Nova frente fria traz chuva e medo após tornado histórico no Paraná
Institutos meteorológicos afastam riscos de novas tempestades, mas o tempo fica instável
12/11/2025
Frente fria deixa o tempo de "cara feia" em Guarapuava, com pancadas de chuvas em diferentes dias até o fim de semanaQuatro dias se completam do tornado de categoria F3 que atingiu o Centro-Sul do Paraná, e moradores de cidades como Rio Bonito do Iguaçu, Guarapuava, Turvo e Porto Barreiro voltam a enfrentar a chegada de uma nova frente fria. O sistema deve provocar chuvas pontuais e queda nas temperaturas a partir desta quarta-feira (12). É nestas cidades que o tornado não poupou vidas e promoveu grandes destruições, razão de sobra para que o medo esteja sempre presente.
O Simepar (Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná) descarta, por enquanto, novos temporais severos, mas a Defesa Civil mantém parte do Estado em observação. As temperaturas oscilam entre 14°C e 24°C no Terceiro Planalto Paranaense.
Fonte: Simepar
O tornado da última sexta-feira (7) foi um dos mais fortes já registrados no Sul do Brasil. Ventos entre 250 km/h e 330 km/h destruíram casas, arrasaram plantações e deixaram milhares de pessoas desalojadas. Em Rio Bonito do Iguaçu, a área de maior impacto, ruas continuam bloqueadas e parte da população ainda não pôde retornar às casas, as poucas que sobraram, e a grande maioria dedica-se à reconstrução.
“A frente fria que chega agora é mais fraca e deve causar apenas chuva localizada e de curta duração”, afirma o meteorologista Lizandro Jacóbsen, do Simepar. “Não há indicativo de supercélulas nem de formação de novos tornados”, garante ele.
Desesperança, uma das faces mais duras da destruição; imagem em Rio Bonito do Iguaçu
Desmatamento pode ter agravado fenômeno, dizem pesquisadores
Pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) investigam fatores locais que podem ter contribuído para a intensidade do tornado. Segundo o grupo, o desmatamento na região criou corredores de vento e alterou o microclima.
“Áreas que antes tinham cobertura florestal ajudavam a conter e dissipar correntes de ar”, explica a climatóloga Mariana Lopes, da UFPR. “Com a abertura do solo, o vento circula mais livremente e pode ganhar força em situações de instabilidade.”
A hipótese é consistente com estudos recentes que associam o uso do solo ao aumento da vulnerabilidade a eventos climáticos extremos. A região Sul do Brasil tem registrado elevação nas temperaturas médias e maior frequência de chuvas intensas e vendavais nos últimos anos.
El Niño e aquecimento global criam cenário de risco
O INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) aponta que o atual episódio de El Niño continua influenciando o regime de chuvas no Sul do país. A combinação entre calor, umidade e frentes frias ativas tem favorecido a formação de tempestades mais violentas.
O aumento da temperatura dos oceanos Atlântico e Pacífico também intensifica o volume de energia disponível na atmosfera, o que amplia o potencial de formação de tornados e granizo.
“O que vimos no Paraná não é um evento isolado”, afirma Rogério Mendonça, meteorologista do INPE. “São sinais claros de que o padrão climático do Sul está mudando.”
População tenta se reconstruir
Em Guarapuava, na Serra do Cadeado, distrito de Entre Rios, e na cidade de Rio Bonito do Iguaçu, as cenas de destruição ainda impressionam. Famílias improvisam abrigos em escolas e ginásios, enquanto equipes da Defesa Civil, do Exército e uma legião de voluntários trabalham na remoção de entulhos.
O governo estadual anunciou planos de reconstrução emergencial, com liberação de recursos para moradia, infraestrutura e assistência social. Técnicos também estudam a criação de protocolos de alerta rápido para tornados, ainda inexistentes na maior parte do Brasil.
“O que mais assusta agora é o barulho do vento”, diz a agricultora Maria das Dores, 52, que perdeu a casa na zona rural de Guarapuava. “Quando o céu escurece, parece que tudo vai acontecer de novo.”
Tendência é de instabilidade menor nos próximos dias
O Simepar prevê chuva em todo o estado até quinta-feira (13), mas com volumes menores do que os registrados durante a passagem do tornado. A sexta-feira (14) deve ter precipitação moderada, e o sábado (15), pancadas isoladas.
A partir de domingo (16), uma nova área de instabilidade começa a se formar no Sul, mas os modelos ainda não indicam risco de temporais severos.
“A atmosfera está em constante desequilíbrio, e isso exige vigilância permanente”, diz Jacóbsen. “Eventos como esse mostram que precisamos rever a forma como ocupamos e protegemos o território.”
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