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Dia da Árvore revela o patrimônio verde que resiste no coração do Paraná

Serra da Esperança, florestas de araucárias e terras indígenas formam um corredor estratégico de preservação entre Guarapuava, Turvo, Pinhão e municípios do Centro-Sul

21/09/2026
Unidades de conservação e territórios indígenas mantêm vivos importantes remanescentes da Floresta com Araucária. Essas áreas protegem nascentes, fauna, conhecimentos tradicionais e a conexão ambiental entre os municípios do Centro-SulUnidades de conservação e territórios indígenas mantêm vivos importantes remanescentes da Floresta com Araucária. Essas áreas protegem nascentes, fauna, conhecimentos tradicionais e a conexão ambiental entre os municípios do Centro-Sul

No Dia da Árvore, celebrado neste 21 de setembro, a Região Central do Paraná aparece como um dos principais territórios de resistência da Floresta com Araucária. O patrimônio ambiental regional não está concentrado em uma única reserva: forma um mosaico composto por unidades de conservação estaduais e federais, terras indígenas, parques municipais, reservas particulares, áreas de preservação permanente e remanescentes mantidos dentro de propriedades rurais.

A paisagem original é marcada pela Floresta Ombrófila Mista, ecossistema da Mata Atlântica no qual predomina a araucária, também chamada de pinheiro-do-paraná. Campos naturais, matas ciliares, rios, cachoeiras e escarpas completam um território de grande diversidade, mas pressionado historicamente pela exploração da madeira, pela expansão agropecuária, pelos incêndios e pela fragmentação das florestas.

A Área de Proteção Ambiental da Serra da Esperança é o maior eixo contínuo de conservação do Centro-Sul. A APA atravessa Cruz Machado, Guarapuava, Inácio Martins, Irati, Mallet, Paula Freitas, Paulo Frontin, Prudentópolis, Rio Azul e União da Vitória. Diferentemente de um parque, a categoria permite propriedades privadas e atividades econômicas, desde que submetidas a regras de ocupação e conservação.

O plano de manejo da APA foi concluído em 2025 e definiu zonas com diferentes níveis de proteção e uso. A serra funciona como divisor natural entre planaltos, abriga nascentes e ajuda a conectar remanescentes de araucária que, isoladamente, teriam menor capacidade de sustentar a fauna e a diversidade genética da vegetação.

Dentro desse conjunto está o Parque Estadual Salto São Francisco da Esperança, com 6.939 hectares distribuídos entre Guarapuava, Prudentópolis e Turvo. A unidade de proteção integral preserva florestas, cursos d’água e o Salto São Francisco, queda de 196 metros considerada a maior da Região Sul.

Turvo guarda pinheirais e território indígena

Turvo concentra alguns dos remanescentes mais expressivos de araucária da região. Além da área abrangida pelo Parque Salto São Francisco, documentos do Instituto Água e Terra registram a Estação Ecológica Municipal dos Pinheirais entre as unidades locais que passam por processo de aquisição e regularização fundiária.

A importância de Turvo também está na Terra Indígena Marrecas. Com aproximadamente 16,8 mil hectares entre Turvo e Guarapuava, a área é ocupada principalmente pelo povo Kaingang e conserva trechos de Floresta com Araucária, erva-mate nativa, nascentes e matas ciliares. O território indígena não é apenas uma reserva ambiental: é espaço de moradia, produção, espiritualidade e preservação cultural.

Mangueirinha protege floresta e memória indígena

Mais ao sul, a Terra Indígena Mangueirinha ocupa cerca de 16,4 mil hectares entre Mangueirinha, Chopinzinho e Coronel Vivida. O território reúne comunidades Kaingang e Guarani Mbya e está entre as áreas indígenas mais importantes do Paraná para a conservação de remanescentes de araucária.

A história da área também é marcada por conflitos fundiários. Documentos oficiais registram que o território sofreu redução no século passado, mas parte considerável foi posteriormente recuperada após uma longa disputa judicial.

Além de manter a cobertura vegetal, as terras indígenas preservam conhecimentos sobre sementes, plantas medicinais, manejo da erva-mate, alimentação e relações entre floresta e território. Por isso, sua importância ambiental não pode ser separada da proteção dos povos que vivem nessas áreas.

Outras áreas completam o corredor verde

O patrimônio ambiental regional inclui ainda o Parque Estadual de Santa Clara, com 631,58 hectares entre Candói, Foz do Jordão e Pinhão. A unidade protege ambientes ligados ao Rio Jordão e à bacia do Iguaçu e integra pesquisas de monitoramento de mamíferos realizadas pela Unicentro.

Em Pinhão, o Refúgio de Vida Silvestre protege aproximadamente 196,8 hectares de Floresta com Araucária. Embora pequeno, é considerado estratégico por fazer parte do chamado Corredor Araucária, rede destinada a conectar remanescentes florestais e reduzir o isolamento da fauna.

Na área de influência do reservatório de Segredo, a Estação Ecológica do Rio dos Touros preserva cerca de 1.200 hectares. Somada a uma reserva legal vizinha, forma um bloco florestal de aproximadamente 3.200 hectares, com araucárias, floresta estacional e espécies como bugio, lontra, cateto e gatos-do-mato.

A região ampliada também abriga as terras indígenas Ivaí, entre Manoel Ribas e Pitanga; Rio das Cobras, entre Nova Laranjeiras e Espigão Alto do Iguaçu; e Rio Areia, em Inácio Martins. A TI Rio das Cobras, ocupada por comunidades Kaingang e Guarani, possui cerca de 18,7 mil hectares e mantém uma brigada indígena dedicada à prevenção e ao combate aos incêndios florestais.

Na faixa leste do Centro-Sul, a Reserva Biológica das Araucárias protege outros 14.930 hectares de Mata Atlântica. Por ser uma reserva biológica federal, possui regras mais restritivas e prioridade para conservação e pesquisa científica.

Preservação depende de conexão e fiscalização

O perfil regional mostra que a proteção não depende apenas do tamanho de cada área, mas da ligação entre elas. Florestas isoladas perdem biodiversidade e dificultam o deslocamento dos animais, a dispersão de sementes e a reprodução das espécies. Terras indígenas, unidades de conservação, reservas legais e matas ciliares funcionam como peças de um mesmo corredor ecológico.

A Serra da Esperança, os pinheirais de Turvo e Pinhão, os parques estaduais e os territórios Kaingang e Guarani formam, portanto, uma barreira contra o desaparecimento definitivo da araucária. No Dia da Árvore, o desafio regional é fazer com que essas áreas deixem de sobreviver como ilhas verdes e voltem a formar uma paisagem ambientalmente conectada.

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