Usina de etanol de R$ 1,7 bilhão da Coamo enfrenta questionamento judicial
Ministério Público aponta falhas no licenciamento ambiental; projeto está em andamento em Campo Mourão
08/07/2025
Futura usina de etanol da Coamo em Campo Mourão, em imagem ilustrativaO ambicioso projeto da Coamo Agroindustrial Cooperativa de construir sua primeira usina de etanol de milho em Campo Mourão, no Paraná, entrou no centro de uma disputa judicial envolvendo o Ministério Público Estadual e o governo paranaense. A promotoria local ajuizou ação na última quarta-feira (2) pedindo a anulação da licença ambiental prévia concedida pelo Instituto Água e Terra (IAT), sob a alegação de que o processo foi realizado sem a exigência de Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima), contrariando a legislação ambiental para empreendimentos agroindustriais de grande porte.
A planta industrial, que recebeu oficialmente a Licença de Instalação (LI) em 14 de maio durante cerimônia com a presença do governador Carlos Massa Ratinho Junior, está orçada em R$ 1,7 bilhão. Deste total, R$ 500 milhões foram aprovados pelo BNDES com recursos do Fundo Clima. O início das operações está previsto para o segundo semestre de 2026, com capacidade projetada de processamento de 1.700 toneladas de milho por dia e produção diária de até 765 mil litros de etanol.
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Localizada às margens da BR-487, nas imediações do Parque Estadual Lago Azul – área ambientalmente sensível –, a usina integra o complexo industrial da Coamo, que já abriga nove unidades fabris. O MP argumenta que a ausência de EIA/Rima no licenciamento prévio configura violação à legislação ambiental. “Não há margem de discricionariedade por parte do órgão ambiental quanto à exigência do estudo, sob pena de configurar proteção ambiental insuficiente”, afirma a promotoria.
Apesar das críticas do Ministério Público, o governo do Estado defende a legalidade do processo e tem promovido o projeto como modelo de industrialização sustentável.
“É a primeira grande planta de etanol de milho do Paraná, consolidando o estado como um dos maiores produtores de biocombustível do Brasil”, afirmou o governador Ratinho Junior durante a entrega da licença (foto acima). “Ela já nasce ultramoderna, com autogeração de energia e aproveitamento de todos os resíduos da produção”.
A usina produzirá também 510 toneladas diárias de farelo de milho (DDGS), destinado à nutrição animal, e 34 toneladas de óleo de milho, que pode ser utilizado na produção de biodiesel. Toda a energia consumida pela nova planta será gerada internamente, com base em biomassa de eucalipto cultivado em 5 mil hectares de reflorestamento próprio.
Segundo o presidente executivo da cooperativa, Airton Galinari, o projeto agrega valor à cadeia produtiva do milho e representa um marco na estratégia de diversificação industrial da Coamo.
A construção da usina deve gerar 2.200 empregos diretos, com previsão de 250 vagas permanentes após o início da operação. A cooperativa, maior do gênero na América Latina, movimentou R$ 28,8 bilhões em 2024, com distribuição de R$ 694 milhões em sobras entre seus 32 mil cooperados. Só em milho, recebe anualmente cerca de 3 milhões de toneladas, das quais até 600 mil toneladas devem ser destinadas à produção de etanol.
A iniciativa também conta com respaldo político e institucional. A entrega da licença contou com a presença de diversos secretários estaduais, deputados, prefeitos e lideranças cooperativistas. Rafael Greca, secretário de Estado do Desenvolvimento Sustentável, classificou o investimento como uma “nova matriz de sustentabilidade a ser oferecida ao mundo pelo Paraná”.
No entanto, a judicialização do processo pode impor riscos ao cronograma. Caso a Justiça acolha os argumentos do MP e determine a suspensão da licença, a execução das obras poderá ser interrompida. A medida abriria um precedente relevante para outros empreendimentos similares no estado, em um momento em que o Paraná busca consolidar sua posição no mercado de bioenergia.
Segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), o Brasil possui atualmente 24 usinas que utilizam milho como matéria-prima, majoritariamente concentradas na região Centro-Oeste. O projeto da Coamo em Campo Mourão é um dos primeiros de grande porte no Sul do país, e poderá alterar o mapa da produção nacional de biocombustíveis, desde que supere os obstáculos regulatórios e judiciais.
Ministério Público diz que "não há margem" para interpretação
O Ministério Público do Paraná (MP-PR), por meio da 1ª Promotoria de Justiça de Campo Mourão, sustenta que o licenciamento ambiental prévio concedido pelo Instituto Água e Terra (IAT) à Coamo violou a legislação ambiental ao dispensar a exigência do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e do Relatório de Impacto Ambiental (Rima) — instrumentos obrigatórios para empreendimentos de grande porte e potencial impacto, como uma usina de etanol de milho.
Segundo o MP, não há margem de interpretação ou flexibilidade (“discricionariedade”) por parte do órgão ambiental nesses casos. A ausência do EIA/Rima, diz a ação, configura “proteção ambiental insuficiente”, o que fere os princípios constitucionais da precaução e da prevenção ambiental.
A promotoria destaca que o empreendimento será instalado nas proximidades do Parque Estadual Lago Azul, uma área de preservação relevante, o que reforça a necessidade de um estudo técnico aprofundado dos possíveis impactos ecológicos, sociais e territoriais da usina.
Com base nesses argumentos, o MP pede à Justiça a cassação da licença prévia ambiental e, como consequência, a suspensão da Licença de Instalação (LI) recentemente entregue, até que o EIA/Rima seja elaborado, analisado e aprovado nos termos da legislação vigente.
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