduziu protagonismo nas articulações federais e passou a depender, cada vez mais, de parlamentares eleitos em outras regiões do Paraná para defender interesses locais.

Os números das eleições de 2022 ajudam a explicar esse esvaziamento. Nas últimas eleições, o município tinha 132.448 eleitores aptos a votar. Compareceram às urnas 107.463 pessoas. Houve 103.527 votos válidos, além de 1.817 votos brancos e 2.119 nulos. A abstenção chegou a 24.985 eleitores – quase um em cada cinco aptos a votar.

Na disputa para deputado federal, Guarapuava repetiu um padrão que se consolidou nos últimos anos: excesso de candidaturas locais, divisão do eleitorado e incapacidade de converter votos em representação parlamentar.

Os principais candidatos ligados ao município obtiveram a seguinte votação dentro do município:

  • Profª Terezinha (PT): 8.613 votos
  • Janaína Naumann (Republicanos): 7.737 votos
  • Rodrigo Estacho (PSD): 6.599 votos
  • Josiel Lima (MDB): 5.328 votos
  • Dr. Rodrigo Crema (União Brasil): 5.303 votos
  • Rosângela Virmond (Cidadania): 3.478 votos

Juntos, os candidatos locais somaram 37.058 votos em Guarapuava.

O restante dos votos válidos – mais de 66 mil – foi destinado a candidatos de fora do município, demonstrando a crescente influência de lideranças estaduais sobre o eleitorado local.

Entre os candidatos “importados” mais votados em Guarapuava estiveram:

  • Gleisi Hoffmann (PT) – 7.669 votos
  • Deltan Dallagnol (Podemos) – 4.944 votos
  • Beto Preto (PSD) – 4.323 votos
  • Leandre (PSD) – 2.522 votos
  • Zeca Dirceu (PT) – 1.883 votos
  • Ricardo Barros (PP) – 1.805 votos
  • Sargento Fahur (PSD) – 1.730 votos
  • Delegado Matheus Laiola (União Brasil) – 1.543 votos
  • Filipe Barros (PL) – 1.509 votos (1,59%)
  • Aliel Machado (PV) – 1.378 votos (1,45%)
  • Luísa Canziani (PSD) – 1.183 votos (1,25%)
  • Tadeu Veneri (PT) – 1.147 votos (1,21%)
  • Felipe Francischini (União Brasil) – 1.115 votos (1,18%)
  • Toninho Wandscheer (PROS) – 1.061 votos (1,12%)
  • Fernando Giacobo (PL) – 996 votos (1,05%)

Embora Rodrigo Estacho tenha assumido meio mandato na Câmara dos Deputados na condição de suplente, a votação obtida originalmente em Guarapuava em 2022 esteve longe de reproduzir o desempenho político que marcou a trajetória de Cezar Silvestri, último parlamentar guarapuavano a construir uma presença contínua e consolidada em Brasília.

Cezar Silvestri exerceu três mandatos consecutivos como deputado federal, entre 2003 e 2013 (legislaturas 2003-2007, 2007-2011 e 2011-2015). Neste último mandato mandato, Silvestri deixou o cargo antes do término para assumir como secretário de Estado no governo de Beto Richa.

Desde então, Guarapuava não voltou a eleger diretamente um representante federal com base política própria e estabilidade eleitoral semelhante.

O custo da pulverização

O caso de Guarapuava exemplifica um efeito clássico do sistema proporcional brasileiro: quando muitas lideranças disputam simultaneamente o mesmo colégio eleitoral, a tendência é a fragmentação da base regional e a perda de competitividade coletiva.

Em vez de concentrar votos em uma candidatura capaz de atingir escala estadual, o eleitorado se dispersa entre projetos paralelos, frequentemente ancorados em rivalidades locais, estruturas partidárias distintas e estratégias personalistas.

O resultado é matematicamente previsível.

Em 2022, o Paraná registrou pouco mais de 6 milhões de votos válidos para deputado federal. Como o estado possui 30 cadeiras na Câmara, o coeficiente eleitoral ficou próximo de 201 mil votos por vaga. O coeficiente é a divisão do total de votos válidos pelo número de representantes. O cálculo é pelo número de votos por partido. Na prática, Guarapuava tem ajudado a aumentar os votos das legendas partidárias, mas os candidatos locais não se mostram suficientemente competitivos, servindo de "estepe" para candidaturas com maior poder eleitoral.

Mesmo candidaturas com presença regional relevante acabaram limitadas pela baixa concentração eleitoral no próprio município e pela dificuldade de expansão estadual, o que faz com que a realidade enfrentada por Guarapuava – polo regional – seja espelho de toda a Região Central do Paraná.

Na literatura da ciência política, cidades que mantêm representação contínua em parlamentos nacionais costumam apresentar algum grau de coordenação entre elites políticas locais. Isso não significa ausência de disputa, mas existência de convergência mínima em torno de candidaturas consideradas prioritárias para preservar influência institucional.

Guarapuava seguiu direção oposta

Ao longo dos últimos ciclos eleitorais, a cidade passou a lançar múltiplos candidatos ao mesmo cargo, fragmentando o eleitorado e reduzindo sua capacidade de produzir uma candidatura com densidade suficiente para disputar espaço real na Câmara Federal.

Menos influência, menos orçamento, menos protagonismo

Hoje, o Paraná possui uma bancada de 30 deputados federais. Nenhum deles tem Guarapuava como principal reduto político, e isto produz consequências concretas.

Deputados federais atuam diretamente na liberação de emendas parlamentares, negociações orçamentárias, articulações ministeriais e defesa de projetos estratégicos junto ao governo federal. Municípios que mantêm representação própria tendem a ampliar capacidade de pressão institucional e acesso a investimentos públicos.

Sem essa presença contínua em Brasília, Guarapuava passou a depender de relações políticas episódicas e alianças circunstanciais com parlamentares eleitos em outras regiões do Estado.

O efeito acumulado é uma perda gradual de centralidade política.

Durante os anos 1990 e 2000, Guarapuava figurava entre os polos regionais com maior capacidade de influência institucional no interior do Paraná. A sequência de mandatos federais de Cezar Silvestri simbolizava essa estabilidade. Antes dele, figuraram Aragão de Mattos Leão, Fernando Ribas Carli e Élio Dalla Vecchia, numa lista que teve Nivaldo Kruger como figura proeminente.

Hoje, treze anos depois, o cenário mudou.

A cidade continua eleitoralmente relevante, mas encontra dificuldades crescentes para transformar votos em poder político efetivo.

O resultado concreto é que, em números absolutos, 60.000 votos de Guarapuava elegem deputados de fora e fica o vácuo, com perdas inestimáveis. 

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