Calçadão da XV: projeto questionável e obra inacabada conflitam com a identidade urbana de Guarapuava
Obra de R$ 15 milhões prometia modernizar o coração de Guarapuava, mas atrasos, falhas técnicas e descaracterização histórica geram críticas, frustração e dúvidas sobre o futuro do espaço público mais simbólico da cidade
29/09/2025
Uma das áreas do Calçadão afetadas pelo novo projeto: conflito como obra inacabada e com o patrimônio cultural de GuarapuavaNeste início de semana, máquinas voltam a ocupar o coração de Guarapuava. A Rua XV de Novembro, conhecida popularmente como Calçadão da XV, amanheceu novamente interditada, para correção de erros em uma obra que se arrasta há 2 anos e que, para muitos, representa o fracasso de planejamento e ruptura histórica com a memória urbana da cidade.
O prefeito Denilson Baitala, que assumiu a administração municipal em janeiro, enfrenta agora as consequências de um projeto herdado da gestão anterior. Com orçamento estimado em R$ 15 milhões, a iniciativa prometia revitalizar o espaço mais simbólico da cidade, mas até o momento o que se vê são intervenções inconclusas, reclamações generalizadas e uma população cética quanto ao futuro do empreendimento.
Quadra do Calçadão que continua no formato original (no alto) e hoje (acima) com as recentes intervenções urbanísticas: a parte antiga permanece há anos sem conservação e as novas obras feriram o conceito histórico do ponto central da cidade
A fase de obras iniciada nesta segunda-feira (29) visa reparar falhas na execução do piso tátil – parte essencial da acessibilidade prometida – que, segundo laudo técnico, foi instalado com “materiais inadequados”. De acordo com nota oficial da Prefeitura, a correção exigirá bloqueios temporários em trechos centrais, afetando o trânsito e os já abalados fluxos comerciais da região.
REFORMA DA REFORMA
As interdições, que devem durar até o final da semana, incluem o trecho da XV entre a Rua Professora Leonídia e a Marechal Floriano Peixoto. A Rua Visconde de Guarapuava também será bloqueada a partir da Rua Padre Chagas. Os trabalhos, além do piso tátil, envolvem ajustes finais em paisagismo, rede elétrica e instalação de balizadores. A expectativa é que, ao fim da vistoria da Prefeitura, o contrato com a empresa executora seja encerrado – mas isso está longe de significar o fim dos problemas.
Ruas que serão interditadas para obras de recuperação e finalização do contrato com a empreiteira
O Calçadão que deixou de ser
Criado nos anos 1980 como um espaço de convivência, comércio e celebração da identidade guarapuavana, o Calçadão da XV era revestido com “petit-pavé”, tradicional calçamento português semelhante ao encontrado na Rua das Flores, em Curitiba. O projeto de revitalização substituiu o material por paver comum, mais barato e frequentemente utilizado em calçadas residenciais – uma escolha que não apenas desagrada esteticamente, mas agride simbolicamente uma paisagem urbana consolidada há mais de quatro décadas.
Mais do que as mudanças físicas, críticos apontam que a intervenção feriu o “contrato social” entre a cidade e seus moradores.
Quando se altera o centro de uma cidade histórica, como é o caso de Guarapuava, não se está apenas mexendo no calçamento. Está apagando parte da memória coletiva, opinião que é compartilhada por historiadores e especialistas em urbanismo e patrimônio cultural.
A intervenção também incluiu a instalação de uma rampa de acessibilidade com corrimões metálicos no acesso da XV à Praça 9 de Dezembro, a principal praça da cidade, o “marco zero” da cidade, em frente à Catedral de Nossa Senhora de Belém. O resultado foi um contraste estético e simbólico com os elementos históricos da região –incluindo o Museu Municipal Visconde de Guarapuava, instalado em prédio do século XIX.
Praça 9 de Dezembro (no alto), o "marco zero" da cidade de Guarapuava e o projeto arquitetônico recente: nova estrutura pretendia ser uma área de convívio social, mas agrediu a identidade urbana
Não bastasse tudo isso, a Rua XV de Novembro é o corredor viário do “coração” de Guarapuava, um sistema que, originalmente, foi projetado 200 anos atrás pelo padre Francisco das Chagas Lima, o Padre Chagas, membro da Real Expedição Colonizadora (1810) e responsável pela implantação da Carta Régia assinada pelo príncipe português Dom João VI – e que definia o perfil urbano da vila que nascia como Freguesia de Nossa Senhora de Belém, uma réplica fiel das cidades de Portugal.
Em dois séculos, o perímetro central cresceu sem levar em conta as nuances de uma cidade que precisa se desenvolver naturalmente, com o aumento da população e, por conseguinte, de vetores urbanos para absorver o tráfego de veículos. O resultado é que há apenas uma avenida, a Manoel Ribas, com duas pistas, que serve de eixo de ligação com os bairros. O restante são ruas apertadas – mesmo as que cortam o Centro, como a Vicente Machado e a Saldanha Marinho, que, ainda, abrigam estacionamentos de ambos os lados diante da escassez de vagas no perímetro, exigência imposta por comerciantes.
Historiadores entendem que não seria o caso de intervir no Centro Histórico. Ao contrário, preservá-lo, estruturando uma cidade que pudesse ir se atualizando urbanisticamente no decorrer do tempo, com projeção de um novo anel viário. É o que se encontra em cidades históricas da Europa, onde o contemporâneo convive harmonicamente com o passado preservado, e justifica a cultura e o turismo em larga escala. Ora, pois, quando se equaciona estas duas vertentes, a cultura secular se impõe – e é isto o que impulsiona o turismo.
Projeto ambicioso, execução desastrosa
Idealizado pela gestão do ex-prefeito Celso Góes (2020–2024), o projeto pretendia transformar o Calçadão num “shopping a céu aberto”, com quiosques gastronômicos, venda de produtos locais e estrutura para eventos culturais. Mas o que foi entregue até agora é apenas um traçado diferente da rua, com pistas de rolamento reduzidas e calçadas mais largas – onde nada foi instalado.
Comerciantes afirmam que houve improviso e má gestão. Ao lado do vazio, observa-se menos movimento, menos vagas e mais confusão.
Os impactos também são práticos. A Rua XV de Novembro é um dos únicos eixos viários da região central, conectando bairros e facilitando o acesso a serviços públicos, bancos e comércios. Seu fechamento parcial ou total, somado às dificuldades logísticas em vias alternativas como a Vicente Machado e a Saldanha Marinho – estreitas e sobrecarregadas – , criou um nó urbano que a cidade ainda tenta desatar.
O centro que perdeu sua centralidade
Mais do que uma erro de infraestrutura, o caso do Calçadão da XV revela uma crise de identidade urbana. Por décadas, o centro de Guarapuava foi palco de manifestações culturais, eventos sociais e da vida cotidiana de seus habitantes.
O desafio é fazer o Centro de Guarapuava voltar a ser o “point” que outrora marcou os seus diferentes estágios econômicos, dos anos 1800 para cá: dos antigos corsos momescos da sociedade tradicional guarapuavana, passando pelas Cavalhadas, o Theatro Santo Antônio, os bares e restaurantes históricos (do Bar América, ao Rosário, Cinelândia, Samuara, à Boatinha e Restaurante do Atalaia Palace Hotel), aos bailes do “aristrocrático” Guaíra Country Clube e o Guairinha, do Daio à boatinha Rufs, dos desfiles dominicais no Bobódramo (passeios de carros na Rua XV), as sessões noturnas e nas tardes de domingo no Cine Guará, as rádios Cultura, Atalaia e Difusora que deram voz a grandes nomes da arte nacional, à Pastelaria do Italiano.
Hoje, a área é frequentada majoritariamente por usuários de serviços bancários, aposentados e beneficiários de programas sociais. A proposta de revitalização pretendia reconquistar esse espaço para o turismo e o comércio, mas até agora só produziu frustração.
Para um contingente considerável da população, a obra não respeitou o que a XV representa.
O que vem a seguir?
O contrato com a empreiteira está em fase final. A Prefeitura promete realizar a vistoria nos próximos dias e dar por encerrada a execução atual do projeto. Mas, para especialistas e moradores, a discussão está longe de acabar. O que será feito com a área ampliada? Haverá novos investimentos ou a obra será mais um exemplo de desperdício de recursos públicos? A Prefeitura afirma que “há planos”, e o prefeito Denilson Baitala já antecipou o grau de dificuldades, considerando que há um contrato que envolve financiamento público.
No entanto, a Rua XV de Novembro não pode ser o símbolo de uma cidade que vive em constante conflito com o passado e futuro, entre memória e modernidade, entre o que foi prometido e o que, de fato, se concretizou. A expectativa é de que as mudanças tenham como princípio o sentimento da população, sabendo interpretá-lo na essência, pois a ela, a gente guarapuavana, que a cidade é destinada.
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