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Agro do Paraná cresce, mas enfrenta o desafio de encontrar quem ficará no campo

Guarapuava e a Região Central do Paraná estão no centro de uma transformação que combina expansão do agronegócio, avanço tecnológico e redução da população no campo

19/08/2026
Sucessão familiar se torna um dos principais desafios para manter propriedades e negócios nas próximas geraçõesSucessão familiar se torna um dos principais desafios para manter propriedades e negócios nas próximas gerações

Guarapuava ocupa uma posição estratégica no agronegócio paranaense e ajuda a traduzir uma contradição que ganha importância à medida que o setor se moderniza: o Paraná produz cada vez mais, movimenta cadeias empresariais maiores e incorpora tecnologia em ritmo acelerado, mas depende de uma população rural proporcionalmente menor e de uma nova geração disposta a assumir propriedades que, em muitos casos, estão há décadas sob o comando das mesmas famílias.

Os números mais recentes do Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social (Ipardes) mostram a dimensão dessa expansão. Entre 2018 e 2025, as principais culturas agrícolas e atividades pecuárias do Paraná apresentaram crescimento expressivo. O Estado consolidou-se como segundo maior produtor nacional de grãos e manteve a liderança brasileira em segmentos da produção de carnes, com destaque para avicultura e piscicultura.

Atividade agrícola é uma das forças preponderantes do setor econômico. Desafio da sucessão familiar está presente na vida do pequeno ao grande produtor

A evolução não ocorreu apenas pela incorporação de novas áreas. O Painel Agropecuária Paranaense, do Ipardes, mostra que o valor da produção agrícola estadual mais que dobrou entre 2019 e 2024, passando de R$ 3,11 bilhões para R$ 6,37 bilhões, enquanto a área colhida avançou 5,5%, de 10,73 milhões para 11,32 milhões de hectares. A diferença entre os dois ritmos ajuda a explicar a transformação: o campo está produzindo mais valor sem ampliar na mesma proporção a área utilizada. (ipardes.pr.gov.br)

Essa mudança alterou também o perfil do produtor. A propriedade rural deixou de ser apenas uma unidade de produção familiar e passou, em muitos casos, a funcionar como uma empresa. Máquinas de alto valor, crédito rural, contratação de serviços especializados, gestão financeira, comercialização antecipada, tecnologia embarcada e relacionamento com cooperativas e agroindústrias fazem parte da rotina de uma parcela crescente do setor.

É nesse ponto que a questão demográfica ganha importância econômica.

Guarapuava no centro do agronegócio

Guarapuava ocupa uma posição particular nesse processo. O município funciona como polo econômico e de serviços de uma extensa área do centro do Paraná e possui uma estrutura produtiva na qual agricultura, pecuária, madeira, agroindústria, comércio e serviços se conectam.

A relevância agrícola do município não é recente. Levantamento do Ipardes com dados do IBGE colocou Guarapuava entre os municípios brasileiros de maior produção agropecuária. Em 2022, a cidade ocupava a 62ª posição entre os maiores valores da produção agrícola do país, com VBP de R$ 1,96 bilhão. Também liderava nacionalmente a produção de cevada, centeio e triticale. 

O perfil da região é particularmente diversificado. Na Região Geográfica Intermediária de Guarapuava, as lavouras temporárias respondiam por 32,7% do uso da terra dos estabelecimentos agropecuários, seguidas pelas pastagens, com 30%, e pelas matas e florestas, com 28,6%, segundo levantamento do Ipardes baseado no Censo Agropecuário. (ipardes.pr.gov.br)

Essa composição ajuda a explicar por que o centro do Paraná não pode ser analisado apenas pela ótica da soja e do milho. A região reúne produção de grãos, pecuária, madeira e florestas plantadas, além de atividades que abastecem cadeias industriais e agroindustriais.

Guarapuava, por sua vez, exerce papel de concentração empresarial e de serviços. A cidade funciona como mercado para máquinas, insumos, assistência técnica, transporte, armazenagem, crédito, comercialização e serviços especializados utilizados pelo campo regional. O próprio histórico econômico do Ipardes identifica a cidade como polo de uma extensa região central, com concentração de atividades industriais, comerciais e de serviços. 

É uma característica importante para entender o futuro do setor: o agro não termina na porteira. Quanto mais sofisticada fica a produção rural, maior é a rede de empresas que depende dela e que, ao mesmo tempo, fornece tecnologia, capital, conhecimento e mercado.

Menos trabalhadores, maior produtividade

A modernização resolve parte do problema da escassez de mão de obra, mas cria outro.

Tratores, colheitadeiras, sistemas de agricultura de precisão, automação, drones, softwares de gestão e máquinas especializadas permitem que uma quantidade menor de pessoas administre áreas maiores e operações mais complexas. A produtividade aumenta, mas a necessidade de trabalho manual diminui.

O resultado é uma mudança estrutural na relação entre campo e cidade.

O jovem que nasceu em uma propriedade rural já não precisa permanecer nela para ter acesso a renda, educação ou profissão. Ao contrário de gerações anteriores, ele pode estudar, trabalhar em uma empresa, empreender ou seguir uma carreira profissional fora da agricultura.

A região de Guarapuava também se destaca na produção de batata (Imagem ilustrativa gerada por IA)

O problema surge quando essa escolha deixa de ser individual e passa a comprometer a continuidade do negócio familiar.

É justamente por isso que a sucessão rural ganhou espaço na agenda de entidades como o Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) e o Sistema FAEP.

O IDR mantém ações específicas de formação de jovens e mulheres para liderança e sucessão na agricultura familiar e trabalha com capacitação em gestão, agregação de valor, organização rural e acesso a mercados. (idrparana.pr.gov.br)

O Sistema FAEP, por sua vez, ampliou em 2026 os debates sobre sucessão familiar em seus encontros regionais e mantém o programa Herdeiros do Campo, estruturado para discutir a continuidade da propriedade a partir de três dimensões: família, empresa e patrimônio. (sistemafaep.org.br)

O herdeiro não é necessariamente o sucessor

A principal mudança de mentalidade está justamente nessa distinção.

Ser herdeiro significa receber patrimônio. Ser sucessor significa estar preparado para administrar um negócio.

A diferença parece semântica, mas é econômica. Uma propriedade pode ser dividida entre vários herdeiros, enquanto a atividade produtiva precisa de decisões coordenadas. Terra, máquinas, animais, instalações, dívidas, contratos e capital de giro não podem ser administrados apenas com base no parentesco.

O Sistema FAEP tem insistido nesse ponto. Em um encontro realizado em 2026, especialistas destacaram que cerca de 80% das propriedades rurais brasileiras ainda se encontram na transição da primeira para a segunda geração, enquanto menos de 15% possuem um plano formal de sucessão. (sistemafaep.org.br)

Isso revela um dos maiores riscos para o campo: a sucessão costuma ser discutida tarde demais.

Muitas famílias só começam a conversar sobre o futuro quando o proprietário já está próximo de deixar a atividade ou quando os filhos já construíram suas carreiras fora da propriedade.

A consequência pode ser o arrendamento da terra, a venda do patrimônio ou a fragmentação da propriedade entre herdeiros. Em todos esses casos, a família pode preservar o patrimônio financeiro, mas perder a empresa rural construída ao longo de décadas.

O desafio da Região Central

Para a região de Guarapuava, o problema assume dimensão ainda maior porque a economia rural está integrada a uma estrutura empresarial que ultrapassa os limites municipais.

A continuidade das propriedades interessa não apenas às famílias. Interessa às cooperativas, agroindústrias, revendas, transportadoras, cerealistas, empresas de máquinas, instituições financeiras e prestadores de serviços que formam o ecossistema do agronegócio.

Quando uma propriedade deixa de produzir, o impacto econômico não termina no imóvel.

Por isso, sucessão rural passou a ser também uma questão de competitividade regional.

A estratégia não significa obrigar os filhos a permanecer no campo. Significa criar condições para que permanecer seja uma escolha economicamente racional.

Isso envolve profissionalização da gestão, acesso à tecnologia, formação técnica, conectividade, crédito, diversificação da produção e possibilidade de agregação de valor.

O IDR trabalha, por exemplo, com a agroindustrialização como instrumento para ampliar renda e diversificar a atividade das famílias rurais. A transformação de produtos dentro da própria propriedade pode aproximar a nova geração do negócio ao criar atividades que vão além da produção primária. (idrparana.pr.gov.br)

É uma mudança importante. Para o jovem, o campo deixa de ser apenas lavoura ou pecuária e passa a oferecer possibilidades de administração, tecnologia, comercialização, marketing, processamento, turismo rural e negócios digitais.

O futuro do agro passa pela família

O Paraná conseguiu transformar produtividade em escala econômica. O próximo desafio é transformar patrimônio em continuidade.

A expansão do agronegócio estadual não elimina a necessidade de pessoas no campo. Ela muda o perfil dessas pessoas. O produtor do futuro precisará cada vez menos dominar apenas a operação da lavoura e cada vez mais compreender gestão, tecnologia, mercado, finanças e planejamento.

A sucessão, portanto, não deveria começar quando o pai decide parar de trabalhar. Ela começa quando o filho passa a participar das decisões.

O próprio Sistema FAEP defende que uma transição bem-sucedida seja gradual, com capacitação e qualificação das novas gerações para que elas enxerguem valor e futuro na atividade rural. (sistemafaep.org.br)

Esse talvez seja o paradoxo mais importante do novo agro paranaense. A tecnologia tornou possível produzir mais com menos pessoas. Mas nenhuma tecnologia substitui a decisão de alguém assumir o negócio.

Para Guarapuava e para a região central do Paraná, onde a produção rural está entrelaçada a uma extensa cadeia empresarial, garantir essa passagem de uma geração para outra será tão estratégico quanto aumentar a produtividade da próxima safra.

Porque o futuro do agro não será decidido apenas pela quantidade de hectares plantados ou pelo tamanho da colheita. Será decidido também por uma pergunta mais simples — e mais difícil:

quem estará no comando quando chegar a hora de plantar a próxima geração?

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