MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
O fio que me salvou: quando a escrita acordou meu pulso
"A vida tem seus próprios roteiros, muitas vezes escritos com tinta invisível até que um evento sísmico os revele"
10/11/2025
Houve um tempo, uma década inteira para ser exato, em que as redes sociais, o burburinho incessante do Facebook, pareciam-me um deserto sem oásis. Não me levavam a lugar nenhum, pensava eu, um advogado habituado à concretude dos fatos, à solidez dos argumentos que se erguem em pilares de papel e lei. Aqueles dez anos de silêncio digital não foram fruto de uma estratégia elaborada ou de um manifesto contra a modernidade; foram, antes, um simples esvaziamento de sentido. A vida real, com seus tribunais, suas negociações, os almoços em família e as noites de sono roubadas pela complexidade de um caso, preenchia cada interstício. O "post", o "like", o "compartilhar" eram moedas de um reino em que eu não via valor, não sentia propósito. Era uma terra árida para minha alma, e por isso me afastei, sem despedidas, sem anúncios. Apenas me fui acreditando que a verdadeira conexão se fazia no aperto de mãos, no olhar franco, na conversa à beira da mesa.
Contudo, a vida tem seus próprios roteiros, muitas vezes escritos com tinta invisível até que um evento sísmico os revele. E o meu evento sísmico veio na forma de um infarto, uma chacoalhada brutal que não apenas paralisou meu corpo, mas desnudou minha alma. A doença não veio só; trouxe consigo uma sombra densa, a depressão, que coloriu meus dias com tons de cinza e aterrorizou minhas noites com pesadelos vívidos de um fim iminente. O medo da morte, em sua nudez mais crua, sentou-se à minha cabeceira. Foi nesse abismo que a voz de um amigo, um bálsamo em meio ao caos, surgiu. "Milton", ele disse, "por que você não escreve sobre isso? Deixe fluir, sem compromisso, sem regras." A ideia soou estranha para mim, um homem de leis e lógica, mas a desesperança era tamanha que qualquer fio, por mais tênue que fosse, valia a pena ser agarrado. E assim, de forma solta, sem pretensão ou público, comecei a alinhavar palavras que tentavam dar forma ao indizível: a dor física, o pavor existencial, a fragilidade recém-descoberta.
![]()
Milton Luiz Cleve Küster, advogado, cronista, escreve toda segunda-feira esta coluna
O retorno ao Facebook, após uma década de ausência, foi tão hesitante quanto a primeira batida de um coração recém-reanimado. Era um território desconhecido, e a vulnerabilidade de expor não um caso jurídico ou um argumento lógico, mas a própria chaga da alma, era assustadora. Mas a semente plantada pelo amigo, a urgência de dar voz à experiência, falou mais alto. Postei aquele escrito solto, um testemunho cru de minha jornada através do infarto e da depressão. E, para minha surpresa, o silêncio de dez anos foi quebrado não por estranheza, mas por reconhecimento e calor humano. "Milton!", "Que bom te ver de novo!", "Não sabia pelo que você estava passando!" As mensagens começaram a chegar, e em cada uma delas, eu sentia um pedaço da minha antiga presença sendo restaurada. Eles me reconheceram, e esse reconhecimento, após tanto tempo, foi um sopro de vida, uma validação de que, apesar de tudo, eu ainda existia para aqueles que me conheciam.
Mas foi uma mensagem específica que reverberou mais fundo, que tocou uma corda que eu nem sabia que tinha. "Dr. Milton...", começava ela, "...Sua história é profundamente tocante. Sinto muito por tudo o que enfrentou, física, emocional e espiritualmente. E, ao mesmo tempo, é impossível não reconhecer a força e a luz que emana do seu testemunho. Como você mesmo disse, a mente também sofre quando o corpo adoece. Mas saiba que a mente, com amor, propósito e fé, também pode ser a ponte para a restauração, nossos pensamentos e emoções não ficam apenas na mente, eles reverberam no corpo, interferem nas células e influenciam até nos processos de cura. Fica bem." Essa não era apenas uma mensagem; era uma revelação. Era a confirmação de que minhas palavras tinham encontrado eco em outra alma, que o meu sofrimento, ao ser expresso, não era em vão. Aquela frase, "a mente, com amor, propósito e fé, também pode ser a ponte para a restauração", ressoou como um mantra, selando em mim a certeza de que havia algo maior em jogo, algo divino, na arte de contar e compartilhar.
A partir desse momento, o fio invisível que me conectava a algo maior começou a se materializar. Se minhas palavras tinham tal poder, o que mais eu poderia fazer com elas? Foi assim que me vi nas portas de uma escola de criação literária, um ambiente tão distinto do meu universo jurídico quanto a noite do dia. Confesso que a ideia de escrever um romance, e ainda por cima um thriller, sempre me habitara. Era um murmúrio antigo, um desejo que eu, o advogado da razão, sempre rechaçara como um luxo impraticável, uma quimera para mentes mais livres. A capacidade? Eu achava que não a tinha. Achava difícil demais, um labirinto sem bússola para alguém acostumado com a linearidade das leis. Mas ali, naquelas aulas, foi como se as tampas dos meus pensamentos fossem arrancadas, uma a uma. As lições, os exercícios, as conversas – tudo conspirava para "destampar" minha mente. E, então, os insights começaram a fluir. Não como riachos, mas como um rio caudaloso, diário, incontrolável. Não apenas sobre a minha experiência, mas sobre a trama do thriller que eu, secretamente, sonhava em construir. Personagens ganhavam vida própria, cenas se desenrolavam em minha mente com a vivacidade de um filme, diálogos se formavam, e reviravoltas na trama surgiam com uma clareza cristalina. Foi nesse processo que percebi: minha missão, meu verdadeiro propósito, era servir. E o veículo para esse serviço? A escrita.
A epifania, a confirmação final dessa missão, veio em um dia como tantos outros, mas que se tornou extraordinário. Eu estava dirigindo, em uma estrada qualquer, a paisagem desfiando-se pela janela. Meus pensamentos, como de costume ultimamente, estavam imersos nos labirintos do meu thriller, nas vidas fictícias que eu estava construindo. De repente, como um raio que rasga o céu mais límpido, tive uma clareza avassaladora do que deveria fazer. Não era apenas escrever o livro; era o caminho, a estrutura, a voz que eu deveria usar. Todo o universo da história se encaixou, o quebra-cabeça que eu vinha montando peça por peça revelou sua imagem completa. Meu coração disparou, uma ansiedade vibrante, não de pavor, mas de puro entusiasmo, de urgência. Eu precisava parar o carro, precisava pegar uma caneta, precisava transcrever aquela visão antes que ela se dissipasse. Era um chamado irrefutável, o pulso da vida que voltava a bater em um ritmo que eu nunca havia conhecido, um ritmo ditado pela paixão de criar.
Olhando para trás, os dez anos de afastamento do Facebook, a aparente inutilidade do tempo longe das redes, não foram um vazio, mas uma preparação silenciosa. Foi um período de colheita interna, de amadurecimento que só a distância do ruído permite. O infarto, a depressão, o mergulho na mais profunda vulnerabilidade não foram o fim, mas o portal para um novo começo. O retorno, tão cheio de incertezas, foi o abrir de uma porta que me levou a encontrar a mim mesmo, a minha voz, e a minha missão. A mensagem daquela alma sensível no Facebook foi a bússola, e a escola de criação literária, o mapa. O thriller, com seus personagens e tramas complexas, não é apenas um projeto literário; é o fio que me salvou, o pulso que despertou em mim a vida. Cada insight que me assalta, seja na solidão do amanhecer ou na pressa da estrada, é a prova viva de que o propósito de servir pode se manifestar de formas inesperadas, e que a escrita, em sua essência mais pura, é um ato de fé e restauração, para quem escreve e para quem ousa ler. Meu coração, que uma vez falhou, agora bate no compasso das histórias que ainda estão por nascer.
Recomendado para você
▪ Veja também
Todo mundo fala
-
GOVERNOPrefeitura de Guarapuava conquista Selo Diamante em qualidade da transparência -
TRÂNSITOAcidente com vários veículos interdita totalmente a Serra da Esperança -
CLIMAAlerta de tempestades: Guarapuava e Região Central do Paraná na rota de ventos de mais de 100 km/h -
SEGURANÇA Polícia cumpre mandados e prende suspeitos de esquema de fraudes imobiliárias em Guarapuava

