Governo do Paraná descarta hospital universitário em Guarapuava e aposta em modelo cirúrgico estadual
Decisão do secretário estadual de Saúde mantém Hospital Regional fechado para pronto-atendimento e amplia contratos com gestão híbrida
07/01/2026
Secretário estadual da Saúde, Beto Preto faz críticas a quem insiste no Hospital Universitário: "Água mole em pedra dura"O secretário de Estado da Saúde do Paraná, Beto Preto, afastou de forma definitiva nesta quarta-feira (7) duas demandas centrais de Guarapuava: a transformação do Hospital Regional do Centro-Oeste em Hospital Universitário e a abertura da unidade para pronto-atendimento irrestrito, o chamado modelo de “portas abertas”. A declaração, feita durante entrevista coletiva no Bloco Didático do hospital, encerra – ao menos do ponto de vista do governo estadual – um debate que se arrasta há anos e que mobiliza estudantes de medicina, lideranças municipais e parte da sociedade civil.
“Água mole em pedra dura, bate até que fura”, disse o secretário, usando a expressão para indicar que o tema estaria esgotado. Na prática, a fala consolida a opção do governo por manter o hospital como um polo cirúrgico regional e estadual, com foco em procedimentos eletivos e de média e alta complexidade, em detrimento de um modelo universitário pleno ou de atendimento geral à população local. Para o secretário, a abertura de uma ala para os estudantes da Unicentro que entram na fase prática do curso (5º ano) é o suficiente para atender às demandas acadêmicas, sem afetar o controle do Regional por parte do Estado, por meio da Fundação Estatal de Atenção em Saúde (Funeas) e uma empresa terceirizada.
As declarações de Beto Preto ocorrem num momento de pressão crescente sobre o sistema de saúde de Guarapuava. Os dois hospitais que operam com pronto-atendimento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) – São Vicente e Novo Santa Tereza – enfrentam superlotação crônica, com relatos recorrentes de filas, atrasos e impacto direto na qualidade do atendimento.
Para críticos do modelo atual, a recusa em abrir o Regional para urgência e emergência transfere o ônus à rede já saturada. No entanto, o secretário de Saúde demonstrou-se seguro quanto ao sistema vigente, dizendo que os dois hospitais são parceiros do governo, com especial destaque ao Novo Santa Tereza, cuja diretoria estava presente na reunião.
Reivindicações acadêmicas e limite político
A principal defesa do Hospital Universitário parte dos acadêmicos do curso de medicina da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro). Para eles, a mudança ampliaria campos de prática, pesquisa e residência médica, além de integrar ensino, assistência e inovação, como ocorre em hospitais universitários federais e estaduais pelo país.
Beto Preto rejeitou esse caminho. Segundo ele, o modelo universitário traria mais desvantagens do que benefícios e não se alinharia à função que o Hospital Regional passou a exercer. Criado originalmente para atender a população local em diversas especialidades, o hospital foi reposicionado ao longo dos anos como referência para cirurgias eletivas em todo o Paraná. "Hoje, fazemos de 25 a 30 cirurgias diárias, o que não existia antes", comparou.
O secretário assegurou a continuidade da parceria com a Unicentro no formato de hospital-escola. Ele foi enfático ao afirmar que a gestão do hospital pela Fundação Estatal de Atenção em Saúde do Paraná (Funeas), em consórcio com uma empresa privada, “não representa nenhum demérito” à universidade – uma resposta indireta às críticas de que a terceirização enfraquece o papel acadêmico da instituição.
Contrato novo, modelo antigo
No mesmo dia em que descartou as mudanças estruturais, o governo estadual anunciou a formalização de um novo contrato de gestão do Hospital Regional. Desde segunda-feira (5), a unidade passou a ser operada pelo Centro Integrado de Saúde (CIS), substituindo o Instituto Santa Clara, sob supervisão da Funeas.
O contrato projeta um salto na produção cirúrgica: de uma média histórica de 600 procedimentos mensais para até 1 mil por mês. O hospital atende 20 municípios da 5ª Regional de Saúde e integra o programa Opera Paraná, considerado pelo governo o maior programa de cirurgias eletivas per capita do país, com cerca de 2,2 mil procedimentos diários em todo o Estado.
Nos últimos dois anos, o hospital realizou cerca de 13 mil cirurgias, incluindo aproximadamente 3 mil próteses de joelho e quadril. Apenas em 2024, foram 647 cirurgias de prótese de joelho e 403 de quadril, consolidando a unidade como referência estadual em ortopedia de alta complexidade.
“Esse contrato permite ampliar a produção cirúrgica, reduzir filas de espera e garantir mais agilidade no atendimento à população”, afirmou Beto Preto, destacando que a Secretaria de Saúde também atuará na qualificação das filas regionais, com mutirões e reorganização da regulação. Ao Portal Paraná Central, ele antecipou que o Regional irá atender pacientes da rede hospitalar que precisam de cirurgias ortopédicas e neurocirurgias.
Novas especialidades
Em reunião pública com a presença do prefeito de Guarapuava, Denilson Baitala, o secretário anunciou a possibilidade de expansão para áreas como otorrinolaringologia. Segundo ele, o hospital também deve “acolher casos de trauma relativo”, expressão que indica atendimentos selecionados, e não um pronto-socorro aberto à demanda espontânea.
Após a coletiva, Beto Preto, o prefeito e o secretário municipal de Saúde, Guto Klosowski, visitaram o terreno onde será construída uma “Upinha” na Vila Bela, unidade voltada ao atendimento infantil, área de extrema carência em Guarapuava. O prefeito Denilson Baitala explicou que o local da futura Upinha foi escolhido por estar perto do Santa Tereza, hospital credenciado para pediatria.
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