Estudantes retomam luta histórica por Hospital Universitário da Unicentro
Estudantes afirmam que crise no Hospital Regional escancarou limites do modelo
24/06/2026
A recente crise administrativa no Hospital Regional de Guarapuava (Cidade dos Lagos) recolocou no centro do debate uma reivindicação histórica dos estudantes de medicina da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro): a transformação da unidade em um Hospital Universitário (HU).
Embora o Hospital Regional já conte com uma estrutura de hospital-escola voltada à formação prática dos alunos – especialmente daqueles que ingressam na fase de estágios obrigatórios a partir do quinto ano do curso –, o modelo atual voltou a ser questionado após os episódios envolvendo a empresa CIS, responsável pela gestão terceirizada da unidade. Atrasos em pagamentos, rompimentos contratuais e impactos sobre o funcionamento assistencial expuseram, na avaliação dos estudantes, vulnerabilidades do arranjo adotado pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa).
Gabriela Singer, presidente do Centro Acadêmico de Medicina da Unicentro: "Hospital Universitário traz benefícios para toda a região, na saúde da população, na formação e pesquisa acadêmicas"
Os reflexos da instabilidade não ficaram restritos à assistência hospitalar. Professores vinculados à Unicentro e que atuam no hospital-escola também se sentem atingidos pela crise, ampliando a preocupação dentro da comunidade acadêmica sobre a sustentabilidade do atual formato.
Para os estudantes, o episódio reforçou um argumento que há muito circula entre os cursos da área da saúde: a necessidade de consolidar uma estrutura universitária própria, integrada ao ensino, à pesquisa e à extensão.
“Essa mobilização pelo Hospital Universitário sempre existiu, mas os acontecimentos recentes demonstraram de forma concreta os limites do modelo atual. Quando existe instabilidade administrativa, os impactos chegam diretamente na formação dos estudantes e no atendimento à população” – afirma Gabriela Singer, presidente do Centro Acadêmico Marco Antônio Zago, entidade que lidera as discussões entre os alunos de medicina.
Segundo a dirigente, a proposta não se resume à ampliação física de serviços hospitalares, mas à construção de um projeto permanente para a região.
“O Hospital Universitário não deve ser encarado como despesa. É um investimento que retorna em atendimento público qualificado, fortalecimento do SUS e formação de profissionais preparados para atuar nas necessidades reais da população”, diz.
Diretoria do Centro Acadêmico: luta histórica que tem adesões no meio social e político
Exceção entre as estaduais
Entre as universidades estaduais do Paraná que mantêm cursos de medicina e outras graduações da área da saúde – como enfermagem, farmácia e fisioterapia –, a Unicentro é hoje a única que não dispõe de um Hospital Universitário consolidado.
Na leitura do movimento estudantil, essa condição coloca Guarapuava e a região central do Estado em posição desigual na estrutura de ensino e assistência em comparação com outros polos universitários paranaenses.
Os estudantes argumentam que hospitais universitários tradicionalmente cumprem dupla função: ampliar a capacidade de atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e criar ambiente contínuo de formação, pesquisa e inovação em saúde.
Na prática, defendem que uma estrutura desse tipo reduziria dependências administrativas externas e permitiria maior integração entre universidade e rede pública.
Formação médica e assistência pública
Hoje, os estudantes da Unicentro realizam parte da formação clínica e dos estágios dentro do hospital-escola instalado no Regional, etapa considerada central no processo de formação médica.
É justamente nesse ponto que o debate ganha força.
Para o Centro Acadêmico, a existência de um hospital-escola representa avanço importante, mas não substitui o papel institucional de um Hospital Universitário, que opera com governança voltada simultaneamente para assistência, ensino e produção científica.
A avaliação dos alunos é de que Guarapuava reúne condições para consolidar esse salto estrutural, tanto pela presença de cursos da área da saúde quanto pela demanda regional por serviços especializados.
“O DNA de um Hospital Universitário está no cuidado e na educação, não na lógica do lucro. Quando se investe em um HU, o retorno aparece em atendimento gratuito, expansão dos serviços e na qualificação dos profissionais que vão cuidar das próximas gerações”, afirma Gabriela.
A discussão volta à pauta em um momento em que o Regional enfrenta questionamentos sobre seu modelo de gestão – e reacende uma pergunta que acompanha a expansão do ensino superior em saúde no interior do Paraná: qual estrutura será necessária para sustentar, no longo prazo, a formação dos profissionais e o atendimento da população.
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