MILTON LUIZ CLEVE KÜSTER
Advogado desde 1978, o guarapuavano radicou-se em Curitiba (PR) e Itapema (SC), sem nunca esquecer que "bebeu a água da Serra da Esperança".
Manual de sobrevivência do síndico (sem garantia)
O síndico aprende a frase clássica do direito condominial não escrito: ninguém nunca atrapalha
26/01/2026
Ser síndico é o único cargo em que você é eleito por pessoas que, depois, passam a te tratar como se você tivesse sido contratado pelo universo para resolver tudo – inclusive aquilo que ninguém sabe explicar direito.
Você toma posse achando que vai cuidar de contas, contratos e manutenção. Duas semanas depois, já entendeu: você administra, na verdade, um ecossistema de vagas, obras, pets, barulhos e piscina – cinco forças da natureza que, combinadas, geram mais energia do que um reator.
O condomínio é um lugar onde o elevador funciona como rede social presencial: curto, intenso e cheio de indiretas. Você entra e escuta:
– “Bom dia, síndico… aproveitando…”
E aí você sabe: seu dia acabou de ganhar um capítulo extra.
A vaga: a propriedade privada mais sensível do planeta
A vaga de garagem não é só um espaço pintado no chão. É um território emocional. Uma extensão da alma. Um pedaço do ego em 2,30m de largura.
Existe sempre alguém que “parou só um minutinho”. Esse “minutinho” tem elasticidade cósmica: pode durar desde o tempo de pegar uma encomenda até o tempo de criar um filho e formar na faculdade.
Quando você manda comunicado, o infrator se ofende como se você tivesse questionado a honra da família:
– “Mas eu nem atrapalhei!”
O síndico aprende a frase clássica do direito condominial não escrito: ninguém nunca atrapalha. Atrapalhado é sempre o outro, que “não sabe conviver”.
E tem o fenômeno do carro grande em vaga pequena, que transforma toda manobra em performance artística. O morador abre a porta com a delicadeza de um rinoceronte e depois jura que a batida na lateral do vizinho foi “o vento”.
A obra: a sinfonia do martelete
Obra em condomínio tem dois estilos: a obra autorizada e a obra clandestina.
A autorizada começa com um pedido formal, cronograma, ART, horário, proteção no elevador. A clandestina começa com um barulho às 7h12 de sábado e a sensação de que alguém está abrindo um túnel para outro país.
O síndico recebe mensagens em sequência:
– “Síndico, está permitido quebrar parede hoje?”
– “Síndico, está tremendo aqui.”
– “Síndico, acho que é parede estrutural.”
– “Síndico, se cair eu processo.”
Você vira perito, engenheiro, mediador, padre e, no final, ainda tem que escrever um comunicado com a palavra “gentileza” para não parecer que está declarando guerra.
O pet: a diplomacia do cocô
O pet é amado. O pet é família. O pet é “meu bebê”. E, justamente por isso, ninguém consegue aceitar que o bebê… faz cocô.
Acontece assim: alguém encontra um presente no corredor e manda no grupo:
– “Gente, de novo.”
Em seguida, surge o morador filósofo:
– “Isso é falta de educação.”
O morador pacificador:
– “Vamos ter empatia.”
O morador investigador:
– “Pelas câmeras dá para ver.”
E o síndico, que só queria viver, vira CSI: Condomínio.
Quando você sugere “coleira e recolhimento”, alguém responde como se você tivesse proposto uma lei medieval:
– “Mas ele é um anjo, nunca faria isso.”
O anjo, nesse momento, está lambendo a própria pata e planejando a próxima infração.
O barulho: o som que não existe (até você reclamar)
Barulho é sempre uma discussão metafísica. Porque o barulhento não escuta e o incomodada escuta até o que não existe.
Tem o vizinho do salto alto, o vizinho do home office com reunião infinita, o vizinho do subwoofer que “é só um som ambiente”. Ambiente de festival, talvez.
E tem a frase mais comum do condomínio:
– “Eu nem estava em casa.”
Isso acontece frequentemente após uma reclamação de festa. Milagrosamente, a festa acontece sozinha, com DJs autônomos e copos que se quebram por geração espontânea.
O síndico aprende que, quando o morador diz “foi só uma reuniãozinha”, você deve traduzir para: evento corporativo com after.
A piscina: a ONU em formato de azulejo
A piscina condominial é um laboratório social. Um pequeno parlamento de cloro, sol e regras que ninguém lê.
Tem o morador que quer levar oito convidados e chama isso de “família”. Tem o morador que leva caixa de som e acha que é “clima”. Tem o morador que entra com copo de vidro e diz:
– “Mas eu sou cuidadoso.”
O síndico, por dentro, imagina o vidro quebrando e o cloro virando tribunal.
E existe o clássico: criança correndo. Sempre tem alguém que se incomoda, sempre tem alguém que defende, e sempre tem alguém que conclui:
– “No meu tempo…”
O síndico descobre que “no meu tempo” é uma unidade de medida usada para invalidar qualquer regra atual.
No fim, ser síndico é isso: uma rotina de pequenas tragédias cômicas, onde você apaga incêndios com uma mangueira chamada “bom senso” e um balde chamado “regimento interno”.
E quando, por um raro momento, tudo está em paz — vaga certa, obra silenciosa, pet civilizado, vizinhança calma, piscina sem vidro – você não comemora. Você desconfia.
Porque o síndico aprende a grande lei do condomínio: a tranquilidade é só o intervalo entre duas notificações.
Todo mundo fala
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