Trigo e cevada no Paraná: chuva e custos pressionam a renda do produtor
Análise produzida pelo engenheiro agrônomo Josiel Lima mostra como a qualidade dos grãos e as condições de comercialização definem o resultado das culturas de inverno
23/10/2026
A classificação dos grãos define quanto o agricultor recebe após meses de investimento na lavoura. Análise do engenheiro agrônomo Josiel Lima detalha os desafios da safra de invernoA expansão da cevada e as dificuldades do trigo colocam a agricultura de inverno do Paraná diante de um desafio: transformar produção em renda. Enquanto a demanda da indústria de malte estimula o plantio de cevada, as chuvas na reta final da safra de trigo prejudicam a qualidade dos grãos e ampliam a pressão sobre produtores que já precisam equilibrar custos e preços de venda.
O diagnóstico integra uma análise produzida pelo engenheiro agrônomo Josiel Lima com exclusividade ao Portal Paraná Central, com base em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento do Paraná (Seab) e do Departamento de Economia Rural (Deral).
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O levantamento examina a trajetória das duas culturas entre 2022 e 2026 e destaca que o desempenho das lavouras precisa ser medido por quatro fatores: volume colhido, qualidade, preço recebido e custo total.
Uma produtividade elevada pode não assegurar retorno quando o produto perde valor comercial ou a receita fica abaixo das despesas.
Chuvas comprometem a qualidade do trigo
O problema mais imediato está nas lavouras de trigo. Até 20 de outubro, a colheita havia alcançado 82% da área cultivada no Paraná. Entre as lavouras ainda avaliadas, 45% apresentavam boas condições, 42% estavam em situação média e 13%, em condição ruim, segundo informações do Deral divulgadas naquela semana.
A deterioração já aparecia no boletim estadual de 15 de outubro. Naquele levantamento, dos 182 mil hectares ainda pendentes de colheita, 46% estavam em boas condições, 42% em condições médias e 12% em condições ruins. O órgão informou que a colheita de outros 210 mil hectares havia ocorrido sob chuvas frequentes, comprometendo a qualidade inclusive em lavouras de médio e alto potencial produtivo.
O excesso de umidade, a baixa luminosidade e as dificuldades de manejo favorecem doenças e reduzem o aproveitamento comercial da produção. O acompanhamento do Deral também apontou situações em que o trigo ficou abaixo das exigências dos compradores e em que a receita poderia não cobrir os custos da safra.
Na avaliação apresentada por Lima, o agricultor pode sofrer perdas em duas frentes: colher menos e receber um preço inferior pelo grão. A chuva ainda pode elevar os gastos com secagem, dificultar a entrada das máquinas e prolongar os trabalhos no campo.
Alta de preços não garante recuperação das perdas
Os preços do trigo subiram 5% em setembro, em reação à menor disponibilidade interna, e permaneceram estáveis na primeira quinzena de outubro. Segundo o Deral, a escassez de produto de alta qualidade ajudava a sustentar as cotações, apesar da pressão do câmbio e dos preços internacionais.
Esse movimento, porém, não beneficia todos os agricultores da mesma maneira. Quem entrega um lote abaixo do padrão exigido pode enfrentar descontos, mesmo quando há valorização do trigo de melhor qualidade.
A análise de Lima ressalta que os investimentos começam meses antes da venda, com sementes, fertilizantes, defensivos, combustível, máquinas e mão de obra. Na comercialização, o produtor depende também de fatores externos à propriedade, como oferta nacional, câmbio, cotações internacionais e concorrência do produto importado.
Como o Brasil complementa seu abastecimento com compras externas, especialmente de fornecedores do Mercosul, os moinhos têm alternativas de aquisição. Para o agricultor, essa dinâmica limita a possibilidade de repassar integralmente os custos ao preço de venda.
Valor da produção revela instabilidade
Os dados da Produção Agrícola Municipal do IBGE reunidos por Josiel Lima mostram a dimensão econômica da triticultura paranaense. Em 2025, o estado produziu aproximadamente 2,76 milhões de toneladas, em cerca de 849 mil hectares, com produtividade média de 3.249 quilos por hectare.
O valor da produção chegou a aproximadamente R$ 3,16 bilhões. Houve recuperação em relação a 2024, mas o resultado permaneceu abaixo do registrado em 2022.
Esses números representam o valor da produção e não o lucro dos agricultores. Para avaliar a rentabilidade, é necessário descontar as despesas de cada propriedade.
O estudo aponta ainda que a recuperação do volume produzido em 2025 ocorreu mesmo com uma área menor de trigo. O ganho de rendimento compensou parte da retração do plantio, mas não resolveu a exposição da atividade às oscilações de mercado e ao clima.
Cevada amplia espaço com demanda das maltarias
Na cevada, a perspectiva de crescimento está associada ao abastecimento da indústria de malte. Em junho, o Deral projetava uma área recorde de 126 mil hectares no Paraná, 21% superior aos 104 mil hectares colhidos em 2025, e uma produção acima de 550 mil toneladas.
A estimativa dependia da manutenção das condições das lavouras. Na própria divulgação, a Seab alertou que chuvas frequentes durante a primavera poderiam prejudicar a qualidade dos grãos na colheita. Portanto, os números representavam uma projeção do início do ciclo, e não o resultado final da safra.
Conforme os dados do IBGE compilados por Lima, a produção brasileira de cevada alcançou 521,2 mil toneladas em 2025, em uma área de 128,3 mil hectares. O rendimento médio foi de 4.063 quilos por hectare.
O valor nacional da produção somou R$ 684,6 milhões, dos quais aproximadamente R$ 501,3 milhões corresponderam ao Paraná. A concentração reforça a importância do estado para a cadeia de malte e para os serviços ligados ao cultivo, transporte e armazenamento.
O histórico nacional também apresenta oscilações: o valor da produção de cevada passou de R$ 916,3 milhões em 2022 para R$ 474 milhões em 2023, recuperou-se para R$ 589,4 milhões em 2024 e voltou a crescer em 2025.
Qualidade define o destino dos grãos
A principal exigência da cevada destinada ao malte está no padrão industrial. Germinação, uniformidade, tamanho e sanidade dos grãos influenciam a aprovação dos lotes e a remuneração.
Segundo a análise, uma lavoura pode apresentar bom volume e, ainda assim, gerar receita abaixo da esperada se o produto não atender às especificações do comprador. Por isso, contratos, assistência técnica e relacionamento com cooperativas e maltarias têm peso no planejamento.
No trigo, os moinhos precisam de matéria-prima adequada à moagem e à fabricação de farinha. Quando diminui a oferta de lotes com as características necessárias, as empresas podem buscar produto em outras regiões ou no exterior e ajustar misturas para manter o padrão industrial.
Essas mudanças afetam logística, compras e exposição ao câmbio. Seus efeitos sobre o preço final dos alimentos, entretanto, dependem também de outros custos e das condições de mercado.
Próxima safra depende da capacidade de financiar o plantio
As dificuldades das culturas de inverno repercutem além das propriedades. Trigo e cevada movimentam cooperativas, cerealistas, maltarias, moinhos, transportadoras e fornecedores de insumos e serviços.
Para Lima, a continuidade dessas atividades exige planejamento que considere a margem esperada por hectare, as condições contratuais e os riscos de perda de qualidade. A análise aponta assistência técnica, informação meteorológica, seguro rural adequado e estrutura de armazenamento como instrumentos para reduzir a exposição financeira.
No trigo, a prioridade imediata é concluir a colheita e comercializar os lotes de forma a limitar as perdas. Na cevada, o desafio é converter a expansão projetada em grãos aprovados pela indústria.
A capacidade de pagar os compromissos da safra e financiar o próximo plantio dependerá desse resultado. Para quem investiu ao longo de todo o ciclo, o volume que sai da lavoura só se transforma em renda depois da classificação do produto e do fechamento da conta.
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