Invasor silencioso: molusco asiático é encontrado em manancial que abastece Guarapuava
Mesma espécie foi retirada do Rio Tietê, um dos mais poluídos do Brasil
10/12/2025
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro) trouxe à tona uma descoberta que, à primeira vista, pode parecer discreta, mas que acende um alerta importante para o abastecimento de água de Guarapuava. Em um artigo publicado em outubro na Revista Brasileira de Geografia Física, o doutorando Nathan Ulian de Souza documentou a presença de Corbicula fluminea – um pequeno molusco exótico e altamente invasor – no Rio das Pedras, o manancial que abastece a população da cidade.
A espécie, originária do leste da Ásia, é reconhecida internacionalmente por sua capacidade extraordinária de se multiplicar. Por se reproduzir de forma assexuada, sem a necessidade de machos e fêmeas, cada indivíduo é capaz de dar início a novas colônias. Em muitos lugares do mundo, sua presença provocou transformações profundas nos ecossistemas e prejuízos econômicos expressivos.
O estudo foi desenvolvido em parceria com o egresso Alessandro Kominecki e contou com a orientação dos professores Leandro Redin Vestena, do Departamento de Geografia, e Ana Lucia Suriani Affonso, do Departamento de Ciências Biológicas. O achado, embora científico, tem implicações diretas no cotidiano da população. A coleta que confirmou a presença do molusco foi realizada a cerca de um quilômetro e meio das instalações da Sanepar – distância que, para os especialistas, inspira preocupação.
Vestena explica que o comportamento filtrador da espécie, aparentemente inofensivo, pode desencadear impactos em cascata no ambiente. “O Corbicula fluminea pode depositar grandes quantidades de matéria orgânica no fundo do leito, o que modifica a bioquímica dos sedimentos e afeta espécies nativas. Há risco de alterações na turbidez e até na composição química da água”, disse o professor, destacando que tais mudanças podem comprometer as condições de vida de organismos locais e reduzir a qualidade da água captada.
A professora Ana Lucia Suriani Affonso reconheceu o invasor assim que o viu. Ela já havia encontrado a espécie anos antes, durante seu mestrado em represas do Rio Tietê, um dos muitos ambientes brasileiros em que o molusco se espalhou com facilidade. “O reconhecimento foi imediato. O material coletado correspondia exatamente ao que eu já havia visto e confirmado com especialistas”, relatou.
Para Nathan de Souza, no entanto, a surpresa não foi apenas a presença – mas a quantidade. As coletas revelaram densidades elevadas do molusco no local. “Esse indivíduo não tem um predador aqui. Ele encontra espaço, encontra recursos e muda a dinâmica da cadeia alimentar. Compromete a biodiversidade antes mesmo que muitos percebam sua chegada”, afirmou o pesquisador.
Se os riscos ecológicos já justificam atenção, o impacto econômico amplia o alerta. Nathan de Souza cita estudos internacionais que mostram que, nos Estados Unidos, o custo anual para lidar com obstruções e danos em sistemas de abastecimento provocados pela espécie ultrapassa 1 bilhão de dólares. Tubulações, comportas, filtros – todos podem ser afetados pela capacidade do molusco de fixar-se em estruturas e acumulá-las com matéria orgânica.
Para Guarapuava, isso significa que o problema, hoje restrito a um artigo científico, pode transformar-se em desafio operacional e financeiro para a Sanepar e para o município. A pesquisa, segundo seus autores, deve servir como um ponto de partida. Novos levantamentos, monitoramento contínuo e eventuais medidas de controle serão necessários para impedir que o invasor silencioso avance para áreas mais sensíveis do sistema de abastecimento.
Um importante alerta
Por enquanto, a descoberta no Rio das Pedras funciona como um aviso precoce – um lembrete de que, no mundo dos ecossistemas, mesmo organismos discretos podem mover peças importantes do tabuleiro ambiental e econômico de uma cidade.
A Sanepar ainda não se pronunciou sobre esse caso.
Em outras situações, a empresa foi alvo seguidas queixas por turbidez, mal cheiro e coloração "barrenta" na água..
Agora mais recente, o Procon de Guarapuava processou a Sanepar por contínuas interrupções no abastecimento.
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