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Crise, cálculo e rearranjos: Câmara Federal expõe disputa antecipada pela sucessão de 2026

Direita aprova pautas polêmicas, contrariando o STF, enquanto a esquerda esbraveja

11/12/2025

A escalada de tensão na Câmara dos Deputados nas últimas semanas revela um movimento mais amplo do sistema político às vésperas do ciclo eleitoral de 2026.

As decisões no plenário, somadas às articulações internas de partidos da direita, mostram que o Parlamento assumiu papel central na reorganização das forças que disputarão o comando do país.

Tarcísio, Flávio e Jair Bolsonaro: clã Bolsonaro sentiu que Tarcísio poderia tirá-lo do jogo sucessório e jogou todas as fichas, estilo "ou estamos juntos ou quebramos tudo"

A aprovação da redução da dosimetria de penas, defendida por parlamentares conservadores, foi interpretada por atores políticos como medida com efeito direto no caso de Jair Bolsonaro, condenado e inelegível. A votação não ocorreu isoladamente: foi acompanhada de discursos sobre “excessos” do Judiciário e sinalizou a intenção da Câmara de tensionar o STF.

Embora seus efeitos jurídicos sobre situações já julgadas ainda sejam alvo de controvérsia, a medida revela o alinhamento da bancada de direita em torno da narrativa da anistia – símbolo de coesão interna e de fidelidade ao ex-presidente.

Flávio Bolsonaro como peça de pressão

Nesse ambiente, a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência não deve ser lida exclusivamente como um projeto eleitoral.

No momento, a estratégia do clã bolsonarista funciona sobretudo como instrumento de negociação interna na direita e mecanismo de pressão externa sobre o governo e outros pré-candidatos do campo conservador.

  1. Dirigentes partidários relatam que a movimentação do senador cumpre dupla função:
  2. Recolocar a família Bolsonaro no centro da definição da candidatura da direita, evitando que o governador de São Paulo avance de forma autônoma;
  3. Criar uma moeda de troca para eventual acordo que envolva a defesa da anistia ou a recomposição de alianças para 2026.

Tarcísio e a disputa pelo comando da direita

O governador Tarcísio de Freitas tenta consolidar-se como alternativa presidencial apoiada por setores do centro e da direita moderada – movimento que incomoda o núcleo bolsonarista e é visto como tentativa de construir uma candidatura “despersonalizada” do ex-presidente.

A possibilidade de Flávio desistir da pré-campanha, abrindo espaço para um arranjo que inclua Michele Bolsonaro como vice de Tarcísio e sua própria candidatura ao Senado pelo Rio, funciona como recado do PL: qualquer articulação para 2026 passa, necessariamente, pela chancela da família Bolsonaro.

Câmara em confronto com o STF

Carla Zambelli (no alto), cassação rejeitada na Câmara Federal; e Glauber Braga (acima), suspensão por 6 meses pelo mesmo crime que bancada da direita cometeu e não foi punida

O confronto institucional também ganhou corpo nas votações da semana. Em sinal de resistência ao Supremo, a Câmara rejeitou a cassação do mandato da deputada Carla Zambelli (PL-SP), condenada em definitivo, presa na Itália e impossibilitada de exercer o cargo. A decisão contrariou parecer da CCJ e demonstra que a base conservadora mantém coesão suficiente para proteger seus quadros – ainda que em situação jurídica delicada.

Ao mesmo tempo, o plenário aprovou a suspensão por seis meses do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ). A pena alternativa substituiu a cassação, mas evidenciou tratamento desigual em casos politicamente sensíveis. Parlamentares de direita que, em episódios semelhantes, ocuparam a Mesa Diretora para obstruir votações não foram punidos, o que reforça a leitura de que o Conselho de Ética opera segundo a correlação de forças momentânea.

Fragilidade parlamentar do governo Lula e supremacia do Legislativo

Cúpula do PT no Paraná orienta militância para apoio a candidato a governador de outro partido – Requião Filho, do PDT – e não se viabiliza como alternativa de poder, embora exista há 45 anos

A dificuldade do governo Lula em construir maioria sólida no Congresso aprofunda o protagonismo da Câmara. Sem votos suficientes para pautas estruturais, o Executivo perde capacidade de controlar a agenda. A direita, por sua vez, ocupa o espaço com projetos que interferem no equilíbrio entre Poderes e impactam diretamente o ambiente eleitoral.

O Paraná é um exemplo clássico: apesar de estruturado desde sua fundação, há 45 anos, o PT continua sendo um braço auxiliar nas disputas ao governo estadual e ao Senado e não trabalha com a construção político-partidária nos municípios (na grande maioria, os diretórios não se expressam de forma autônoma e combativa, atuando, também, como coadjuvantes de mandatos). Há uma negligência contumaz na área de comunicação, interna e externamente, e preciosismo dogmático que se aplica à militância, mas é relativa nas cúpulas (dirigentes defendem coligação com partidos que o petismo critica e são seletivos quando as escolhas descem a escalões inferiores).

O desempenho nos municípios e estados reflete a composição na Câmara e Senado Federal, e explica por que o PT e a esquerda como um todo estão em minoria nesses parlamentos.

Um ensaio para o próximo ciclo

Os acontecimentos recentes não são apenas episódios isolados de fim de ano legislativo. Constituem um ensaio do que tende a se intensificar ao longo de 2026: um Legislativo assertivo, uma direita fragmentada, porém dominante no Parlamento, um Judiciário em constante tensão e um Executivo obrigado a negociar em cenário desfavorável.

A disputa presidencial já começou – e o palco central, por ora, é a Câmara.

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