O que o mercado espera de Lula: ajuste nas contas e definição da equipe econômica
Investidores cobram medidas para conter a dívida e esclarecer o financiamento das promessas de campanha; juros e dólar refletem a incerteza
02/11/2026
Trajetória da dívida, financiamento das propostas e capacidade de negociação com o Congresso estarão sob acompanhamento dos investidoresO mercado financeiro espera do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reeleito para um quarto mandato, duas sinalizações principais: a definição da equipe econômica e um plano para controlar as contas públicas. A cobrança é por medidas que indiquem como o governo pretende financiar suas promessas, cumprir metas fiscais e conter o crescimento da dívida.
As avaliações de bancos, gestores e economistas após a eleição convergem na demanda por previsibilidade. Há, porém, diferenças sobre a intensidade do ajuste necessário e a disposição do governo para executá-lo.
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Parte da turbulência inicial também refletiu a reversão de apostas eleitorais. Segundo Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, em entrevista à CNN Brasil, investidores haviam montado posições esperando uma mudança de governo e precisaram ajustá-las após o resultado.
A dimensão do desafio aparece nos dados mais recentes do Banco Central. A dívida bruta do governo geral chegou a R$ 11,1 trilhões, equivalentes a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), em setembro. O percentual ficou estável em relação a agosto, mas acumulou alta de 4,3 pontos percentuais no ano.
Déficit primário
Em 12 meses, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 70,1 bilhões, ou 0,52% do PIB. Esse resultado considera receitas e despesas antes do pagamento dos juros. Incluídos os juros, o déficit nominal alcançou R$ 1,275 trilhão, equivalente a 9,51% do PIB.
Para os investidores, a questão é identificar quais decisões podem alterar essa trajetória e em quanto tempo. Anúncios de novas despesas passam a ser examinados junto com suas fontes de financiamento.
Como pagar as promessas de campanha
O economista-chefe da EQI Investimentos, Stephan Kautz, avalia que o governo precisa esclarecer como compensará medidas anunciadas durante a disputa eleitoral. Em seus cálculos, a implementação dessas propostas poderia acrescentar entre R$ 60 bilhões e R$ 80 bilhões às despesas de 2027. O valor é uma estimativa do analista, não uma despesa já aprovada.
Kautz considera mais provável um ajuste gradual, realizado em etapas. A avaliação foi publicada pelo Estadão na sexta-feira (30), quando os juros futuros voltaram a subir nos contratos de prazos mais longos.
Essas taxas expressam quanto os investidores exigem para assumir riscos ao longo do tempo. Não correspondem à Selic atual, mas influenciam as condições de financiamento do governo e das empresas.
Equipe econômica precisa ter respaldo político
Além dos nomes escolhidos, investidores observarão a capacidade da equipe de negociar medidas e obter apoio do presidente e do Congresso.
Economistas defendem uma manifestação de compromisso fiscal capaz de reduzir a desconfiança. A expectativa é que essa sinalização seja acompanhada de propostas e condições para executá-las.
Juros menores dependem também da inflação
O Banco Safra projeta manutenção da Selic na próxima decisão do Comitê de Política Monetária. A instituição aponta incertezas fiscais, volatilidade cambial e fatores externos como razões para uma postura cautelosa.
A avaliação mostra que a redução do custo do crédito não é considerada automática após a eleição. O comportamento da inflação e das expectativas continuará no centro das decisões do Banco Central.
Há divergência sobre o caminho do ajuste
A cobrança por cortes de despesas não é consenso entre economistas. Especialistas entrevistados pela Agência Brasil argumentam que uma redução ampla dos gastos pode comprometer serviços e investimentos públicos. Eles destacam o peso dos juros no crescimento do endividamento.
Os dados do BC mostram que os juros nominais somaram R$ 1,205 trilhão em 12 meses até setembro, equivalentes a 8,99% do PIB. O debate envolve, portanto, tanto o equilíbrio entre arrecadação e despesas quanto o custo de financiar a dívida e a capacidade de crescimento da economia.
O efeito chega às empresas e às famílias
Para Guarapuava e outras economias ligadas ao agronegócio, as decisões têm consequências sobre crédito, investimentos e custos de produção. Um dólar mais alto pode favorecer receitas de exportação, mas também encarecer insumos importados. Juros elevados dificultam o financiamento de máquinas, estoques e consumo.
A expectativa dos investidores é que as próximas decisões do governo reduzam as incertezas sobre esses custos. A resposta dependerá do conteúdo das medidas, de sua aprovação e dos resultados ao longo do tempo.
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